Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

A música eletrônica não tem um problema de mulheres, tem um problema de homens héteros e brancos

Tradução livre: Fernanda Siqueira

Fonte: https://thump.vice.com/en_ca/article/edm-doesnt-have-a-women-problem-it-has-a-straight-white-guy-problem (24/Março/2015)

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Quando Krewella postou seu novo single ontem, a música inspirada no rock, “Somewhere to Run, um bando de comentadores de Youtube imediatamente desafiaram a credibilidade do grupo como produtoras já que sua ex-colega de banda, Kris Trindl, havia deixado o grupo ano passado. Os ataques através da maior comunidade de trolls da internet não foram novos: “o produtor na verdade é o cara, essas meninas são só figuras representativas”, é o que os haters dizem. Que maneira estúpida de começar a última semana do Mês da História da Mulher.

Krewella com certeza não é o único alvo de sexismo dentro da música eletrônica. Num artigo onde são expressas opiniões dos colunistas, Phillip Sherburne falou sobre o que ele chamou do “problema da música eletrônica com as mulheres”, citando as modelos da capa da nova compilação da OWSLA como um exemplo de como os corpos das mulheres estão sendo objetificados pela música eletrônica mais popular.

Enquanto o chefe da OWSLA, Skrillex, é ostensivamente responsável pela imagem da produtora, ele é um ofensor dos direitos das mulheres bem pequeno se comparado com seu colega de banda na Jack Ü e melhor amigo, Diplo. Se não fosse por seus inegáveis cortes como produtor, o legado de Diplo poderia muito bem ser os jeitos em que ele incorpora e sexualiza a parte de trás das mulheres em seus trabalhos, frequentemente mulheres negras. Desde o vídeo de “Pon de Flor” até o de “Dat a Freak”, que virou a faixa de base para a música “Booty” de Jennifer Lopez, Diplo mostra sua apreciação por traseiros femininos – particularmente de mulheres não-brancas – , o que é uma parte central de sua imagem pública (junto com o bullying online intermitente que ele pratica contra mulheres desde Taylor Swift até cidadãs privadas).

Não é a mera representação dos corpos femininos que é um problema: é a pura falta de mulheres na indústria da música eletrônica. Nos palcos de festivais, nos lineups em baladas, nas posições de poder definidas sobre o que as pessoas ouvem e quanto dinheiro pode ser obtido disso, mulheres são uma minoria extrema. Sem contar as ocasionais oportunidades de publicar listas inofensivas de “você precisa ouvir e conhecer essas DJs”, esse desequilíbrio de gênero não faz nada positivo para  a cultura.

Indo mais longe ainda, o fato de que mulheres negras e não-brancas no geral são vistas como objetos próprios para o consumo do olhar branco, hétero e masculino, e que, com raras exceções, não são adequadas para ter um lugar no palco principal de um festival, é problemático e um indicador do enorme espaço entre o caráter receptivo da música eletrônica e sua realidade de exclusividade e exclusão.

Um pouco da crítica de Sherburne a Skrillex foi impregnada com um desgosto do estado de exposição dos corpos femininos. As regras do feminismo ditam que não tem nada de errado se a mulher escolheu se despir e mostrar seu corpo. É por isso que eu celebro artistas do ramo da música eletrônica que fazem isso em seus próprios termos. Nina Kraviz, Scarlett Etienne e Jessie Andrews já foram todas criticadas por expressarem o aspecto visual de sua arte fazendo uso de seus corpos, às vezes em poses quase sexualizadas (ou explicitamente sexuais, no caso de Andrews). As pessoas que não são fãs de seus trabalhos dizem que essa escolha que elas fazem, diminui o valor de seu trabalho; as distrai de sua música. Ninguém disse isso quando Calvin Harris escolheu ficar só de cueca para uma campanha de uma marca de roupa íntima. Sua credibilidade seguiu incontestada como sempre.

Os “porteiros” dentro da dance music, incluindo os meninos brancos e heterossexuais do YourEDM.com, que fizeram uma lista de novos artistas na música eletrônica composta praticamente só por homens, não medem esforços para reforçar o poder de acordos entre amigos e favoritismo de grupos. Mesmo se não for um esforço consciente para ser sexista, homofóbico ou racista (e não tem nenhuma razão para achar que é), a crença de que um deve apoiar outro que seja similar a ele, levou, gradualmente, a uma composição homogênea da indústria. Como já escreveu no Facebook um peso-pesado da música eletrônica sobre a lista dos rapazes da YourEDM.com: “É tão adoravelmente simples. Eles só convidaram seus amigos para sua casinha na árvore!”

As filiações para essas casinhas na árvore estão com apostas baixas. O gênero musical que cresce mais rápido na indústria é algo de grande importância, chegando ao ponto de fazer U$6.2 bilhões por ano. Tem muito dinheiro a ser ganho nesse universo atualmente, e como Derrick Carter opinou num post recente em seu blog, os caras brancos e héteros são quem estão ganhando essa grana.

Um caçador de talentos para uma casa noturna que pediu para ficar anônimo, me disse que a administração da boate bloqueou a reserva para uma apresentação porque as duas mulheres que compunham o grupo não eram bonitas. O grupo seguiu em frente e conseguiu ter um single no Top 10 mundial. Mesmo que com certeza haja oportunidades apresentadas para alguns homens que são DJs por sua aparência (é com você mesmo, Sr. Harris), Hardwell provavelmente nunca perdeu um trabalho como DJ porque alguém não o achou bonito o suficiente.

Outro promoter que pediu para não ser identificado admitiu que o problema da desigualdade de raça ou orientação sexual nunca é levado em consideração quando organizando um lineup. O foco, ele disse, é na música e na margem de lucro.

De certa maneira, é assim que deveria ser. O núcleo da cena de dance music é sua música e sua prioridade deveria ser entregar um produto de qualidade de maneira razoavelmente econômica, independente da identidade dos artistas. Mesmo assim, a música eletrônica que conhecemos tem suas origens em artistas negros, latinos e LGBT que queriam criar espaços seguros para as pessoas que não eram privilegiadas pela sociedade no geral. Esses espaços são onde essas pessoas poderiam achar aceitação, senso de comunidade e se divertirem, longe do patriarcado branco, heterossexual e masculino. Numa reviravolta cruel do destino, esse patriarcado é, agora, a classe dominante dessa cultura que já foi alternativa.

Entre 24 DJs principais do festival Ultra de 2015, não há uma mulher. Apenas cinco provavelmente não se identificariam como brancos. Nenhum é assumidamente gay. Se eles estivessem vivos hoje, o que Larry Levan e Frankie Knuckles teriam a dizer sobre o caráter nepotista em sua música e que sua contracultura vem de uma população que já controla o resto do mundo?

É claro que a dance music não é o único lugar onde homens brancos e héteros são a força dominante. Levou 20 anos para que a revista VICE nomeasse sua primeira editora-chefe e lançasse um canal voltado às mulheres e, mesmo assim, a empresa ainda é administrada quase exclusivamente por homens brancos e heterossexuais. (Até onde eu sei, eu sou a única pessoa LGBT ou não-hétero líder de um canal na VICE, segundo foi apontado a mim com orgulho por alguns dos meus amigos gays na empresa). Do Congresso até Silicon Valley, de Hollywood até o Parlamento Britânico, os papéis das mulheres, das minorias raciais e pessoas LGBT, são bem menores do que sua contrapartida masculina, hétero e branca.

Não tem nada inerentemente errado com isso. Eu, pessoalmente, gosto de héteros brancos. Meu pai e meu padrasto são héteros brancos. Eu tenho vários primos que são héteros brancos e eles são excelentes. Alguns de meus melhores amigos e colegas de trabalho também são héteros brancos e eles também são pessoas ótimas. Ainda assim, por conhecê-los, eu aprendi que não tem lá muitos lugares na sociedade onde homens heterossexuais e brancos não são bem-vindos. O mesmo não pode ser dito sobre minorias raciais e mulheres. Quando perdemos esses lugares seguros – como a música eletrônica já foi uma vez para pessoas não-brancas, mulheres e pessoas LGBT –, perdemos a essência do que a dance music é e o que deveria ser: um lugar para todos. Além disso, como a própria promessa da América tem mostrado, somos mais ricos, melhores, fortes e mais vitais por causa da diversidade em raça, gênero e sexualidade, não apesar dela. Para aqueles que ligam para o futuro da música eletrônica, nós devemos abraçar essa diversidade e trabalhar para ativamente adotar um espaço para ela.

Qualquer um que estiver presente na multidão do festival Ultra verá a beleza que é a audiência da geração do rave. Isso reflete a diversidade com que os jovens estão acostumados: multicultural, multilíngue, não meramente tolerante, mas, sim, aceitadores das sexualidades que fogem ao padrão heterossexual e cada vez mais vigilante em problemas de igualdade de gênero. Estatísticas mostram, consistentemente, que a audiência do EDM é, basicamente, dividida uniformemente entre homens e mulheres, e que a plateia do festival Ultra mostra que isso é verdade. O crescimento da dance music, desde os dias das festas no apê de Dave Mancuso e de Frankie tocando na Warehouse , significou que há mais gente nesse grupo do que nunca. Seria legal se as pessoas que estão no topo dessa contracultura única não fossem apenas os caras heterossexuais e brancos que já controlam o resto do mundo também.

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