Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Lesbofobia na família – um relato #ProjetoHisteria 

Autora: Sarah Sanches

​”Você tem que escolher entre mim ou ela”, ela gritou do outro lado da linha ao saber que a sobrinha estava em uma relação lésbica. “Entre mim ou ela”. 
O que mães, pais, avós, tias, tios, irmãs, irmãos e quaisquer outras e outros sujeitos não percebem, ou fingem não perceber, é que não se trata de uma escolha entre duas pessoas a quem se ama. Entre a/o familiar e a mulher com quem se relaciona. Se trata de uma escolha por si mesma.

A crueldade da lesbofobia não está somente na tentativa de barrar as nossas relações, de dizer que elas são pecaminosas, erradas, sujas, anormais, mas está na destruição de nós mesmas enquanto sujeitas.

Uma mulher lésbica é lésbica mesmo solteira. É a existência dessa mulher, de quem ela é, dos seus afetos, que vocês denominam de pecaminosa, suja, anormal. Mesmo que uma mulher lésbica faça a escolha de não estar com outra mulher por medo da lesbofobia, por medo da rejeição, por medo do desafeto das pessoas a quem ama, os signos que vocês jogam sobre nossos corpos e nossa psique continuam a arder na nossa carne e nos destruir por dentro.

Não estar com uma mulher pode ser uma escolha, embora não sem dor. Mas não há como deixar de amar e desejar mulheres porque isso é quem nós somos. E é à isso que vocês denominam de sujo, anormal, pecaminoso: a pessoa que vocês dizem amar.

Quando você diz para uma mulher lésbica que ela tem que estar com um homem, o que você está afirmando é que ela tem que se submeter a passar a vida sendo estuprada por alguém a quem não deseja e não ama. E não há possibilidade de amar a sua filha, sua sobrinha, sua irmã, ao mesmo tempo que deseja para ela uma vida de dor e sofrimento só para que você mesma não tenha que lidar com o questionamento das suas próprias crenças.

Vocês desconhecem em absoluto a trajetória e as narrativas de lésbicas sobre sua própria existência. Vocês se recusam a escutar, a conhecer. Estão mais ocupadas em julgar e condenar, em passar suas crenças por cima das feridas das suas a quem dizem amar. Se vocês escutassem, talvez soubessem o quanto essas mulheres lésbicas, a quem vocês querem condenar à uma vida ao lado de um homem, já tentaram com tudo que podiam ser aquilo que vocês esperam delas: heterossexuais. Talvez vocês soubessem o quanto essas mulheres já choraram, já sofreram, já foram machucadas e já se machucaram com o único objetivo de não decepcionar vocês.

Mas não ser lésbica não é uma possibilidade. 

Eu e a minha primeira namorada tínhamos uma relação à distância e escondido. Sempre que eu ia vê-la era sem que a mãe dela soubesse. A mãe dela dizia preferir uma filha morta à uma filha lésbica. Nós não estamos juntas há 6 anos, e ela continua sendo uma mulher lésbica. Vivendo relações escondidas até hoje, pelo que sei. Destinada à uma vida de vergonha de si mesma, por ter sido marcada pela crença de que é tão abominável ser lésbica, que a mãe a preferiria morta. 

Há lésbicas que se suicidam por isso, sabiam? Há mães e pais, tias e tios, irmãs e irmãos, avós e avôs, padres e pastores com o sangue de lésbicas nas mãos.

Já com a minha segunda namorada, eu nunca pude estar na casa dela, ou em quaisquer espaços em que qualquer parente dela estivesse. Ela era lésbica sete anos antes de mim e continua sendo lésbica até hoje, quase dois anos depois que terminamos. Essa assumiu-se em todos os espaços, mas continua não podendo ser uma mulher lésbica dentro de casa. Suas relações ficam do lado de fora da porta.

E essa é a única negociação possível para tantas de nós não perdemos os laços com as nossas famílias: deixar a nossa lesbianidade como um dado obscuro e secreto da nossa existência, algo que não pode ser dito, não pode ser nomeado, não pode ser visto. 

Lesbofobia adoece, sabe?

Ela flagela à nós mesmas e às nossas relações, ela nos deprime, ela constrói crenças que nos limitam, que nos impedem de viver de forma plena, ela nos faz acreditar que deveríamos ter vergonha de quem somos, de que a nossa existência é um peso, uma decepção, de que nossa existência é dor.

E isso mata.

Eu levei anos para construir uma relação de orgulho, alegria e força com a minha lesbianidade. E isso só foi possível através da minha relação com outras lésbicas. Mas chegar até aqui me custou muitas lágrimas, muita dor, muita invisibilidade e rejeição, e olha que minha trajetória é infinitamente menos dolorosa do que a de muitas lésbicas, principalmente se comparada à maioria de lésbicas negras, não feminilizadas, pobres e/ou de famílias conservadoras e muito religiosas.

Aprender a localizar a origem da nossa dor: os outros e não a nossa existência é precioso para nossa sobrevivência psíquica. O meu problema nunca esteve em ser uma mulher lésbica. O problema de nenhuma de nós está em amar e desejar outra mulher. O problema está na forma como o mundo nos trata por amarmos mulheres, e mais do que o mundo, como as pessoas de quem esperamos amor nos tratam por sermos lésbicas. 

Eu agradeço por hoje, depois de um processo de mais de dois anos desde a minha primeira relação lésbica, ter na casa da minha mãe e do meu pai um lugar seguro e confortável para existir enquanto lésbica, para existir em plenitude, para estar com uma mulher e não ter que temer pela minha vida ou por desafetos, porque ter que viver cotidianamente omitindo quem se é ou sendo violada por ser quem se é, dói, adoece e mata. 

Eu existo enquanto lésbica assumida (assumindo relações lésbicas e depois a mim mesma enquanto lésbica) há quase nove anos agora, e eu posso afirmar que, no que se refere à lesbofobia (e isso também pode dizer dos meus privilégios), nada nunca doeu tanto quanto duas coisas: a lesbofobia que veio de dentro da minha própria casa e o quanto a lesbofobia vinda de dentro da casa das minhas namoradas flagelou à elas, à mim e às nossas relações.

Pensem que vocês não estão fazendo suas filhas, sobrinhas, netas, escolherem estar com uma mulher ou não, mas, sim, escolherem estar vivas ou não.

Então, nos deixem viver.

Eu sou #ProjetoHisteria e mixo narrativas contra a cultura do estupro. 

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