Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Cura, substantivo feminino #ProjetoHisteria

Parece ter brotado do útero.

Veio de mansinho, a lágrima, das entranhas mais profundas, passeou corpo acima trazendo as escondidas memórias de cada pedacinho deste corpo que sou eu, e saiu fininha de um olho só. A lágrima. Tímida e singela primogênita. Saída a primeira lágrima, pálpebras comprimidas, a fonte começou a jorrar. A fonte tem vida própria: ela é a própria vida. Fluxo de consciência anterior a minha existência apontando para o fato de que não comecei nem termino em mim. Vem de minha mãe, de minha avó, de minha bisavó “laçada por um português” no início da adolescência. Lembranças voavam pelo quarto escuro como se asas tivessem. As asas farfalhavam, umas batiam contra as outras num voo cego e desgovernado enquanto uma correnteza de baixo pra cima, como leite fervendo, entrava em ebulição fazendo o mar de sal transbordar pelos dois olhos. Pequenos rios se formavam cavando caminhos pela bochecha enquanto aquela água cristalina procurava – pelo quê? – lentamente pela face, formando rastros de desamparo que não paravam de descer pelos vales do rosto. Procurava. Procurava a origem da solidão. Eu quero minha mãe, ímpeto original. O colo quente de minha mãe, volta ao conforto de ser amada. Senti medo como quando estava sozinha no banheiro, antes de parir. Medo do abandono à minha própria sorte depois da expectativa do abraço. Medo de me permitir ser vulnerável como qualquer ser humano deveria poder. Medo do abandono sem fim, de estar com o coração na boca sem perspectiva de conforto. Tateio, titubueante. Consigo chamar: mãe, senta aqui, pega em minha mão. Lágrimas escorrendo enquanto as mãos se apertavam de saudade irracional daquilo que fomos impedidas de viver. Afeto. Direto da ferida. Do âmago pra fora. Moscas sobrevoando o sangue coagulado. A casca da ferida rachou.

Não sei o que vai ser.

Não sei o que vai ser.

Não sei se devo me dar o direito de ter esperança novamente. O peito comprimia como os olhos, parecendo que em breves minutos, dali nasceria um novo big bang. Contração e expansão. Inspiração. Expiração. Dói. Não dói. Cíclica. Não queria ter o peso de uma filha. Mas não sou eu que sou pesada. Não queria que a maternidade fosse pesada para mim, para ela, para você que é mãe, para você que é filha. Somos todas órfãs de Gaia. Pesada é esta náusea de existir. Gostaria de ser mais leve, o que penso pesa toneladas, o que sinto não sei medir. Não sei, não desejo saber, quero me permitir a humanidade de, por um momento, sentir apenas. A ode à razão, esta o patriarcado já escreveu. Eu quero a invenção da cura. Sentir o nó desatando, o peito se abrindo, comportas de uma velha represa se rompendo dentro do peito, sitiada pelo poder sexual masculino. Não mais: deixa a represa inundar o corpo, deixa a dor gritar o mofo do esquecimento milenar de nossas memórias. Não temer a potência da verdade que emerge do subsolo. De sete palmos da História. Faz parte do processo viver a dor que ficou esquecida em nome da sobrevivência. A dor expulsa retorna com raiva: olhe para mim, eu existo e exijo ser vista e até que seja sentida até a última gota, não sairei de perto de você. Nego: não quero a dor. Mas ela não cabe mais e explode. Dizem que isso se chama depressão. Prefiro chamar de estresse pós-traumático de sobrevivente de guerra. Meu filho beija meu ombro. Peço que pare de balançar os pés na cama. Ele para. Digo que tenho uma ferida no coração que às vezes dói. Ele pergunta se quero um beijo no coração. Rio de ternura, digo que sim. Completo que ele é amigo da bruxa, agradeço, sorrindo entre lágrimas: eu já estou me curando. Posso oferecer carinho, posso ensinar o carinho, posso ensinar a cumplicidade e estou aos poucos tirando as mãos dos meus ouvidos de adulta que às vezes não querem ver a criança de fora porque a de dentro pede socorro, sozinha abraçada aos seus próprios joelhos e com o rosto ardendo de um choro ignorado. Torço para que eu continue existindo para ele em sua memória depois que eu morrer. Tenho pensado tanto em morte. Policiais invadindo minha casa ou à paisana atirando em minha nuca na próxima esquina. Penso no terror de ser estuprada enquanto meu filho é obrigado a assistir, ou no horror de estuprarem meu filho enquanto grito de desespero. Não controlo estes pensamentos. Penso em quedas na escada. Pescoço quebrado. Meu corpo estirado no chão. São fantasias compulsórias com base material: o perigo é tangível para uma lésbica que fala demais. Penso em uma corda pendurada em meu pescoço, meu corpo fora da janela, cadavérico, duro, gelado e sem vida. Nunca mais a vida. Um imenso nada. Sobrando só o desespero dos que ficaram.

Não. Não vou morrer logo agora. Penso que devo morrer de idade, bem velhinha. Penso no que significa ser mulher. Ser mulher e ser velha, palavra linda que não deveria implicar em descarte, desuso, lixo. Ser velha deve ser a reciclagem de uma vida que não foi tão boa quanto os sonhos de menina imaginavam que seria, mas que foi uma vida que existiu e que merece ser ressignificada pelo corpo que viveu. E contada, contada insistentemente, contada e recontada para que nunca seja esquecida. Nunca mais esquecida. Penso na minha mãe e em todas as mães do mundo, de todas as épocas, até hoje. Penso em matrilinearidade. Penso em Eva e seu útero sequestrado pela imagem da costela de um homem. Penso em terra. Penso em terra virgem. Eu fui a terra virgem. Vertigem. Penso em colonização. Penso em genocídio. Penso em ginocídio. Penso em sexo forte: nós mantivemos vivo o mundo apesar dos homens. Penso que temos, sim, o poder da cura. O poder curativo das mulheres, das águas, maremotos, tsunamis, varrendo a existência do planeta. O temido poder de não parir, sequestrado de nós. Penso em como é bom, apesar de tudo, ter nascido com o meu sexo. Fenda, passagem, vazio uterino, estado de criação sequestrado para que nos roubassem a capacidade de escrever história. Insubmissa, registro. Lésbica, luto. Fenda. Lugar de onde a vida jorra. Em volta de meu sexo um aquário para que as águas fiquem paradas e apodreçam. Gênero: camisa de força. Eu nunca escolhi. Medieval e pós-moderna. Idêntica sob novos rótulos. Gênero preso com as novas algemas da modernidade líquida. Punição que é atualíssima, antiga e milenar. Penso em cheiro de secreção vaginal, penso em pequenos, úmidos e quentes lábios, penso na beleza das ondas que antecedem o orgasmo feminino, indo e vindo, aumentando a intensidade a cada ciclo de prazer. Na necessidade de permitir o descobrimento do clitóris, terra íntima pouco visitada à disposição dos dedos de quem tem um corpo com uma fenda. Penso na heresia de ser uma pessoa do sexo feminino que toca o próprio corpo. Uma fenda tocando outra. A vida entre fendas vale a pena. Penso em memórias traumáticas que rompem belezas trazendo novamente a dor. Penso em corpo que se regenera, em ações que reconstruirão memórias, em sexo lésbico, em revolução. Sou uma mulher que pensa, como todas as outras. Uma mulher que pensa sem hierarquizar pensamento e sensação. Tudo importa o tempo todo e a ausência do método, a ausência de um sistema, de um governo, de uma rotina, a presença do caos e da criação contínua tão corriqueiros pra mim assustam as pessoas ao meu redor. Controle. Controle-se. Adeque-se. Não importa que o meu sistema cognitivo foi completamente alterado por causa da violência masculina, querem que eu funcione como qualquer outra mulher. Seja normal. Não deixe a louça na pia. Alimente-se direito. Saia da cama. Não sonhe tanto assim acordada. Segure os pesadelos. Segure a onda. A sensação incontrolável de queda livre infinita. Onde meu corpo vai encontrar o chão e morrer logo? Não, morrer não. Eu quero o renascimento. Sou mulher, origem, meio e fim. O alfa e o ômega moram no meu ventre, não no céu. O que está fora é o que está dentro: o oco do espaço é da mesma matéria que o oco do útero. O vazio é criação. A sensação é o pensamento do corpo, no estômago e nas costas os sintomas comunicam, procurando diálogo. O corpo-eu pede o corpo de outro-eu, sem encontrar, por enquanto. Solidão profunda. Será que não mereço ser vista para então existir além de mim? O corpo-eu encontra, dentro do próprio cérebro, o diálogo esperado. Parece monólogo, mas somos duas: a ferida e a que traz a cura. Somos duas em uma. Somos muitas quando lemos umas às outras ainda que sozinhas. Sozinha quase sempre estive. Sempre conversei comigo mesma. A ousadia foi levar a conversa pro papel, tão pequenininha, tão sem saber onde aquilo tudo ia dar. Foi ela quem me ensinou a escrever. Minha língua-mãe. A origem da consciência e de seu registro. Panela foi a primeira palavra. Ironia do destino. Não consegui desviar como a maioria das mulheres não consegue. Panela. Não foi culpa minha. Ao menos escapei ao amo: lésbica. E devo minha vida à ousadia de escrever, que vem de minha mãe. A minha cura não está nas mãos de instituições ou de outras pessoas, mas no meu íntimo, na palavra que brota com o susto de me perceber criadora, não criatura. Eu sou a terra de onde veio Adão. A minha cura está em falar tudo o que querem que morra comigo, no túmulo. Morrer sem um segredo sequer para contar. A minha cura é desbravar a loucura que me é negada enquanto a loucura do sexo masculino é elogiada como genialidade. A minha cura é tomar cada pedacinho de quem sou de volta para mim. A minha cura é me definir com as minhas próprias palavras antes que façam isso por mim e colocar as minhas definições fora do alcance daqueles que me querem ver sucumbindo. A minha cura é a poesia que jorra do útero escuro, vazio, matriz de tudo o que é humano. A minha cura é a minha consciência lésbica esparramada pelas minhas digitais que atravessam binárias entre bits e bytes correndo por fibras óticas, por ondas, eclodindo em luz nesta tela diante dos seus olhos e penetrando no escuro criativo e fecundo do seu cérebro. Se você me lê, já temos um pacto de intimidade. Não tem volta.

A minha cura é a sua. A sua memória é a minha. No tempo em que escrevo, sou eu escrevendo. No tempo em que você me lê, é você se lendo. A minha cura parece ter brotado do útero dias antes da primavera dar as caras. A força do que escrevo vem dos segredos que fomos obrigadas a manter achando que éramos as únicas. A força do que eu escrevo vem do assassinato da culpa. Deus está morto, para nosso alívio. Nietzsche também está. E Freud. Dentro de mim eles estão mortos. Sanguinária, assassinei simbolicamente quem condenou meu sexo ao pecado e à loucura. Sem piedade alguma por esta cultura de extermínio com a qual nunca consenti. Talvez eu possa ser morta por eles, mas eles não moram mais dentro de mim, não me roubam a vida. Podem matar com um tiro, não com a minha obediência. Nunca mais obediência. Me trazem dor, mas vou depurar. Vou me debruçar sobre minha própria língua, me parir em palavras, me levar ao seio de minha própria língua-mãe, me acariciar. Emerjo de minha própria fenda, num parto orgásmico. Sim, viver pode ser prazeroso pra quem não está em busca de felicidade. A verdade me liberta depois da fúria. A fúria que há em mim saúda a fúria que há em você. A fúria é cura. Só precisamos acertar sua direção. Só precisamos fazer com que a fúria não se vire contra nós. Não apertar o gatilho da arma que está apontada para a nossa cabeça. Só precisamos nos manter vivas, insubmissas e criando a história que queremos viver. Só precisamos nunca mais servir. Nunca mais servir.

Eu sou língua.

Eu sou mãe.

Eu sou a. Eu sou uma.

Nós somos a língua-mãe beijando as próprias feridas. Nós da rede. De histéricas a históricas. Ainda que nos matem como sempre nos mataram. Nossas ideias se espalham na velocidade da luz enquanto eles subestimam nossa inteligência. Elas permanecerão vivas nas bocas das mulheres que quiserem contar quem as nós fomos, quem somos e quem queremos ser. Nós tomaremos os púlpitos e oraremos a língua das Amazonas e Icamiabas. Fora da lei dos homens.

A cura vem da insubordinação.

O resto é lenda pra manter mulheres doentes.

 

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[Haters dirão que este post é transfóbico]

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