Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Até a última gota de sangue #ProjetoHisteria

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Autoria procurada e não encontrada. Caso você seja a autora desta ilustração, mande um e-mail para aredatora@gmail.com que eu coloco o crédito.

Eu pedi pra ser estuprada e eu gostei. Tudo o que eu sempre quis foi acordar aos sete anos de idade com um velho deslizando seus dedos sobre minha vulva, parte do corpo que eu mal sabia nomear porque fui impedida. Por quem? Eu gostei e quis tudo o que aconteceu comigo depois disso. Eu gostei de ter levado um soco no olho quando falava com uma garota ao telefone. Do meu pai. Eu gostei de ter um namorado quando na verdade eu era lésbica. Dois. Vários. Eu gosto das lembranças da penetração. Eu não vivo sem pau. Eu tenho inveja de pênis. Freud estava certo. Marx é o cara. Eu é que não sou dialético-materialista o suficiente para criticar Marx. Sou subjetivista: defendo o direito à existência lésbica porque isso é uma questão metafísica e identitária, não tem nada a ver com a materialidade do ar entrando pelos meus pulmões permitindo o pulsar do meu coração. Eu sou isso o que ela disse, e aquilo que aquela outra disse, e aquela outra coisinha que aquela outrinha falou também. Meu alinhamento político é o que fulana disse. Minha ética é o que beltrana contou. Cicrana estava correta: eu queria, eu quis, eu provoquei. Eu gostei de ter apanhado. Eu gostei de cada lágrima que derramei. Eu gosto. Eu estava pedindo. Eu era a puta, a trepadeira, a vadia. Eu permiti que usassem a minha imagem para tentar me controlar.

Eu quis deixar que me odiar.

Era uma vez uma imagem que de repente descobriu que era humana desde o início. Eu gostei. Eu gostei de quando pela primeira vez decidi que o que valia era a minha percepção. Eu gostei de quando eu atravessei os traumas e cheguei na raiz dos problemas. Eu gostei de falar: útero. Eu gostei de falar buceta, xoxota, vulva, vagina, clitóris, grandes lábios, pequenos lábios. Eu gostei de deitar minha língua em línguas que falam a minha língua, que entendem a minha língua. Eu gostei da palavra lésbica e aprendi a me orgulhar da palavra sapatão. Eu gostei de usar a língua para defender o meu direito à fala, à escrita, à autoria. Eu gostei de ter tido a intenção de criar um movimento, de ter seguido meu instinto de sobrevivência e entendido que eu posso sim alcançar sucesso no que desejo fazer da minha vida. Arte. Educação. Eu gostei da potência que eu via e ninguém mais via em mim, e eu gostei de lutar para ser vista para além dos disse-que-disses. Eu gostei de querer. Eu gostei de dizer sim para mim. Eu gostei de ter criado a SóMinas. Eu gostei de todos os meus orgasmos autogeridos e gostei mais ainda de todos os orgasmos que provoquei lambendo e tocando clitóris suavemente, ou esfregando clitóris com clitóris. Eu gostei de mandar macho à merda. Eu gostei de mandar macho calar a boca. Eu gostei de cuspir na cara de fascista. Eu gosto de me imaginar matando meu estuprador. Eu gosto dessa força que estou redescobrindo em mim. Eu gosto de quem eu sou apesar de todos os machos violentos que passaram pela minha vida desde o meu nascimento. Desde antes do meu nascimento, enquanto eu ainda estava no útero de minha mãe. Eu gosto da minha mãe, eu gosto das minhas amigas, das minhas primas, das minhas tias, das professoras que tive, das cunhadas que tive. Eu gosto da história que fiz do que fizeram comigo. Eu gosto de mim. Essa é a minha vitória diária. Gostar de mim cada dia é uma vitória. Nem sempre venço: às vezes quem vence é o cansaço de não ter escolha. Mas eu gosto de saber exatamente o que fazer com a minha dor: expressá-la, medir seu alcance, interpretar conteúdos, analisar, mostrar que existo apesar das invisíveis estatísticas sobre o extermínio de corpos lésbicos. Eu gosto de analisar, sinceramente. De me fazer sujeito de minha própria voz. Eu gosto de lutar #PeloFimDoCasamentoInfantil, e já não me sinto mais sozinha.

Eu estou escoltada pela história, que conta quem é quem, que eu conto sobre mim. Que comecem os jogos de linguagem #PeloFimDoCasamentoInfantil. Eu sou Natacha Orestes aka #ProjetoHisteria, autora do movimento #MulherArtistaResista e moradora da Casa SóVulvas.  Eu sei o que quero fazer da minha vida: proteger meninas de estupradores. E eu vou até o fim. Só não vou se me matarem antes. Mas este é o registro que deixo. A mensagem que sopro ao vento. A música que danço, que canto, que mixo. Isso não conseguirão matar. Eu sou a memória viva de todas as mulheres estupradas e permanecerei viva pelas bocas que não silenciam suas dores.

Eu sou cada boca que grita o que deveria ficar em segredo.

Eu não estou em silêncio.

Até a última gota de sangue.

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