Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Retrospectiva 2016: playing autocontrole w/ #Herstorytelling*

*#Herstorytelling é, ao mesmo tempo, uma metodologia de educação contra a cultura do estupro e uma forma de empreender no ramo da comunicação.

“O que não existe, a gente inventa pra sobreviver.” – Natacha Orestes aka #ProjetoHisteria

Passei o ano de 2016 praticamente inteiro em depressão. Quando o mês de julho chegou e eu ainda não havia tido um respiro, comecei a me desesperar. Em agosto eu fiquei com medo dos sintomas e decidi pedir socorro, avisando alguns familiares sobre os pensamentos suicidas que estavam literalmente me roubando o sono e a (falta de) motivação para levantar da cama. Foi quando eu tive uma visão do meu corpo pendurado do lado de fora da janela do meu apartamento. Curiosamente havia uma corda na janela, que era da persiana antiga. Acariciei a corda e me lembrei de como me senti quando soube que a poeta Ana Cristina César se jogou (ou foi jogada? eu não duvido) de seu apartamento em Copacabana nua e toda ensaboada: com medo de chegar tão fundo em uma dor de modo a não conseguir se desvencilhar dela. Ana Cristina César foi uma poeta brasileira da década de 70. Ditadura.

Hoje temos um poeta golpista na presidência e a Björk mandou o papo. Nós não deveríamos deixar que poetas mentissem para nós.

Eu tinha consciência de que existia algo de Ana C. em mim, que as angústias dela às vezes soavam semelhantes às minhas. A entrega cega à escrita como último refúgio. Naquela época eu duvidava que um dia seria capaz de sentir tão profundamente uma angústia a ponto de achar que a única maneira de fazer a dor parar seria tirar a minha vida. De repente, em 2016, eu tinha dado um passo adiante e sentido o que sempre senti medo de sentir. Vontade de me matar. No mesmo dia da visão, eu tomei a decisão de viver. Saí do transe em que o enforcamento parecia uma opção válida imaginando o quanto isso afetaria o meu filho e principalmente a minha própria história, levando embora todo o esforço que tive nesses quase quatro anos para educá-lo de modo a não obrigá-lo à masculinidade por ter nascido do sexo masculino. Pensei no grande trabalho que eu sabia que tinha feito até ali, em todas as dificuldades que enfrentei, em cada vitória em seu desenvolvimento motor e cognitivo que só eu soube reconhecer e no quanto a minha autoimagem deveria bastar para mim como mãe e profissional, já que as pessoas ao meu redor não reconhecem que sou senhora de minha maternidade e nem que tenho uma bagagem profissional que antecede a maternidade. Pensei principalmente na satisfação de cada homem que me estuprou comentando com seus amigos depois que eu morresse: eu disse que ela era louca. Ana C. César chamou psicanalistas que analisam o sexo feminino na literatura de ratazanas, sempre prontas a definir mulheres como loucas, nos retirando da capacidade de registrarmos história, inferiorizando nossas experiências no mundo. Pensei na orelha do livro que tenho da Virginia Woolf em que o editor ressalta sua “fragilidade mental”. E então me neguei a terminar a minha vida como uma escritora suicida. É tão romântico o suicídio que a desobediência falou mais alto: não serei tão romântica a ponto de escrever com o meu corpo a história que eles querem que eu escreva. Definitivamente: não quero que a história deixada pelo meu corpo seja romântica.

Decidi, portanto, transcender a dor, afinal a depressão é somente uma lente, não a realidade. Apesar de mostrar sim a realidade, esta lente nao consegue perceber a delicadeza dos momentos que poderiam ser alegres, porque a tristeza dos fatos tristes rememorados não larga do pé. Ajustei o foco para rememorar 12 momentos incríveis que o ano de 2016 me proporcionou e que, ao longo dele, por causa do desespero de experimentar uma queda sem fim num abismo desgraçado, eu não fui capaz de enxergar ou dar o devido valor enquanto vivia. Não é uma mera tentativa de “ser mais positiva”, porque estou longe de ser good vibes. Definitivamente não sou good vibes. É, de fato, um exercício de consciência por entender que a depressão deturpa a percepção de quem passa por ela e que a sua cura depende muito mais de decisões do que de remédios. Acima de tudo, é mais uma prova de lucidez e de resiliência que dou a mim mesma. A única pessoa a quem devo provar o que quer que seja. Eu sempre usei a palavra para provar a mim mesma que eu sou eu.

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12 acontecimentos memoráveis de 2016 para Natacha Orestes aka #ProjetoHisteria*

#ProjetoHisteria é a demonstração da aplicação da metodologia #Herstorytelling. Entenda mais sobre no site clicando aqui.

  • Em 2016 eu hospedei em minha casa uma mulher que me trouxe gargalhadas e reflexões profundas. Taynara Bruni, que depois descobri que era fotógrafa e ilustradora. Amiga, você está no topo da minha lista de 2016. Obrigada por existir! Confira aqui o ensaio “Mulheres – Corpo Poético – da fotógrafa Taynara Bruni.
  • Em 2016 eu ganhei meu primeiro mixer. Foi um momento tão simbólico! Quem me presenteou foi a Keyla Silva, geninha da tecnologia que, ao me dar tamanho incentivo, me ajudou a lembrar que é importante sonhar, permanecer sonhando e trabalhando pelo sonho.
  • Ter raspado o cabelo, ainda que não completamente. Será que em 2017 vai rolar?
  • Ter dividido a cabine com a Luana Hansen na Balada da Visibilidade Lésbica, na Tempo Club. Evento produzido por ela. Eu não sou idólatra, mas o que eu senti quando ela me abraçou agradecendo minha presença me deixou atordoada. Eu que fiquei emocionada por estar a altura do convite. Não é somente a imagem de Luana Hansen que eu admiro, mas suas ações no mundo. Ela representou o RAP nacional em Cuba. “Só” isso. E suas letras fazem das batidas o que há de mais político na cena da música nacional. Sou fã demais da trajetória da Luana Hansen e do modo como ela é uma inspiração para outras mulheres, não só as que trabalham com música.
  • Palestrei em duas universidades federais: UFABC (obrigada Coletivo Raízes) e UNIFEI (obrigada Letícia e cia!). Fui censurada da UNESP por ter uma visão abolicionista de gênero, mas vida que segue.
  • Lancei o primeiro site completamente focado em combate à cultura do estupro do Brasil para demonstrar a metodologia de ensino #Herstorytelling.
  • Decidi que o SóMinas não seria somente uma plataforma para me empoderar e sim um empreendimento para me estabelecer economicamente, bem como uma via coletiva de cura.
  • Perdi o medo de falar em público. Medo de falar em público é socialização, medo do público é socialização. Nós, como sexo, somos socializadas ao doméstico e à voz baixa. Ser o centro das atenções enquanto usamos nossa racionalidade assusta. Só até entendermos a importância do que temos a dizer.
  • Vi o #MulherArtistaResista viralizando no Instagram, saindo do online pro off-line, virando bottons, camisetas e estampa de bolsa. Vi o #ProjetoHisteria ocupando notícias nas mídias de massa, sendo convidado para documentários, virando capa de jornal (Folha de S. Paulo). Vi o #Herstorytelling se abrindo diante dos meus olhos e me levando a romper com as minhas próprias fronteiras. E tudo isso se juntando diante dos meus olhos para se tornar o editorial da produtora de conteúdo SóMinas.
  • Quebrei o silêncio em relação ao estupro no mercado de trabalho com o #ProjetoHisteria. Eu tinha medo do desgraçado me matar. Depois de me ver morta do lado de fora da janela, até parece que vou ter medo de morrer. O silêncio já é a morte. A morte do corpo é só o silêncio final, como deixou escrito a poeta Audre Lorde. Se eu morrer a minha mensagem já estará gravada. Transformada em arte e música em diversos cantos da rede.
  • Aprendi a me virar no design pra amplificar o alcance das palavras para além das letras e sonoridades. Design importa. Mas ainda não estou craque nisso. Sempre aprimorando habilidades conforma a música toca.
  • Minha mãe finalmente me agradeceu por eu ensiná-la sobre cultura do estupro. A primeira reação ao eu tentar entrar com contato foi o distanciamento e o ódio dirigidos a mim, como forma de culpabilização. Hoje, depois de ficarmos um ano sem nos vermos e sem nos falarmos, ela repensa toda a sua vida, analisando sua história, atitudes e posicionamentos. Que bom retrubuir a minha mãe parte do seu esforço em me educar em meio a tanta violência. Agora ela participa do grupo Mães pela Diversidade e é uma mulher extremamente questionadora.

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Narrar sua própria história é jogar o jogo. Pega o controle e vem!

Estou a procura de colabs para o primeiro quadrimestre. Eu dividi o ano em 3 e em cada uma dessas fases, as metas são diferentes. A meta da primeira fase do ano é reunir a equipe dos sonhos para passarmos juntas para a segunda fase. Neste período, eu compartilharei um curso de empreendimento social com as mulheres que embarcarem na missão comigo.

Na segunda fase, um crowdfunding será lançado com o objetivo de financiarmos o futuro do projeto. Entre os equipamentos, as CDJs, o Mixer e as caixas de som pra dar início a um projeto que idealizei no ano de 2015: o SóMinas CoLab.

A terceira fase será a fase de compartilhamento dos equipamentos com as mulheres que fazem parte do projeto, definindo a cultura do compartilhamento como algo que não pode ficar só num botão numa rede social. É preciso agir para criarmos essa cultura, e o start está no sexo feminino, que foi desmobilizado ao longo da História, mas por meio da tecnologia recuperará sua potência – matemática – adormecida.

Como posso jogar o jogo junto com a produtora de conteúdo SóMinas?

As configurações são infinitas, afinal cada ser humano é único. O mais acertado para podermos fechar uma parceria é marcarmos aquele cafezinho esperto (tem uma padaria ótima aqui na rua de casa, que é ao lado de um metrô).

Aí a gente troca ideia, fala sobre a meta da primeira fase (produzir um conteúdo offline – evento – para as convidadas (empreendedoras digitais, produtoras de conteúdo em geral, assessoria de imprensa, artistas e simpatizantes) assinarem o Pacto Paulistano pelo Fim do Casamento Infantil no Brasil.

Aí a gente alinha as próximas ações e dá o start no futuro. Mande um e-mail para aredatora@gmail.com com a sugestão de data para a nossa reunião. Vamos jogar esse jogo juntas.

Compartilhe este post para me ajudadar a ampliar o alcance da luta!

Parece pouco mas ajuda muito 😉

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