Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

A autora

Sobre

8 anos, by papai

Quando eu era pequena, escrevia histórias e fazia um desenho ao lado para ilustrar a minha criação. Depois passei a usar uma agenda que ia comigo pra onde eu fosse. Ganhei concursos de redação na escola e descobri que tinha um talento. Mantive as agendas, e como retribuição, elas me mantiveram viva durante uma adolescência repleta de dificuldades financeiras, familiares, emocionais.

Uma dessas agendas, o Livro da Tribo, me colocou em contato com a poesia contemporânea: aquela que não se faz de difícil. Poesias diretas, nevrálgicas, rebeldes e insubmissas. De Leminski, Alice Ruiz, Valéria Tarelho. As que não desejam a grandiloquência e nem se contentam em rimar por rimar. Fiz os meus experimentos poéticos e descobri que era um caminho sem volta. Ganhei concurso de poesia no interior, fui publicada no jornal. Grandes merda, mas fiquei feliz pelas bobagens.

Me joguei num curso de Letras por paixão pela palavra e fui descobrindo outras. Educação, linguística, semiótica, comunicação. Achei que poderia ganhar dinheiro escrevendo. Com a cara e a coragem que eu não tinha e a determinação que sempre tive, bati na porta de uma agência de publicidade em SP e consegui um estágio de redação. O diretor de criação era poeta e falou umas verdades que jamais vou esquecer sobre os meus poemas. Pudera: não é todo dia que você pode ouvir conselhos poéticos de alguém que bebia com o Leminski.

A profissão me transformou. Me fez mudar do interior pra capital, me afastou da família, me botou em contato com um mundo que eu não conhecia. Transformou minha personalidade, meus gostos, minhas referências e minha poesia. Conteúdos e formas. Me enlouqueceu. Me deu raiva. Me fez buscar outras direções que se aproveitassem da bagagem profissional que eu já tinha. Direções mais humanas, mais reais, mais significativas pra mim e pras pessoas. Era isso: eu não queria servir marcas, ou só marcas. Queria servir pessoas. Vislumbrei o caminho de criação de conteúdo e vi o mundo se abrir diante dos meus olhos novamente.

Uni a loucura que a vida urbana havia me oferecido às experiências profissionais que tive como redatora e resolvi arriscar. Bati na porta de uma empresa que gerencia artistas e eventos de música eletrônica e mais uma vez mudei o curso da minha vida. Fiz o que queria: servi uma marca em que eu acreditava e servi as pessoas que acreditavam nela. Fui além da minha bagagem, me joguei às cegas em uma área que não conhecia. Planejei, criei, executei e produzi. Briguei pelas minhas ideias e muitas delas fizeram o diferencial do projeto. Não era mais só eu e o word. Era eu, a internet e as pessoas. Era eu, dois eventos e as pessoas. Era eu apaixonada pelo que estava fazendo. Perdidamente.

Então fiz um curso de Comunicação Contemporânea na Perestroika que mais uma vez me transformou. É, eu sou dessas que curtem uma antropofagia. Permito que tudo e todos me transformem. Nunca saio imune de um emprego, de uma conversa, de um curso. Fiquei com vontade de me aproximar mais ainda das pessoas e de mim mesma. Recebi uma proposta de emprego no RJ que me daria essa oportunidade, me pagaria o dobro do que eu ganhava e me proporcionaria a oportunidade de morar a algumas quadras da praia.

Mas um acontecimento mudou tudo. Duas semanas antes de me mudar, descobri que estava grávida. Já havia pedido demissão do outro emprego e perdi a oportunidade do novo. Fiquei com uma mão na frente e outra atrás. Com três meses de depressão. Rejeitei a gravidez. Senti medo, culpa e raiva. Muito enjoo e muita vontade de morrer.

Até que eu morri. Morri para dar espaço à mãe que em breve serei.

Este blog é para me lembrar de que estou viva, ativa e em constante transformação. Para compartilhar o que ficou de essencial em mim depois da minha morte simbólica: poesia, a vontade de me melhorar a cada dia, de ajudar as pessoas ao meu redor, e principalmente a paixão pela palavra. Porque a palavra transforma a realidade.

Provo isso com a minha própria vida.

11 Respostas para “A autora”

  1. Claudia

    Que emoçao! Estou ainda aqui pensando no que te dizer… mas nao tenho palavras. Tenho sò sentimentos!
    Vim nesse site em busca de um apoio psicológico em relaçao a pontos de desacordo com a nossa consulente pedagogica da escolinha que estamos criando aqui na Italia.
    O teu texto “Eu nao educo meu filho para ser independente” è exatamente oque eu precisava para colocar no lugar as minhas ideia. Para reforçar o principio da nossa escolinha! Fenomenal, muito obrigado!
    Mas a tua biografia è arrebatadora, assustadora, confortante, um colpo seco e dolce!!! LINDA!

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    • milfwtf

      Claudia, obrigada pelas palavras, fico até meio sem jeito. Você é irmã da Ana Cris? Sua escola é Montessori? É você quem está procurando material sobre participação de pais na escola? Porque se não for, é muita coincidência… e se for, também!

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  2. Claudia

    Sim sou eu 🙂
    Eu vi a tua resposta no Facebook da minha irma e vim ver quem era essa tipa maravilhosa que estava respondendo exatamente oque eu estava precisando… e mergulhei nas tuas palavras.

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  3. Abigail

    Amei seu discurso, amei sua história. Sou mãe solteira também, tive que me afastar do trabalho por ter tido gravidez de risco. Sofri violência obstetrícia. Vi retratado tudo que passei nos teus textos. Parabéns pelo blog

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  4. Camila F.

    Sua página é incrível! Muito poderosa sua escrita, sua força. Gostaria de lhe escrever um email pra trocar maIs. Tem algum email de contato?

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  5. Henrique Mafra

    É com profundo e sincero respeito, além de admiração, que lhe deixo minha saudação pelo seu corajoso blog.
    As mulheres e os homens que dedicam sua vida a tentar construir relações mais igualitárias entre as pessoas, a dinamitar muros e construir pontes, a desconstruir estruturas milenares de opressão e violência de toda ordem, precisam encontrar e compartilhar espaços para celebrar a vida e, eventualmente, transformar em trincheiras e tribunas para, sempre que possível, estarmos ombro a ombro defendendo nossas posições e idéias.
    Peço-lhe aceitar minha minhas visitas e eventuais comentários.
    Abraço fraterno.

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