Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Folha: presunção de inocência é culpabilização da vítima #ProjetoHisteria 

Quando meu caso de processo após narrar estupro estampou a capa do Jornal Folha de S. Paulo ao lado da nadadora Joanna Maranhão, a repórter me disse que ela iria entrar em contato também com o estuprador por um regimento interno chamado “presunção da inocência”. Antes de eu narrar o estupro na rede ele me ameaçou de morte e havia prova dentro do processo, um print. Mas ainda assim a “presunção da inocência” valeu.
A matéria era sobre revitimização: mulheres que tornam a ser vítimas depois da violência de fato, processadas por seus agressores como se as criminosas fossem elas. Eu era a “ré” que precisava da presunção da inocência e contestei a repórter: aquilo a que me exporiam quando pusessem meu discurso e foto na mesma matéria que o discurso do estuprador em sua própria defesa seria uma forma de revitimização. Ela se defendeu, tentou defender o jornal, eu disse que não era culpa dela mas de seus superiores, homens. Que aquilo era revitimização sim, e que dizer isso a ela fazia parte do meu ativismo. Felizmente o energúmeno cagou nas calças de medo e não quis dar sua versão. E ainda foi grosso com o jornal bonzinho com violadores sexuais.

Agora a Folha tirou a denúncia da figurinista Su Tonani sobre o Zé Mayer alegando o mesmo motivo pelo qual o cara que me estuprou foi procurado: presunção da inocência. Uma expressão bem bonitinha e politicamente correta para culpabilização da vítima. Quantas vezes esse mesmo jornal não chamou adolescentes de bandidos, não se preocupando com a tal da “presunção da inocência”? Quantas vezes esse mesmo jornal usou a expressão “suposto estupro” em casos que havia prova material de agressão, no meu caso a ameaça de morte? Por que a voz de sobreviventes de estupro são desacreditadas e relegadas ao status de suposição, como se houvesse algo em nossa genética que nos fizesse mais propensas à mentira? Não vamos fazer de conta que a misoginia psicanalítica não nos pinta como sensíveis, emocionais, fantasiosas e irracionais porque, agora sim supostamente, a biologia feminina é inferior por ter vagina e não pênis, ocitocina e progesterona e não testosterona. Não vamos fingir estes não são os motivos pelos quais somos duvidadas na família, na delegacia, no hospital, nos corredores da Rede Globo ou de qualquer jornal.

A broderagem, mores, ela é institucional. 

E a fraternidade é branca.

#MulherArtistaResista

Anúncios

2 Respostas para “Folha: presunção de inocência é culpabilização da vítima #ProjetoHisteria ”

  1. Sophie Dall'olmo

    Natacha, entendo o teu ponto de vista e o motivo pelo qual tu ficou indignada por ela pensar em ouvir a versão do estuprador (aliás, pela política do jornal em questão). É óbvio que, quando se trata de violência contra as mulheres, a palavra de quem cometeu o crime sempre parece relevante. Algo que não acontece em nenhum outro tipo de crime.
    Contudo, o princípio da presunção de inocencia é uma garantia de todas as pessoas, sobretudo de pessoas mais vulneráveis em relação ao estado, como pessoas pobres, negras (os), mulheres, etc. É um princípio base do direito (um dos mais importantes, inclusive), que serve justamente pra combater a criminalização indiscriminada que foi praticada ao longo da história pelo direito penal. O direito penal é por si só racista, higienizador e não é a solução pras nossas demandas, até porque é feito por e para homens (brancos e ricos, diga-se de passagem).
    Por isso, repito, sei que somente quando se trata de mulheres contando as suas histórias que surge a questão “será que é mesmo verdade?”. Se fosse um assalto, jamais iam perguntar pro sujeito se ele realmente roubou. Ao contrário, a foto dele apareceria naqueles programas policiais e todos os direitos humanos dessa pessoa seriam negados, inclusive a presunção de inocencia.
    Só que a desvalorização desse princípio é defendida por Bolsonaros, Trumps, etc, que querem ver seres humanos atrás de muros, pra que sejam esquecidos.
    O direito é um lixo total, mas, apesar disso, o princípio da presunção de inocência é um dos poucos q se salva no direito penal, e geralmente nao é observado pela sociedade ou pelo judiciário (exceto quando se trata de agressores de mulheres).

    Curtir

    Responder
    • Natacha Orestes a.k.a #ProjetoHisteria [Content Creator & Herstoryteller]

      Eu disse que tinha prova no processo de ameaça de morte. Foi o que desencadeou a minha resposta a ele, eu tava quieta no meu canto e ele me ameaçou de morte porque participei de uma campanha contra o estupro de forma genérica e ele vestiu a carapuça. Eu era a ré que precisava da presunção da inocência. Desculpa mas o direito não me representa e a Folha menos ainda. Como disse no texto, quantos adolescentes vulneráveis este jornal já chamou de bandidos sem o direito à presunção da inocência? E caso de estupro, presunção da inocência do estuprador é culpabilização da vítima. Este é o ponto. Não estou falando de outro crime. Estupro não é um crime como qualquer outro, é o mais apagado da história.

      Curtir

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: