Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Lésbicas, censura e Facebook #ProjetoHisteria

Em menos de seis meses, período que coincide (coincidentemente?) com o fervilhão do golpe de Estado que tomou 54 milhões de brasileiras e brasileiros de assalto, levando a primeira pessoa do sexo feminino a ocupar o cargo de presidenta do país, e ainda reeleita, perdi o acesso aos meus perfis e à minha página do Facebook num total de aproximadamente, dez vezes. Outra coincidência: as censuras se deviam sempre ao uso orgulhoso da palavra sapatão e suas derivadas, como, por exemplo, sapatona.

Seria menos terrível, certamente, se o Facebook, como rede social que é, não fosse a minha ferramenta de trabalho, uma ferramenta na qual com certeza quero investir para alavancar os meus projetos profissionais autorais como comunicadora e educadora. Ou queria, se a minha permanência como uma lésbica orgulhosa de sua orientação sexual ser voltada para o sexo feminino não fosse tão, digamos, indesejada. Coincidentemente (ou não), um dos meus projetos é o #ProjetoHisteria: uma iniciativa de combate à cultura do estupro que vem a ser um experimento social sobre como a sociedade lida com a consciência lésbica. Coincidentemente, uma produtora de conteúdo cuja diretriz editorial é focada em registrar a história da consciência lésbica tem sido sistematicamente censurada em uma das plataformas que escolheu para trabalhar. Veja bem, eu gosto do Facebook e de todas as suas possibilidades de relacionamento e negócios, mas é que eu sobrevivo muito bem sem esta ferramenta, pois ela não é o meu único canal com o meu público. Aliás, o meu público é muito bem definido: grande parte das minhas leitoras são sobreviventes da cultura do estupro.

Perfil das leitoras do MILF WTF

Este slideshow necessita de JavaScript.

33% das leitoras do blog MILF WTF sofreram estupro de vulnerável

Ou seja: quando eu digo que a maior parte das minhas leitoras é sobrevivente da cultura do estupro, não estou opinando subjetividades, mas me baseando em algo concreto, dados reais, da materialidade. Sou materialista demais, gosto de pautar a materialidade sempre. Esta concretude, quando posta em discurso, em narrativa, é socialmente odiada e censurada. Me explico: quando mulheres são estupradas, o que acontece? Elas são super acolhidas, levadas para espaços seguros até que se reestabeleçam de modo que consigam se estabilizar para que se curem de seus traumas, ou elas acabam sofrendo punições por não se manterem caladas?

Autora do MILF WTF é processada pelo estuprador por ter narrado o estupro no Facebook

Vocês já devem saber que eu fui processada por narrar um estupro na internet depois de participar da campanha #NãoMereçoSerEstuprada, dois anos atrás, certo? Se não sabem, tudo bem, podem conferir aqui. Bem, eu fui estuprada sim, por um ex-namorado que me obrigou a fazer sexo anal, mas eu não tinha falado nada disso na campanha, eu tinha sido bem sucinta e não revelei nomes. Minha participação se resumiu a uma foto – tirada por meu pai – de minhas costas nuas, onde a seguinte frase – também escrita pelo meu pai –  podia ser lida: “não mereço ser estuprada”. Esta foi a minha singela participação na campanha da jornalista Nana Queiroz contra a cultura do estupro. Mal sabia que a minha quebra de silêncio, ainda tão sutil, surtiria uma ira tão grande em um dos caras que me estuprou. O tal do ex-namorado ainda estava na minha lista de amigos do Facebook, pra vocês entenderem o quanto eu banalizava, naquela época, a violência que ele tinha cometido contra mim, mantendo-o por perto ainda que sem o menor interesse em manter um contato (o cara é paga pau do Sergio Moro, se informa pela Rede Globo e acha que sabe tudo). Mas isso não importa. Quero dizer, importa muito, mas não agora. Acontece que, ao ler minha participação na campanha, ele decidiu se manifestar três dias depois. Sua mensagem começava com “não merecia? achei que merecesse” e terminava com “vai lutando assim (…) amanhã você vai estar morta e ninguém vai sentir a sua falta”.

Foi uma ameaça velada de morte. Que eu, corretamente, interpretei como tal e revidei, tomada pelo único instinto em que acredito: o de sobrevivência. Fui pela lógica: ele só podia estar falando de mim, porque naquela época eu não conhecia muitas garotas da região que tivessem participado dessa campanha. Não vi nenhuma das minhas amigas de Jundiaí participando, enfim, então achei que realmente a mensagem estava direcionada a mim, até porque ele devia. Era óbvio que ele temeu e, intimidado, decidiu revidar, tentando me silenciar por meio do medo. Só que ele mexeu com a pessoa errada, porque o meu instinto de sobrevivência aliado a um aprendizado deixado pela poeta Audre Lorde – a de que o silêncio não nos protege – não me deixaria ser silenciada daquela forma, como não deixei. Eu comentei no post dele toda a violência que ele cometeu contra mim. Narrei os fatos. Então ele mandou mensagem pro meu pai, como se meu pai tivesse que dar um jeito em mim. Meu pai se posicionou do meu lado. Ele processou a mim e ao meu pai pela via criminal. Perdeu. Um ano de processo. Depois me processou pela civil. Mais um ano de processo. No meio do meu puerpério, depois de uma violência doméstica, que, por sua vez, aconteceu depois de um estupro no mercado de trabalho.

Após tudo isso, vivendo por anos como uma lésbica no armário, ou melhor, na gaveta (porque a gente se guarda na gaveta, como nossos cadernos e palavras que não podem ser públicas por algum motivo), decidi que retomaria minha humanidade. O momento exato do resgate de minha humanidade foi no parto natural, no meio da minha sala, sem nenhuma intervenção desncessária. Não só pela potência que é gerar uma consciência a partir de um órgão que está no meu corpo, mas principalmente por eu ter conseguido parir na sala da minha casa com tudo no meio do meu caminho para que eu não conseguisse isso.

Foi uma Luta que pariu! Depois eu viciei: eu queria tomar cada pedacinho de humanidade que o patriarcado me tomou. O próximo passo seria sair da gaveta como lésbica. Como escritora lésbica. Porque já que era pra tomar tudo de volta, eu tomaria a minha sexualidade e a minha afetividade original, que eram ginocentradas, e também os meus devaneios de menina em relação à música, especialmente eletrônica, que estou recuperando com um método de storytelling focado nas narrativas do sexo feminino, método este chamado: #Herstorytelling. Afinal, se é pra ser escritora, por que não a escritora de minha própria vida puxada pela minha própria consciência?

Consciência, esta, que é lésbica

audrelorde

Aprendida com lésbicas com quem converso nas redes sociais sempre que dá, com as lésbicas que participam de debates sobre lesbofobia e amor ginocentrado, com lébicas teóricas deste país e de outros, com as minhas amigas que me visitam e com quem morei, com as quais participei de debates in loco, as que ajudei a produzir eventos, as que me chamaram para palestrar em suas universidades. As lésbicas com quem, conjuntamente, defendi o direito da consciência lésbica existir e, por sua própria existência, ser vista. À minha parceira de luta e poeta, Formiga, à minha amigona, fotógrafa e ilustradora Taynara Bruni, à Ana Silva, sempre presente na luta contra a pedofilia, à Ane Sarinara, uma gênia da educação, à Daniela Alvares Beaskow, artista cênica, à Cibele Minder, cantora, à Luana Hansen, rapper, à Eloisa Samy, advogada ativista, à Keyla Silva, geninha da tecnologia, e a todas as lésbicas com quem troquei afeto e intelecto  presencialmente. A todas as mulheres lésbicas que amei, beijei, abracei, toquei, que me fizeram gozar e que eu fiz gozar também, aquelas com as quais vibrei e gargalhei, das quais senti raiva ou chorei. Aprendida com todas as lésbicas, todinhas. Até as que rivalizam comigo, de certa forma. A minha consciência compartilhada com essas mulheres, é a consciência lésbica.

Consciência, esta, que tem sido censurada ao longo da História. Abaixo, casos recentes de censura às lésbicas contemporâneas:

Censura no Facebook, na Virada Feminista (!) e um estereótipo de odiadoras de homens (estereótipos são uma ferramenta de censura). Mais abaixo, trecho da pesquisa Censura e esquecimento: a perseguição à literatura lésbica de Cassandra Rioscensura_lesbicaeventolesbofobicolesbofobiacassandra-rios

Facebook censura escritora lésbica em pleno pós-golpe

Eu, Natacha Orestes, autora do MILF WTF e de diversos outros canais pela rede mundial de computadores, sou uma escritora também. Não estou bem nos livros, aquela coisa tradicionalzinha do ~papel passado~, rsrs, vá lá, um poema meu está no Desnamorados, projeto da Anna Haddad, ganhei um concurso de poemas na minha cidade, no interior de São Paulo, tenho alguns blogs, muitos canais de comunicação por aí. Além de lutar por direitos reprodutivos e os meus direitos humanos por meio da Defensoria Pública e do Juizado de Pequenas Causas. Eu entendi que a história deveria ser escrita de diversas formas, por meio do meu corpo e do meu cérebro. Eu quero ser uma escritora lésbica visível. Quero ter orgulho de ser lésbica sem o medo da censura. Quero ter orgulho de ser lésbica neste #SetembroAmarelo, campanha em que não vi lésbicas sendo lembradas em lugar nenhum, a não ser nos meus canais, com o

#ProjetoHisteria15seg

 

projetohisteria15seg

Não é muito estranho que o Facebook tenha me censurado por causa da palavra sapatão? Não só uma ou duas, mas várias vezes, e eu sei que eu não fui a única. Ouvi pelo menos mais três histórias como a minha.

sapatonaelosapatonaelo2sapatonaelo3

Agora a derradeira pergunta que não quer calar: por que estaria o Facebook censurando logo uma escritora lésbica que tem uma iniciativa multimedia de combate à cultura do estupro? Oras, é um tanto quanto interessante notar as diversas formas de censura que as lésbicas vêm sofrido, além de perseguições e esvaziamentos políticos que os estereótipos causam com as imagens que vendem sobre o que é ser mulher e lésbica. O que, diga-se de passagem, já e histórico, dadas as informações trazidas no início deste post. É interessante notar, também, que, incrivelmente, a censura do Facebook se dá de forma estrutural – está nos algoritmos – e sistemática – está em grupos organizados que perseguem lésbicas na rede social, fazendo nossos perfis caírem sempre que expressamos o orgulho de amar tão somente o sexo feminino. Duas pessoas do sexo feminino só servem ao sexo masculino enquanto rivais. O dono e o Senhor de quase tudo que é desta terra colonizadanos querem as mulheres rivais. Não juntas, lutando contra Ele, que além de fazendeiro, latifundiário ou cafetão, também é Deus e pai de família. A existência lésbica é um ataque direto ao direito masculino de possuir coletivamente o sexo feminino de modo que possa tomar-lhe como esposa, negociar sua virgindade ou o seu consentiment sexual.

Eu estou bloqueada por 30 dias de uma das (ufa, não dependo do Facebook!) minhas ferramentas de trabalho online, prestes a lançar o site do #ProjetoHisteria, e não poderei alcançar o público daquele perfil porque dei muita pinta de sapatão no Facebook e não pode dar pinta de sapatão no Facebook, mas sapatão pode ser perseguida a rodo, xingada, humilhada, chamada de macho, ser vítima de discurso de estupro corretivo, que nada acontece feijoada. Censurar lésbicas é censurar mulheres que lutam contra a cultura do estupro. Esta mesma cultura que quer mulheres belas, recatadas e do lar, não presidentas do País.

O #ProjetoHisteria continua sendo o primeiro projeto brasileiro completamente focado em delinear e combater a cultura do estupro a partir da consciência lésbica, e ele será lançado com ou sem o Facebook. O #ProjetoHisteria continua cumprindo seu papel como uma ferramenta de análise comportamental de pessoas do sexo masculino e instituições pelo sexo masculino comandadas caso queiram combater quem combate a cultura do estupro.Qual a intenção de combater quem combate a cultura do estupro? Continuar estuprando? Continuar mantendo mulheres presas ao papel de coadjuvantes, e não de protagonistas da própria história? Continuar mantendo as sobreviventes da cultura do estupro caladas com mensagenzinhas sobre paz e amor?

paz

Se o Facebook censura lésbicas, ele também apoia o golpe no Brasil.

Era só isso mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: