Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Classe vem antes de sexo e raça? #ProjetoHisteria 

​Maternidade e sociedade de classes por Uma mãe lésbica 

Existe um senso comum geral da esquerda que é, na verdade, um contra senso: o de que classe vem antes de sexo ou raça. Queria entender se esse pessoal ignora completamente que para escrever o Manifesto do Partido Comunista, o livro Direito Materno, de Bachofen, foi consultado. Curiosamente um livro sobre direito materno escrito por uma pessoa branca do sexo masculino, provavelmente pai. Uau, que revolucionário um pai escrever pelas mães porque mães não podem ter acesso ao mercado editorial por terem sido territorializadas pelo sexo masculino à vida doméstica, privada, como propriedades do sexo masculino e se dizer contra a propriedade privada. Super coerente. Eu tento não ser irônica e ser apenas didática, mas tem coisa que é impossível de se conseguir.
A divisão sexual do trabalho foi a primeira divisão da sociedade em classes, inclusive para as teorias gerais de esquerda, que, muito convenientemente, pessoas do sexo masculino insistem em ignorar. Ignorar dados da realidade da própria herança teórica. Como é que pode? Eles podem tudo, esta é a Lei tácita do sexo masculino num sistema político regido pelo poder do Pai. Esta divisão sexual do trabalho não foi natural, posto que instinto materno não existe e gênero não é essência: ela não foi fruto do acaso ou das circunstâncias e sim de uma necessidade patriarcal sádica de controle do tempo e do espaço: quando uns trabalham muito outros trabalham pouco sobrando assim tempo para o ócio e a criação de estratégias para manter o domínio do tempo e do espaço. Dominar o sexo feminino pela maternidade é uma estratégia que mata dois coelhos numa cajadada só: o tempo das mulheres fica à disposição do sexo masculino enquanto ele “cria um povo”, uma “nação” por meio de um trabalho que não é exercido por ele. O trabalho materno mantém vivas as crianças que amanhã serão as herdeiras ou a mão-de-obra do futuro: a mãe é explorada pelo pátrio poder, a maternidade é a base da exploração, porque continua sendo a origem para onde os esforços de dominação devem ser mantidos para a manutenção do poder do Pai e da família heterossexual. Por isso, na literatura do Pai, a maternidade é o sagrado ofício: é um sacrifício pela nação. O eu, o indivíduo, aquilo que não se divide, o uno e inteiro é o Pai. A mãe é apenas uma devota sagrada do senhor e pelas obras do senhor ela trabalha incansavelmente, como se a sacralidade estivesse desenhada nos cromosomos XX. É como se a estrutura patriarcal Sujeito x Objeto estivesse impresso em nosso código genético. A divisão sexual é uma metodologia, uma estrutura, um modus operandis político. Nada precisa ser criado mas apenas mantido com base na estrutura a ser preservada. 
O nacionalismo é sobre a união dos povoadores de uma determinada região para manter seus direitos tradicionais à propriedade privada do sexo feminino e das crianças daquela região. É etimológico inclusive, afinal família em latim significa escravos domésticos. Nacionalismo é sobre o poder de um regime político que é, originalmente, heterossexual. É sobre a defesa da estrutura patriarcal. O regime político da heterossexualidade fundou nações, atravessou oceanos e exterminou povos pelo fetiche com a propriedade. Ampliou a propriedade privada dos grandes impérios, hoje dissolvidos em grandes empresas. Novos nomes para velhas políticas. O regime político da heterossexualidade tem um fetiche por matas virgens. O regime político da heterossexualidade sequestrou corpos do sexo feminino física e simbolicamente, territorializando os nossos sentidos à subalternidade e impureza que necessita de constante correção para as duas únicas posições sociais que o sexo feminino pode ocupar: mãe, propriedade privada de um homem, ou puta, propriedade de todos eles. Logo se vê que os homens de esquerda daqui não se preocupam com garotas de 10 anos sendo prostituídas, obrigadas à maternidade e impedidas de ir pra escola porque importa para eles o direito patriarcal de manter a propriedade coletiva e privada do sexo feminino. A cafetinagem tenta usurpar o feminismo brasileiro por um motivo simples: prostituir mulheres e meninas é parte importante da estratégia de dominação, pois é preciso manter manter a divisão sexual do trabalho.
A maternidade, para a esquerda revolucionária, é percebida como qualquer coisa, menos como trabalho, enquanto esquerdomachos bradam e brigam pelo “direito das prostituídas” de serem reconhecidas como trabalhadoras. A eles eu só tenho uma pergunta: vão reconhecer o trabalho das mães quando? Ignoram-se discursos maternos sobre política como ignoram-se denúncias de violência doméstica, a omissão dos homens da esquerda diante de uma realidade em que mães estão prestes a ir pra cadeia por tentarem quem elas geraram de proteger pais estupradores (PL4488, conhecido também como PL dos Pedófilos) não é mais, para mim, ignorância. Eu já achei que homens de esquerda só precisassem abrir um pouco a cabeça mas eu é que precisava acordar para o fato de que o que eles têm não é uma mente fechada. Assim como os homens da direita, os homens da esquerda têm uma mente condicionada à ordem e ao progresso, à família e à tradição, ao poder milenar que eles aprendem que têm mesmo sem nunca terem frequentado uma escola. Para aprender masculinismo basta frequentar uma Igreja. A mente do sexo masculino é condicionada desde tenra infância a investir na territorialização dos corpos do sexo feminino por meio de assédio moral e estupro. Homens ensinam crianças a assistir material pornográfico e a pagar por consentimento. Para combater o nacionalismo, é preciso combater o poder heterossexual da família como uma propriedade privada do sexo masculino. É preciso combater o direito que o sexo masculino tem de estuprar mulheres e crianças para exercerem o domínio total sobre o espaço e o tempo. Com certeza não é o que estão fazendo quando dizem que classe vem antes de sexo ou raça.

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