Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Terremoto em seus ossos

Eu gostaria de poder te dizer diretamente, sem medo de causar um terremoto em seus ossos, que naquela época em que eu tinha 19 e você 24, quando eu vivia cuidando das suas duas filhas como se fossem minhas, lavando suas louças, arrumando suas pilhas de roupa e varrendo sua sala, se você tivesse largado dele para ficar comigo, eu teria largado de São Paulo para ficar com você. Talvez eu não saberia naquele momento que era mais do que amizade junto com uma vontade de sorver seu clitóris até te sentir gozando, talvez eu não soubesse definir. Só disse a palavra lésbica pra mim mesma em voz alta beirando os 30 e depois da maternidade. Terrível o fato de ter sido exilada de minha própria vida e perceber o que essa minha novidade linguística causou em você. Fiquei com ódio porque você teve a necessidade de afirmar que gosta de piroca ao ouvir a palavra lésbica para provar qualquer coisa, mas você nunca precisaria provar nada pra mim, era pra você mesma que você estava tentando provar sei lá o quê porque se sentiu pressionada pelo novo modo com que eu chamava a mim mesma, babe. Você lembra que era assim que você me chamava? Você lembra do dia em que tomamos chuva e tiramos foto molhadas subindo o elevador? Aquilo na minha boca não era sorriso de amizade e o jeito com que você me olhava não era fetiche, linda, seus olhos tinham qualquer coisa de magnética. Minutos depois o que estava na minha boca pela primeira vez era você, depois eu na sua. A primeira vez em que dormimos na mesma cama, a primeira vez que você estava só comigo, longe das filhas e daquele cuzão.

Vi sua foto hoje na sugestão de amizades. O que 12 anos atrás se chamava acaso hoje se chama algoritmo, tudo está bem mais frio e matemático agora: antes nós éramos uma incerteza sobre a qual eu nem refletia, ia vivendo sem questionar, hoje que questiono você é uma certeza. A certeza de que depois da palavra lésbica eu te assustei e talvez não exista algoritmo ou acaso capazes de nos permitir a resolução do que, por medo, nós nos impedimos de viver.

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