Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

4 coisas que aprendi sobre depressão crônica parindo sem anestesia

Para quem está chegando ao meu blog pela primeira vez, uma breve contextualização: enfrento a depressão (sem remédios) desde a adolescência. Pari na sala da minha casa acompanhada por uma equipe composta por parteira e duas doulas. Não encontrei a cura da minha depressão no parto, mas a partir do acesso direto que tive à potência do meu sistema reprodutor e aos conceitos ligados à minha fisiologia, pude refletir profundamente sobre minha sexualidade, sobre os traumas que carrego provenientes da cultura do estupro.

Fiz uma Vakinha para parir na sala da minha casa (após o término de um relacionamento abusivo) porque sou nerd e li muito durante a gravidez. Nessas leituras, entendi que a violência no parto é naturalizada no Brasil e que eu não estaria livre dela se parisse em hospitais ou casas de parto. Além disso, durante as minhas pesquisas, tive acesso ao conhecimento de que uma violência do parto gera um trauma equivalente a um estupro e que o acesso a um parto respeitoso pode ser uma potente via de cura para uma sexualidade roubada. Hoje, dois anos e meio depois de ter parido, reafirmo: parir com dignidade é, sim, uma via de cura para uma mulher com traumas sexuais. Por isso o SUS deveria fazer parceria com parteiras em todo o território nacional, porque os hospitais vão demorar a se corrigir nesse aspecto e a mudança social é urgente. É uma questão de saúde pública que começa na sexualidade mas vai muito além dela. Está relacionada com traumas decorrentes da sexualidade roubada das mulheres e dos transtornos que isso provoca.

  1. A sociedade entende de depressão como entende de parto

respiro

Descansando e sorrindo entre as contrações enquanto recebo um carinho de mãe.

Ou seja: não entende nada. As mulheres foram privadas do acesso ao conhecimento sobre a própria fisiologia reprodutiva desde sempre. Na Idade Média, por exemplo, lésbicas e parteiras foram queimadas na fogueira da Inquisição junto com o conhecimento que produziam e registravam sobre a anatomia feminina. Com a depressão não é muito diferente: o transtorno, na maioria das vezes, é considerado como “preguiça” e “vagabundagem” pela falta de acesso à informação dos familiares e amigos, que acreditam que a pessoa depressiva precisa pensar positivo para que a depressão acabe, como se o pensamento positivo fosse capaz de curar alguém da depressão. Precisamos falar sobre a anatomia da depressão, assim como precisamos falar sobre a anatomia feminina. Precisamos ser radicais nesse sentido para irmos na contramão da censura e do sequestro de nossas potências de parir e de nos autocurarmos. Pra ontem.

  1. Depressão crônica é um longo trabalho de parto

cochilo

Cochilando entre as contrações, numa boa, numa nice.

A diferença é que a pessoa que vai nascer não é um bebê e sim uma nova você. A dor de um trabalho de parto acontece devido às contrações do útero, que vêm com força e passam, continuamente, até o momento da expulsão do bebê. As dores de um trabalho de parto não são ininterruptas. Há uma folga entre elas, um espaço sem dor alguma cujo tempo varia de mulher para mulher e também depende de que estágio se encontra o trabalho de parto, se no início ou no fim. É possível até dormir entre as contrações! No final do trabalho de parto, perto da expulsão, as contrações vêm cada vez menos espaçadas e a dor se intensifica pois não há mais o descanso entre uma dor e outra. Nesse momento, todas as mulheres que parem sem anestesia experimentam algo parecido: vontade de desistir. Estão a poucos minutos da expulsão e querem desistir porque a sensação de que a dor nunca vai ter fim é maior do que o entendimento racional de que aquilo é apenas uma parte natural do fim do processo do trabalho de parto. Depressão crônica também é assim. A dor vem de repente, se instala, parece que nunca vai acabar, mas aí vem um momento de respiro para depois voltar novamente. Muitas mulheres ao se depararem com o momento em que as dores não dão descanso, realmente desistem, cometendo suicídio. Isso ocorre porque não estamos conscientes de que esse momento, o da dor insuportável, é exatamente o momento que antecede uma transformação interna, um novo olhar sobre si mesma e sobre seu histórico de dor, um novo olhar sobre a potência humana de renascer sem precisar ter morrido. Muitos suicídios poderiam ser evitados se esse tipo de abordagem fosse ensinada para as pessoas que cercam quem tem depressão. É disso que as pessoas depressivas precisam. De um acompanhamento empático da sociedade, um acompanhamento empático que pode ser comparado ao trabalho de uma doula.

  1. O grito da parturiente deve ser encorajado, não censurado

grito

“Porque há o direito ao grito, então eu grito.” – Clarice Lispector // “Seu silêncio não vai te proteger.” – Audre Lorde

Em um trabalho de parto, vocalizar ajuda a aliviar a dor. Essa é uma metáfora incrível sobre a qual o mundo precisa se debruçar se quiser levar a sério. Na maior parte das vezes, uma mulher é depressiva porque ela não foi ouvida, porque sua voz foi abafada, porque ela não apenas se sente só, mas é realmente só, tem de lidar com todos os seus problemas e traumas sozinha. Pode ser que seja a história de uma menina que sofreu abuso sexual, uma vez ou várias vezes, que tentou falar sobre isso mas só encontrou desconfiança e silenciamento. Essa história foi e é a minha. Então a voz calou de uma vez por todas mas o corpo se rebelou e por isso a depressão apareceu. Porque muitas vezes o silenciamento é tanto que até a memória é apagada. Mas o corpo, inteligentíssimo corpo, ele não se esqueceu. Corpo é consciência. E ele guarda em si a potência da autocura. Por isso a dor: pra fazer lembrar e falar. Porque falar alivia. Mas falar às vezes é pouco. Uma vez lembrada aquela memória que foi apagada, a raiva é tanta que a pessoa precisa gritar. Colocar aquele ódio guardado pra fora. É aí que a sociedade, até mesmo profissionais da saúde, acabam sendo contraproducentes. Porque eles repetem o silenciamento e nessa repetição a violência volta, agravando o caso. Não é mais a lembrança que dói e sim a violência atual que tenta censurar aquele grito que já foi tão abafado. A censura social impede que as mulheres sejam curadas da depressão. A censura ao ódio que as mulheres expressam de seus agressores é mais uma barreira que as impede de serem finalmente curadas. Mulher não odeia, tem que amar, tem que só demonstrar carinho, afeto e ternura, nunca rancor. Mais uma vez a moral religiosa que permeia os estereótipos sexuais sequestrando nosso protagonismo.

  1. Fazer terapia com profissionais despolitizados é como fazer uma cesárea

A misoginia, o racismo, a lesbofobia e a pedofilia são as grandes causadoras da depressão em mulheres. São problemas sociais, não individuais, que precisam ser tratados socialmente e não individualmente, com remédios. Remédios, assim como cesáreas, podem ser necessários em casos extremos, mas não são necessários em todos os casos. O necessário é que se incentive quem está fazendo a terapia a se conscientizar das opressões sociais (caso ainda não esteja consciente) e apoiá-la para que se junte a semelhantes e lute por seus direitos. Ao protagonizar a própria luta junto de outras mulheres que sofrem por questões semelhantes não só a autoestima melhora como também a transformação social se torna cada vez mais possível. O contrário acontece com a utilização de medicamentos que combatem apenas os sintomas e não as suas causas. Os remédios costumam despersonalizar e inibir a consciência, bem como acabam também colaborando para o isolamento de quem está sendo medicada uma vez que os antidepressivos podem gerar ainda mais ansiedade social. A solução dos problemas fica então a encargo dos remédios, que se tornam um vício porque conexões – neurais e humanas – estão sendo coibidas. Quem ganha com isso? O patriarcado, os donos do capital, a indústria farmacêutica, profissionais não comprometidos integralmente com a saúde. Um por cento da população mundial.

Ficou interessada em saber mais sobre o meu parto?

Leia o MEU RELATO.

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2 Respostas para “4 coisas que aprendi sobre depressão crônica parindo sem anestesia”

  1. Keli-Alexandre

    Nat, achei essa frase muito problema, porque ela diz isso “Hoje, dois anos e meio depois de ter parido, reafirmo: parir com dignidade é, sim, uma via de cura para uma mulher com traumas sexuais” e induz ao pensamento tentador de que ter filho é a cura da depressão. E muitas mulheres vêem a maternidade como válvula de escape.
    Só li esse texto agora e não tinha como eu não puxar meus cabelos com esse trecho.
    Beijos.

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