Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Reflexões sobre vício e empoderamento

Eu estou com insônia. Não sei se é porque faltam 10 dias para a sentença ou se é crise de abstinência por eu ter parado de fumar há 72 horas, mas pode ser uma mistura de tudo isso. Decidi parar de fumar agora porque é a terceira vez que tento só neste ano de 2015: estou cansada de tentar. Achei significativo parar agora por poder dar um sentido profundo à superação das crises de abstinência: se eu estou conseguindo me manter longe do cigarro no momento mais angustiante da minha vida, pouco antes de saber se terei ou não de colocar dez mil reais nas mãos do cara que me estuprou por ter me defendido de sua ameaça, não terei mais desculpas pra colocar um cigarro na boca em outras circunstâncias. Mas não era esse o assunto do post. Sendo bem honesta eu esqueci o assunto, droga. Mas já que estou falando de vício, crise de abstinência e sobre a minha estratégia de parar agora pra medir a minha força e depois usar essa medida pra não voltar mais a fumar, quero me aprofundar nisso.

Faz muito tempo que quero parar de fumar. Desde antes de engravidar. Na gravidez eu parei, voltei quando o Théo tinha dois meses de idade. O desejo de parar de fumar era uma ideia permanente porém longínqua: um dia eu iria, não agora que eu tava com depressão pós-parto, não agora que eu tava abrindo processo de pensão, não agora que tava revivendo todos os abusos que tinha sofrido na infância, não agora que o cara que me estuprou me ameaçou por eu lutar contra estupro, não agora que insira todas as desculpas imagináveis que eu usava pra tentar em vão me autoenganar. Eu não queria encarar o meu vício, a minha fraqueza, a minha falta de força de vontade. O cigarro era uma muleta emocional e eu não estava disposta a largá-la. Pelo contrário: eu faria qualquer tipo de malabarismo com a lógica para não admitir que eu não largava o cigarro por f-r-a-q-u-e-z-a. Eu atribuo a fraqueza ao fato de não admitir que para parar de fumar eu teria de fazer um esforço consciente e ser resiliente para manter a minha decisão. Eu não queria fazer esse esforço, francamente. Já estou me esforçando demais pra me manter viva, deixo essa meta pra depois, eu pensava. Mas eu tenho essa coisa de não saber ser uma farsa diante do espelho. Não tenho o dom que muitas pessoas têm de repetir a mentira diante de si mesmas até que a mentira se torne uma verdade dentro delas. Como assim eu estava me esforçando pra me manter viva fumando? Isso não faz o menor sentido. Eu estava consciente o tempo todo e fugia dessa consciência sem muito sucesso porque uma vez que se tem a consciência não há como se desfazer dela. Eu sabia que cigarro era suicídio lento, que fumar era sintoma de que eu odeio o meu corpo. Eu estava consciente de que eu ia precisar fazer esse esforço pra me manter viva a sério e não de fachada, e quando eu digo eu sabia não é sobre alguma parte dentro de minha mente que sabia o que eu tinha  que fazer e sim sobre o meu corpo inteiro que passava mal depois que eu fumava (às vezes ). O meu corpo estava falando comigo: até quando eu ia me recusar a ouvir a voz mais poderosa que eu tenho, essa que fala através dos sintomas? As ânsias, os enjoos, as dores de cabeça: o que elas queriam me dizer? Simples: que eu tinha de parar de fumar.

Este foi o xeque-mate que a minha consciência me deu desde que passei a questionar o quanto eu vinha negligenciando o meu corpo, jogando o jogo que os patriarcas haviam criado para que eu jogasse, gastando dinheiro com uma morte a prazo. De que adianta não me depilar para “me amar” se bombardeio meu corpo com mais de quatro mil substâncias tóxicas pelo menos umas cinco vezes por dia? Sem falar no tempo que cada cigarro consome. Eu passei a questionar isso depois da maior crise de ansiedade que tive na minha vida, ocorrida no dia 3 de março de 2014, o dia que o estuprador me ameaçou. Fiquei em estado de choque, o meu corpo tomou o controle da situação pouco se importando com plateia na internet, com a explicação que eu daria para o meu pai, com a autoridade da delegada que ria da minha cara por eu tentar denunciar um estupro somente 9 anos depois do ocorrido, como se os seis meses com os quais contamos atualmente para denunciar fossem suficientes para as mulheres superarem o medo e encarar as instituições. Eu fui entender que aquilo era um estupro muitos e muitos anos depois. Voltando pro corpo: ele ficou no comando. Instinto de sobrevivência. “Vai, corpo, usa a tua potencial para o grito”, creio que o meu cérebro tenha obedecido à reprogramação mental que eu vinha fazendo desde a gravidez: o silêncio não vai te proteger (Audre Lorde). A voz atravessou o medo, a tremedeira, o choro engasgado. Enfrentou o estuprador, a figura paterna, a delegada debochada e a psicóloga que teve a audácia de sugerir que eu ainda era apaixonada pelo estuprador. A crise de ansiedade desestabilizou a minha socialização e fez nela um furo ao colocar o meu corpo no comando de tudo: nosso corpo é poderoso e sabe a língua que deve falar para salvar a si mesmo. Talvez a cura more na loucura. Se eu sabia disso, se eu experimentei toda essa sabedoria que vem do corpo ao parir, se eu experimentei toda a sabedoria do corpo ao não me calar diante do cara que me estuprou, por que fingia que não ouvia o que meu corpo me dizia sobre o cigarro?

E assim, finalmente, estou há mais de 72 horas sem fumar.

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4 Respostas para “Reflexões sobre vício e empoderamento”

  1. Be quiet

    Não sei até que ponto um comentário como esses pode fazer diferença, mas senti que deveria fazê-lo (talvez seja pelo fato de que vibro com as conquistas das pessoas — ainda que eu não as conheça realmente).

    Enfim: pude compreender claramente eu isso tem gosto de uma pequena vitória para você, e que te deixa feliz ou, no mínimo, mais satisfeita consigo mesma. Parabéns. Sério.

    Cada um luta com um tipo de vício e você está se libertando de mais uma amarra. Acho isso massa demais.

    Sinta-se abraçada.

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  2. Vitória

    Ouvir os apelos do corpo é algo muito mais difícil do que podemos imaginar, principalmente quando se trata de um vício que acaba consumindo o nosso tempo e energia.
    72h podem parecer pouca coisa em termos puramente quantitativos, mas quando vinculamos o tempo ao que somos e o que sentimos, tudo se torna bem mais complexo.
    Espero que você passe a não mais sentir falta do cigarro, essa amarra que prende as pessoas à condição de dependentes – como se amar dependendo de algo tão tóxico que nos mata aos poucos? não dá!

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  3. sweetnessandalonghair

    Ler sobre o estuprador me fez lembrar de algo e pensar bastante a respeito disso. Quando eu tinha uns 10 anos estava brincando na casa de uma vizinha, que na época tinha uns 7 anos. Tinham outras vizinhas, e alguns meninos também. Uma das vizinhas tinha 5 anos. Os meninos tinham minha idade. O pai dessa vizinha onde estávamos colocou um filme pra gente assistir, esse filme chama-se “Tora de Ébano”, como eu poderia me esquecer desse nome? Eu pude assitir 2 vezes, porque eu era a menina mais velha. Assisti primeiro com os meninos e depois com as meninas. Foi ele, o pai da minha vizinha, quem disse as outras vizinhas e a filha dele eram muito novas pra assistir o filme perto dos meninos, mas eu podia, e me senti “privilegiada”. Eu lembro do filme, lembro do personagem, lembro do que senti. Mais de dez anos depois eu o reencontrei. Eu já estava estudando psicologia e estava fazendo estágio no Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil (CAPS), ele era o auxiliar de enfermagem de lá. Num lugar onde eram atendidas crianças e adolescentes com transtorno mental grave. Fiz a denúncia para a diretora de saúde mental da Regional de Saúde da cidade. Mas mesmo assim eu ainda o cumprimentava, ele parecia ser um cara legal. E eu me culpo muito por isso. Acredita que eu queria conversar com ele a respeito? Saber por que ele tinha feito aquilo. Eu queria ouvir aquele idiota.
    Te ler tá sendo lindo. ❤

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