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Estupro corretivo: o que é? #ProjetoHisteria 

Estupro corretivo é quando uma pessoa do sexo masculino estupra uma lésbica para que ela aprenda a virar mulher. O estuprador considera uma mulher lésbica como concorrência, dizendo que a lésbica quer ser homem, então a lésbica precisa levar pau pra aprender que ela não tem pau, logo, não pode ter o direito de viver sua sexualidade e sua afetividade pelo sexo feminino. Aquele que se julga proprietário do sexo feminino julga a lésbica uma concorrência. Como lésbicas sabem que mulheres não são produtos, não são mercadoria, são seres humanos, nós, lésbicas, não vemos o macho como concorrente e sim opressor. As lésbicas radicais enxergam o homem como ele realmente é: dono e senhor do sexo feminino dentro do patriarcado. As pessoas do sexo feminino sofrem estupros, não têm acesso a aborto legal e seguro até a décima segunda semana de gestação, são obrigadas à maternidade ou condenadas à morte. Lésbicas narram a história por uma perspectiva diferente, uma perspectiva de contracultura. A lesbianidade é contracultura e por isso é resistência. A lesbianidade é a contracultura da cultura do estupro. É a rejeição espontânea ao contato sexual com o sexo masculino. É o direito ao não.

Quando uma pessoa do sexo masculino diz que uma lésbica quer ser homem, ela não está se baseando em um preconceito, mas em ódio. Não é ignorância, é vontade de machucar mulheres que não estão em conformidade com o papel sexual de inferioridade que de nós é esperado. A pessoa do sexo masculino que defende a ideia de inveja do pênis bebeu de fontes patriarcais ocidentais para formular suas ideias. Não é ignorante: estuda estratégias de dominação para intimidar lésbicas e isolá-las politicamente. Historicamente as lésbicas, aquelas que priorizam afetivamente as pessoas com o mesmo sexo que o seu, são caçadas por pessoas do sexo masculino. Nossos corpos e história sofrem constantes tentativas de apagamento. Somos duronas e perigosas. Não temos medo de falar o que pensamos. Temos de ser devolvidas ao silêncio.

O estupro corretivo foi institucionalizado a partir das literaturas do moderno Freud, quando ele afirmou que meninas sentem inveja do pênis do pai e o deseja para si, naturalizando a sexualização infantil e o incesto enquanto produzia uma teoria que deu origem a teorias nefastas, como a do Richard Gardner, que defendia pedófilos na corte norte-americana (e tem sido importada como referência para decisões nas Varas de Família brasileiras por: defensores de pedófilos). Entendam o nível de capacidade de Freud para manipular a história do sexo feminino. Ele inverte a história, tornando a menina culpada por provocar o incesto do pai. A garota deseja o pênis e por isso seduz o pai ao seu encontro e depois reprime essas memórias. É o que Freud defende. Que as memórias se estupro são na verdade um recalque, porque às mulheres falta o pênis e nós ficamos tão histéricas quando entendemos nossa inferioridade que inventamos mentiras para prejudicar o sexo masculino. As teorias do Richard Gardner afirmam isso e têm sido usadas para proteger pais que estupraram que bateram em filhos ou mãe dos filhos aqui no Brasil. São centenas de casos.

Indo ainda mais fundo na capacidade de manipulação do sexo masculino, não contente em naturalizar o incesto de forma camuflada, Freud afirma que o incesto é um tabu. Tabu, para Freud, é proibição moral. Como algo pode ser natural e proibição moral ao mesmo tempo? Freud inverteu a realidade bem como a gênese bíblica inverteu a verdade sobre a origem da consciência humana, que começa no útero. O útero é um vetor de consciência humana. E o útero não pode ser mais a propriedade privada do macho de onde sai a mão-de-obra gratuita do cuidado materno para o sexo feminino enquanto o masculino mantém seu poder público. O útero precisa deixar de ser propriedade pública do sexo masculino, não pode mais ter suas simbologias sequestradas e silenciadas, não porque é sagrado parir e sim porque é nosso direito narrar nossas memórias e verdades. Nós somos as sobreviventes milenares da cultura do estupro e não nos deixaremos sozinhas. 

Quando uma pessoa do sexo masculino atenta contra a mulheridade de uma mulher lésbica que não submete sua estética aos padrões criados e sustentados pelo sexo masculino para explorar afetivamente e economicamente as pessoas do sexo feminino, o que essa pessoa do sexo masculino faz é: reafirmar o seu poder de domínio sexual. Nós, lésbicas, defendemos a ideia de que a lesbianidade é uma contracultura da cultura do estupro, logo, uma pessoa do sexo masculino querendo acessar nossos espaços de cultura é uma afronta à nossa história de resistência ao sexo masculino, à cultura sexual masculinista. O acesso masculino a espaços lésbicos é um estupro corretivo metafórico. Pior ainda se esta pessoa do sexo masculino emite opiniões pescadas de uma teoria masculinista criada para sequestrar as vozes das mulheres, como Freud fez com Bertha, a verdadeira criadora do método da fala como via de cura. Ainda pior se esta pessoa do sexo masculino afirma a uma lésbica que ela tem inveja do pênis, mostrando que, sim, é uma pessoa estratégica e não está pra brincadeira: a meta é colonizar.

Não duvidem da capacidade que o sexo masculino tem de manipular a história do sexo feminino. Foi essa mesma política que nos queimou em fogueiras e acorrentou em sanatórios. O sexo masculino não vai parar. E as lésbicas vão continuar resistindo à colonização. Nossa capacidade de reflexão não nos será tomada sem resistência.

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