Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Como é transar depois de sobreviver a estupros corretivos? #ProjetoHisteria

Ou: será que é tão importante assim falar sobre como é transar depois de sofrer estupros e não das consequências cotidianas de ter sofrido estupros?

POST ASSINADO PELO #PROJETOHISTERIA, UM PROJETO DE EDUCAÇÃO CONTRA A CULTURA DO ESTUPRO.

Em primeiro lugar, devo dizer que sou lésbica, e parto deste ponto para tecer as análises a seguir. Tenho uma larga história de violências sexuais com as quais sempre convivi de forma angustiante, daquela angústia que a gente sente sem ter palavras pra expressar o que sangra dentro do peito. A angústia do silêncio. A angústia de um corpo que quer se expressar, mas que não consegue se organizar linguisticamente para fazê-lo, porque a gente aprende a se comunicar com a comunicação dos outros: quando foi que nós conversamos entre nós sobre estupro? Não estamos organizadas linguisticamente para isso: nossa expressão foi tomada de assalto. A cultura do segredo é imposta ao sexo feminino de tal maneira que nem sobre nosso prazer podemos falar, nem sobre menstruação podemos falar, quem dirá sobre traumas de estupro? Comecei a enfrentar racionalmente esta angústia no momento de minha gravidez, há quatro anos, e desde então mergulhei num processo profundo de autodescoberta que me relembrou a minha orientação sexual original.

Lésbica. Proibida por meio de violência. O meu “eu” mais verdadeiro foi censurado. Para mim já existia um destino (mulher nasceu pra ser mãe) e eu teria de me despir de quem eu era para me adequar às expectativas de quem fazia parte dos meus ciclos sociais. O meu “eu” foi impedido de se expressar, de existir e de exercer livremente suas próprias inclinações sexuais, porque eu teria de ser heterossexual, mãe, gerar netos para meus pais. Eu teria de ser de um homem. Isso se eu quisesse ser tratada, às vezes, como humana. Eu não podia ser lésbica se eu quisesse as migalhas de humanidade que me ofereceriam caso eu fosse hétera. Sim, eu aceitei as migalhas, porque ou eram as migalhas, ou eram espancamentos. Eu era uma adolescente que não tinha nem com quem conversar, nem pra onde correr.

A proibição da lesbianidade culminou em um conformismo com a heterossexualidade a que fui obrigada. Sendo obrigada à heterossexualidade, ainda que os homens com quem me relacionei não estivessem me estuprando como o que conhecemos sobre o estupro (que nem sempre é sobre violência física), o consentimento que “dei” partiu da anterior correção de minha sexualidade original. Logo, todo sexo que fiz dentro de relacionamentos heterossexuais foram estupros corretivos, no sentido de que eu nunca consenti com o fato de que eu seria heterossexual, eu fui obrigada à heterossexualidade, eu fui obrigada ao sexo hétero e aos estupros. Então este meu consentimento “dado” não era um consentimento, mas um mecanismo psíquico de sobrevivência baseado na erotização da minha submissão, porque a única saída era ser heterossexual, então eu tinha de aprender a ser heterossexual e a gostar de homens. Não é fácil falar sobre isso. O fato é que, enquanto eu estava grávida, ainda me relacionava com o pai do meu filho. No momento da gravidez, afundada em diversas violências psicológicas que começaram depois dela, eu ainda me relacionava sexualmente com o pai do meu filho.

Em busca de um contato humano, de uma afetividade que não vinha de lugar nenhum, eu “queria” o sexo heterossexual. Eu “queria”. Eu sabia que eu não gostava daquilo como eu gostava de me masturar e que nunca seria igual, mas eu achava aquilo normal. Eu naturalizava a violência. Só que eu “querer” o sexo heterossexual não torna o estupro menos estupro e a violência menos violência. Porque esse “querer” foi fabricado de fora pra dentro de mim com o silenciamento e a censura de quem eu sou, esse “querer” foi construído com violência, este “querer sexual” era, na realidade, o desejo de um contato afetivo, de um toque que só seria possível por meio do sexo, já que fora dele eu não era tocada ou vista. Eu achava que o sexo poderia me fazer sentir amada. Dentro do relacionamento, estando em outro estado, isolada das minhas amigas e da minha família e grávida, o toque sexual era o único toque possível para uma troca de carinhos, que, na verdade, nunca existiu. Não existe carinho numa relação unilateral em que a fisiologia do seu prazer não é, nunca, considerada. A gravidez abriu a caixa de Pandora e passou a me obrigar a encarar os traumas sexuais para os quais eu não gostava de olhar. Eu não tinha mais a opção de não olhar. Eles gritavam de dentro do meu cérebro, as revivências traumáticas acompanharam o meu corpo durante todo o processo da gravidez. Numa das “relações sexuais”, eu tive uma epifania: eu sou um objeto. Esta epifania que veio no meio de um sexo foi como uma bomba quebrando os enormes rochedos que me separavam de compreender o comportamento sexual dos homens como violento e problemático. De repente, eu estava de olhos abertos, no meio de uma relação sexual. “Homens só querem meter. Homens só pensam no próprio pau. Homens não sabem como o clitóris funciona. Homens têm nojo de lamber buceta. Minha vagina foi um receptáculo do pior que existe nos homens. Sou um objeto, sempre fui.” Não aguentei e comecei a chorar. Chorei muito, porque aquele “sexo” estava me fazendo mal. Aquele “sexo” era a personificação de todos os estupros que eu tinha vivenciado, estupros porque eu nunca consenti que só me relacionaria sexualmente por meio do sexo penetrativo, e lá estava eu sendo penetrada depois de dizer que eu precisava de outros tipos de sexo por causa da gravidez e da delicadeza do momento em que me percebi completamente traumatizada. A ele, restava o silêncio e o olhar de desaprovação diante do meu choro. Eles não perdem a oportunidade de nos fazer sentir culpa. Ele nem quis saber por que motivo eu estava chorando. A confirmação de que eu não importava. Nada. Aquele silêncio dele e aquele olhar de desaprovação comprovavam, eu não estava louca. Eu era um objeto e não tinha mais como voltar atrás em busca do momento anterior à epifania, em busca da inconsciência para continuar vivendo e fingindo que eu não era um objeto. Não dava mais. Naquele momento, eu achava que o problema fosse apenas o jeito com que o “sexo” estava sendo feito, pelo meu prazer sendo ignorado, pela necessidade da penetração para que o sexo fosse chamado de sexo, e não por eu ser lésbica. Hoje eu entendo que o jeito com que o sexo estava sendo levado, foco na penetração e na performance masculina, era grande parte do problema, mas não era ele todo. O problema do comportamento sexual masculino baseado em pornografia e no uso do corpo feminino como mero objeto de masturbação se somava ao problema de eu estar dentro de uma relação com um homem não gostando de pênis. Eu ainda não sabia, mas o principal problema era eu ser lésbica. Como ser uma mulher que fingiu que gostava de penetração peniana para sobreviver estando com homens que só gostavam de penetração peniana e nada mais? Quais homens não são assim, quais homens não acham que sexo se restringe a penetração? Quais homens fogem ao normal que é considerar o sexo como sexo somente quando eles penetram os corpos das mulheres? Haveria um homem sequer que não me usasse como objeto? Não, não era um homem o que eu queria. Não era um “sexo bom” que eu procurava. Eu queria de volta aquilo que foi tomado de mim. Eu queria a minha humanidade de volta. Por isso eu sofria. Não pela falta de uma foda bem dada.

Levei uma adolescência e começo da vida adulta inteiro tentando me adequar ao sexo heterossexual, me perguntando o motivo de homens serem tão egoístas e naturalizando o egoísmo, “homens são assim mesmo” para, então, grávida, vivenciando no meu corpo o ponto máximo de ter me relacionado sexualmente com homens – a gravidez -, vivenciando na minha psique o ponto máximo de ter me relacionado sexualmente com homens e entendendo que a partir dali, na cabeça do genitor, eu havia me tornado de fato uma propriedade dele por ter o DNA dele crescendo no meu ventre, vivenciando a objetificação total, a desumanização final que é a perda de identidade que vem com a maternidade, a necessidade de anulação, de novo, de quem eu era para me adequar a expectativas externas. Eu nunca tinha passado de um objeto sexual! Antes era pelo prazer sexual, a partir da gravidez eu seria um objeto de trabalho gratuito, eu seria mãe. Sempre submetida ao sexo masculino, de uma forma ou de outra. Por que a ficha foi cair só na gravidez, quando eu já tinha sido expulsa do mercado de trabalho por estar grávida, quando eu já tinha sido abandonada por todo mundo ao meu redor porque agora eu era diferente, agora que eu ia virar mãe? Por que não pude aprender tudo de uma outra forma? Nenhuma mulher aprende. A gente quase não fala sobre o comportamento sexual dos homens. A gente não fala sobre esse padrão. Eu tive de ficar completamente nas mãos daquele pra quem eu havia contado sobre meus traumas sexuais para compreender que ele era, na verdade, o inimigo com quem eu nunca deveria ter contado. Ele me ignorava , ele não falava nada sobre aquilo que eu havia contado, ele fingia que não sabia de nada, ele ignorou o e-mail que mandei com o relato dos traumas e do que eu estava sentindo, ele parecia gostar do quão angustiada eu estava por causa dos meus traumas sexuais. Eu havia contado que parir em um ambiente acolhedor, sem possibilidade de sofrer violência obstétrica, seria crucial para a cura daquilo que eu havia contado pra ele. Em vez de me apoiar, ele quis controlar as decisões sobre o meu parto. Juntei todas as minhas forças para desistir de “ter uma família heterossexual”. Pelo amor da deusa, aquilo nunca ia funcionar.

Eu renasci da maternidade, apesar da maternidade. Foi completamente aterrorizante parir, chegar no puerpério, olhar para o passado e pensar naquelas relações heterossexuais que pareciam tão legais, mas que, na cama, eram um completo desastre, mesmo que eu me mostrasse animada. Eu aprendi a me mostrar animda. Era sempre frustrante ter meu corpo ignorado como se não merecesse gozar. Eu, que lutei pra ter o parto que eu queria, que tive sensações orgásmicas no parto, que tinha passado por aquela experiência transformadora de conhecer a força de minha vagina, de sentir todo o processo do parto, não tinha mais como dar um passo para trás na minha nova consciência corporal sobre violência. Durante as relações, eu me sentia inferior por não gozar com penetração, achando que a culpa era minha, que eu tinha de falar mais (como, se eu era travada por causa dos traumas?), ou que eu tinha de ensinar para os homens o funcionamento do meu prazer quando eu sabia tudo sobre o prazer deles, lendo por aí e prestando atenção ao corpo deles.  Eu sentia culpa por saber dentro do meu íntimo que aquilo tudo era uma mentira. Por saber que eu gozava fácil me masturbando. Por que era tão difícil sentir prazer com homens? Percebi que eu tinha aprendido direitinho a dar prazer a eles, mas eles não se interessavam em reciprocidade. Na maioria das vezes em que eu gozava, o mérito era meu, porque em determinado momento, passei a achar que se eu me masturbasse durante o “ato sexual”, pelo menos eu não seria um objeto, “estaria usando os homens também”, como se isso mudasse o fato de que eles me faziam de objeto enquanto eu estava lá, dando prazer a eles. O fato de eu conseguir gozar sozinha não significava que eu não estava sozinha preocupada com o meu prazer, mesmo transando com um cara de carne e osso, não com um brinquedo sexual. Eu era o objeto, não haveria simetria nunca nesta relação. Quando eu me posicionei verbalmente sobre a falta de devoção da outra parte, como me posicionei como sujeito, as violências psicológicas começaram na gravidez. Eu contei a um homem que ele era horrível no sexo depois de tantos anos transando com ele e fingindo gostar, lógico que eu seria punida por isso. Lógico que a culpa era minha porque “eu fingi”. Aham, foi o que ele tentou fazer acreditar pra me manipular. Não conseguiu, estou aqui contando a história pra vocês! Quando eu decidi que iria embora aos sete meses de gravidez, também fui punida. Fui punida com a acusação de que eu só engravidei por interesses econômicos, fui punida de diversas formas, não mais em nossa relação pessoal, mas na relação do Estado comigo. Em processos. Assim como fui punida por narrar um estupro na internet.

Quando comecei a refletir sobre isso, tive um problema enorme com a expressão “todos”. Todos os caras com quem eu havia me relacionado faziam de mim um objeto? Se aquilo era um comportamento sexual padrão, existiria algum homem que poderia ser exceção? E aquele que eu achava que amava tanto, e que não insistia e nem fazia o menor gesto de desaprovação quando eu simplesmente não queria sexo? Ele era tão legal, tão bom comigo, abriu o relacionamento quando eu quis abrir, “perdoou” uma traição, poxa, ele era fantástico! Ele também me fez de objeto? Sinto carinho por ele até hoje, sim, e questiono este carinho porque ele precisa ser problematizado. Ele me fez de objeto? Sim, ele fez. Demorou muito tempo para eu parar de protegê-lo de algo que sequer o afeta, que é a minha consciência sobre seu comportamento sexual. Afinal, depois que eu engravidei ele sumiu completamente. Eu não servia mais, agora eu “era de outro”, porque eu “estava grávida de outro”. Ele também se beneficiou dos meus traumas e da submissão a que fui condicionada. Sim, ele também me estuprou, mesmo com o meu “consentimento”, mesmo que estes estupros não tivessem sido de todo responsabilidade dele. Ele também me tratou como objeto e também não se importava com o meu prazer. Veja bem, eu não estou falando sobre estupros comuns, aqueles sobre os quais você ouve todos os dias com medo e terror. Estou falando sobre um tipo específico de estupro, que é aquele “sexo” para o qual dissemos sim dentro de um contexto em que ele nunca deveria ter existido. Um tipo de estupro sobre o qual você quase nunca ouve falar e que, por isso mesmo, você pode banalizar, como já vi muitas mulheres heterossexuais banalizando, afirmando que as lésbicas é que banalizam os “estupros de verdade”. “Você consentiu, não foi estupro”. Parece uma pedra batendo contra a minha cabeça essa frase. O sexo heterossexual nunca deveria ser obrigatório para lésbicas. Neste sentido, todo sexo heterossexual que fizemos em nossas vidas foi estupro. Não de um corpo sobre o outro, somente, mas de toda uma estrutura social lesbofóbica que impediu a lésbica de ser lésbica e um corpo sobre outro. Para as mulheres heterossexuais, é difícil empatizar com as lésbicas que sofreram estupros corretivos. Porque é um tipo de estupro completamente fora do padrão do que reconhecemos como estupro. Porque elas nunca vão saber o que é ter sido impedida de ser quem você é pelo sequestro da sua sexualidade e da sua afetividade ginocentrada. Ter uma história de estupros, um atrás do outro, e saber que o meu corpo foi palco de tanta violências que, no momento em que elas aconteciam, para mim eram naturais, “consentidas”, acaba com a minha sanidade. Acaba com a minha sanidade ser, enfim, capaz de falar sobre isso, e ler de feministas heterossexuais que se eu “consenti”, não foi estupro.  Acaba com a minha sanidade olhar para trás e ver que o meu corpo vivia no piloto automático, sendo violentado dia após dia sem a menor consciência de que o que eu vivia era violento. Esta é a minha bagagem de traumas sexuais, e ela é diferente da bagagem de uma mulher heterossexual. Eu, por ter vivido tantas relações heterossexuais compulsórias sendo lésbica, não consigo mais perceber os homens e seus comportamentos sexuais a partir de uma perspectiva romântica. É completamente impossível. E sinceramente: ainda bem. Ainda bem que eu percebo isso. Ainda bem que tive acesso a teorias lésbicas sobre sexualidade, e que elas dão sentido a tudo o que vivi e não saberia dizer sozinha. Ainda bem que eu aprendi, depois de aprender com o corpo e não saber transformar em linguagem,que todas as pessoas do sexo masculino são treinadas para fazer com que o não de uma mulher se torne sim. As teorias lésbicas sobre sexualidade são uma das poucas coisas que me mantêm sã, que me fazem olhar para as minhas experiências não como algo bizarro e fora da ordem, mas como algo universal entre lésbicas. Aprender, com as teorias lésbicas, que se os homens não coagem as mulheres de modo explícito, elas ainda estão sendo sutilmente coagidas por eles de forma sistemática a transformar o não em sim, tem sido crucial no meu processo de me tornar protagonista da minha história. Aprender que as mulheres são psicologicamente construídas de forma a sentir que estão sempre “devendo algo” aos homens, e eles se beneficiam disso, ainda que não precisem fazer absolutamente nada para coagir uma mulher ao sexo, apenas usar o silêncio a seu favor, foi dolorido, mas libertador. Todas as pessoas do sexo masculino se beneficiam do fato de que lésbicas são impedidas de exercer a lesbianidade e obrigadas a aceitar relações heterossexuais. Os homens se beneficiam do que nos mata física e simbolicamente, todos eles, até os que mais amamos e principalmente estes, que é dos que menos desconfiamos.

Felizmente, consegui me libertar da heterossexualidade compulsória e sair do armário dentro e fora da família. Questionei meu pai por ter me reprimido tanto sexualmente ao longo da vida, mas, ao mesmo tempo, não ter tido o menor impulso de me ajudar a passar pelo trauma de um estupro de vulnerável que sofri aos 7 anos. Coloquei o controle sexual dele em pauta para me assumir. Eu “me libertei” das hipocrisias alheias.  O que significa que vivo minha sexualidade livremente? Não, não é bem assim. Até hoje, eu tenho pesadelos com aquele “gostar” de homens que eu fui obrigada a aprender e que as feministas heterossexuais dizem ser um gostar verdadeiro, que aquilo que dei forçadamente, a partir da correção de minha sexualidade, era consentimento. Percebo este gostar obrigatório como a maior violência que meu corpo passou: ser levada a crer que gostava de algo que, na verdade, me adoecia. Me sinto sozinha, sem ter com quem conversar, descolada da realidade. À parte. Nos pesadelos, eu ainda sou dependente da afetividade dos homens. Acordo moída, traída pelas minhas próprias memórias, me perguntando por que é que eu tenho que ficar lembrando daquilo que eu mais queria tirar da minha história? Bem, o corpo sabe bem o que faz, e os sonhos são uma linguagem para que possamos acessar nossas angústias de forma que possamos dar outros sentidos a elas. Os sonhos nos obrigam a pensar sobre o que passou de forma que nós possamos organizar a linguagem para que as memórias possam ser recuperadas, passadas a limpo e, então, dissolvidas e abandonadas. Acontece que parece que elas não vão se dissolver nunca. Faz quatro anos que estou me recuperando, e as memórias ainda não me deixam em paz. Quando acordo de um pesadelo desses, sinto ser a minha própria inimiga. A culpa enraizada precisa ser trabalhada. Que raio de lésbica sou eu que sonha com afetividade por homens? Não, não me culpar. A heterossexualidade é tão compulsória e a sua função corretiva é tão profunda na psique das lésbicas que isso se reflete nos sonhos. Não é culpa minha. Não raramente, revivo a sensação de ser penetrada por um pênis no meio do dia, assim, corriqueiramente. Pra ser sincera, quase todo dia. E é horrível, porque eu aprendi sozinha – minha percepção hoje é meu maior tesouro, e ela vive sendo atacada para que eu me sinta louca – que isso não é um “desejo” de voltar a ser heterossexual, mas uma memória traumática invasiva pela qual eu não devo me sentir culpada, porque não fui eu quem colocou isso em mim. Por muito tempo me senti culpada por ter esses pensamentos e sensações invasivas, era como se eu fosse uma farsa: sou uma mulher lésbica que “tem desejos” e “sonhos” com homens!

Fico me perguntando, se eu fosse atendida por qualquer profissional da saúde mental e contasse sobre esses flashbacks, será que a profissional concordaria comigo que aquilo era estresse pós-traumático e não um recalque, “inveja do pênis”, um desejo escondido de ser heterossexual tentando se manifestar? Imagino numa sala uma psicóloga heterossexual dizendo: talvez você não seja lésbica, talvez ainda goste de homens. Por causa desses pesadelos e revivências traumáticas. Imagino quantas lésbicas não são levadas a crer que gostam de homens por psicólogas porque elas apresentam estes sintomas que eu disse ter. Não confio em profissionais de saúde mental porque o que esses profissionais sabem sobre sexualidade feminina é destrutivo para lésbicas. As teorias seguidas por elas são patriarcais, escritas para nos adequar novamente ao sexo reprodutivo. Quando me masturbo, vêm à minha mente, invasivas, memórias de estupro e deste “gostar” fabricado. Vocês têm ideia do quão enlouquecedor é você saber, racionalmente e emocionalmente, com o corpo todo e todos os sentidos, que você ama mulheres e quer se envolver afetivamente e sexualmente com mulheres, mas a sua memória ficar te traindo com as memórias de um gostar fabricado que nunca foi, de fato, gosto, mas sim violência? Qualquer toque me que lembre violência, mesmo que não intencional, mesmo que eu só me relacione atualmente (e para sempre) com o sexo feminino, me coloca nas cenas de estupro de novo. Eu nem preciso dos toques para que isso aconteça. O meu corpo rejeita completamente a violência, a agressão e os xingamentos como formas de sexo. É um problema, porque até mesmo em relações lésbicas pode haver a reprodução de determinadas violências que, para algumas delas, continuam naturalizadas pelos discursos masculinos sobre fetiche enquanto que, pra mim, são o que são: violências. Todas nós tivemos a nossa sexualidade construída a partir da pornografia e não existe carinho na pornografia, não existe cuidado na pornografia. A pornografia é a espetacularização da mulher como um objeto. Qualquer movimento ou palavra que me lembre violência faz com que eu me sinta ocupando novamente este lugar: o de objeto. Este lugar, o de objeto, me persegue. Para onde eu olhe, ele está lá. Em minha história, na mídia, ao meu redor. Eu não consigo me desvencilhar da noção de que eu fui um objeto e posso continuar sendo, e que as mulheres ao meu redor são um objeto. É o que sinto quando no meio da tarde, enquanto faço o almoço ou cuido do meu filho, tenho um flashback da sensação de um pênis batendo forte no colo do meu útero e do meu corpo sendo completamente usado.

Percebe que a história traumática existe independente de eu transar ou não com outra pessoa? Que ele é muito mais sobre mim e sobre a minha sexualidade no dia a dia do que com a minha sexualidade compartilhada com outra mulher? Percebe que não é uma transa boa que vai sanar todas as minhas memórias? Transei várias vezes depois de tomar consciência de que eu era um objeto sexual para os homens, TODOS ELES, algumas vezes as transas foram horríveis, outras foram maravilhosas, repletas de carinho e cuidado. Mas eu ainda não estou curada, porque não é uma transa que nos libera. Não, nós não precisamos “fazer sexo de novo” para nos libertarmos. Nós precisamos nos tornar protagonistas de nossa história e principalmente dos nossos sintomas. Por esse motivo, não consigo aplaudir a história de um homem que relata ter como foi transar com uma vítima de estupro. Para mim estava nítido que ela não queria, e ele não respeitou isso. O não dela se tornou em talvez e depois em sim e algumas mulheres ainda não conseguem entender que esse “não transformado em sim” é uma fabricação patriarcal que une a construção psicológica das mulheres para o sim e a construção psicológica dos homens para não se conformarem com o não. Que o sim não precisa necessariamente ser conseguido por meio de violência física. Já existe todo um sistema pronto que nos pressiona ao sim sem que os homens precisem forçá-lo explicitamente, e eles se valem disso tanto quanto podem. E eles podem muito, porque estamos inconscientes sobre o fato de que eles foram muito bem treinados para isso. Nós ainda não conseguimos olhar para a violência simbólica como violência. O não que se torna sim, nem sempre se torna sim por causa de tapas e socos, mas de palavras ditas e de palavras não ditas (o silêncio é uma tática, ignorar o que dizemos é uma tática, nunca se esqueçam disso), de olhares intimidadores ou da falta de olhar e, principalmente, na completa falta de empatia do sexo masculino diante das vivências traumáticas do sexo feminino. O não que se torna sim também é sobre uma mulher, ou todas nós, sendo usadas como objeto. É sobre táticas patriarcais que passam de pais para filhos, de homens para homens. Naturalizando a cultura do estupro. Não bastasse o não que se tornou sim, o cara se sentiu no direito de usar o trauma de uma mulher como objeto de obtenção de audiência, likes e compartilhamentos. Somos objetos. Física e simbolicamente. E eles transformam a objetificação em romance, porque assim nos mantêm reféns da nossa alienação. É adoecedor, tendo a história que eu tenho, perceber que as mulheres ainda não estão conscientes de que estupro nem sempre é algo fisicamente forçado, e perceber que as mulheres ainda não conseguem perceber um estupro como tal pela falta de força física. É a estratégia deles fazer parecer que nós quisemos e depois dizer que a culpa foi nossa.

Sei que ao escrever este post, me exponho à falta de empatia da maioria das mulheres heterossexuais, que adoram chamar lésbicas de loucas por simplesmente dizerem a verdade, como o patriarcado fez conosco historicamente nos jogando em fogueiras e em manicômios por “sermos loucas” por expressarmos o que nossa consciência, há milênios, é impedida de expressar. Porém, como o meu foco é me organizar linguisticamente para servir de ponte para outras mulheres se organizarem linguisticamente, me mantenho firme em meus propósitos. Espero que nós, lésbicas sobreviventes de estupro corretivo, possamos cada vez mais entrar em contato com as histórias umas das outras para nos organizarmos linguisticamente como uma ferramenta de proteger nossas memórias e verdades individuais e coletivas. E que mulheres heterossexuais também se beneficiem do que está escrito aqui, se assim acharem válido. Porque este texto não é só sobre a minha experiência particular, mas sobre um comportamento sexual masculino que é geral e não depende da orientação sexual das mulheres com quem eles se relacionam para ser analisado como padrão.

É sobre eles. Não sobre nós.

 

desistircomonao

 

desistircomonao2autor

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5 Respostas para “Como é transar depois de sobreviver a estupros corretivos? #ProjetoHisteria”

  1. Ro

    Acho que o que gera resistência nas mulheres hetero (fala como uma) é justamente a identificação com grande parte do que vc escreve, e a necessidade que vem de negar isso.

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  2. Alex

    Nossa… Obrigada por compartilhar suas experiências tão profundas. Acabou que eu me identifiquei completamente com o texto. Não dá para demonstrar muito apoio e afeto online, também não sei se você quer ou precisa já que eu não sou lésbica, mas… Eu não tinha lido ainda o texto do cara! Pelo que você postou, ele basicamente ensina a outros homens como coagir as mulheres, ensina a eles a estuprar! Que coisa mais bizarra do mundo… Coerção e consentimento são coisas completamente diferentes. Tudo o que você descreveu das suas experiências não foram consentimento, foram coerções repetidas. Entendi agora as discussões do outro dia que não tinha entendido ainda, apenas pelos títulos resumidos (dizer que PIV= estupro banaliza estupro, algo assim). Eu vi uma mulher na página do face dizendo que tinha vergonha de dizer que era hétera… Mas essas coisas não se controla, e ela não precisava sentir vergonha. É também muito desolador gostar de homens, querer ou precisar desse afeto e NUNCA encontrar. Então eu não tenho vergonha, eu sinto raiva. Sei que essa necessidade nunca vai ser satisfeita, por todos os motivos que você já citou, pela incapacidade de troca de afeto real por causa do modo como o mundo foi construído, pela repetição que parece eterna dos processos nocivos às mulheres… É uma necessidade que não posso suprir sozinha e essa impossibilidade me dá muita raiva. Me dá muita raiva que esse esquema seja confortável para eles a ponto de não quererem mudar. Eu *JAMAIS* vou aceitar ser uma taça, um receptáculo e ver esse conceito na base de muitas atitudes me gera uma raiva imensa. Eu olho para essas estruturas baseadas no masculino e vejo a doença, e não consigo ajudar a mudar porque enquanto eu sentir raiva eu bato de frente, e também não consigo curar em mim o que internalizei da cultura do estupro, o que internalizei de violência e o quanto do mundo feminino foi expulso ou arrancado de mim por conta disso. Por isso, o seu texto é pra todas as mulheres, acho… Desculpa ter trazido uma discussão menos importante e urgente à tona antes de ter lido. bj

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  3. Hannah

    Cara, que nojo esse consultor/psicanalista/palestrante pregando o estupro. Parece pastor. Deveriam cassar o CRP dessa porra. Vou ver como faz pra denunciar aliás

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  4. Ana

    Muito bom!

    Eu não sou lésbica, sou o que diriam ~assexuada~, e mesmo tendo tido educação cristã, nunca consegui absorver as chantagens sociais para tornar mulheres heterossexuais, servas emocional e sexualmente dos seus opressores. Sempre tive ojeriza de homens, sexualmente falando, mas antes era inconsciente pois não era feminista nem tinha contato com feminismo. E eu não sentia repulsa de mulheres, mas também não sentia desejo. Deve ser pq apesar de não desejar nenhum dos dois, nem ser feminista, já sabia que o homem representava um perigo iminente.

    Isso deve ter impedido que eu fosse vítima de estupro. Não o violento, explicitamente forçado e ameaçador, esse nenhuma mulher evita. Mas aquele coagido, influenciado, camuflado de benevolência masculina por ter me desejado, por fisgar um ‘provedor’. O primeiro, a sociedade demoniza (tenho minhas dúvidas), o segundo a sociedade te coage. Sociedade = patriarcado.

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