Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Anatomia do fundamentalismo #ProjetoHisteria

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Mais um post assinado pelo #ProjetoHisteria, uma iniciativa que visa combater ampla e profundamente a cultura do estupro em parceria com o #MulherArtistaResista, um movimento cujo objetivo é tornar artistas do sexo feminino visíveis umas para as outras por meio da ferramenta digital hashtag.

Para conhecer mais sobre o #ProjetoHisteria e o movimento #MulherArtistaResista, pesquise essas hashtags no Google. Tem conteúdo espalhado por diversas mídias sociais.

Você pode fazer parte de ambos os projetos, que são colaborativos. Para isso, basta ser do sexo feminino e taguear seus conteúdos sobre cultura do estupro com a hashtag #ProjetoHisteria ou as artes que você produz com a hashtag #MulherArtistaResista. Vamos juntas? 👭

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Faz tempo que estou para escrever um post desse tipo, sobre fundamentalismo religioso. O que me levou a fazer isso agora foi a onda de inversão dos fatos que vem assolando ativistas da luta das mulheres que denunciam exploração sexual nas redes sociais. A inversão dos fatos é uma tática patriarcal de distorção da realidade e tem o objetivo de manter o controle das subjetividades por meio de um embaralhamento na percepção das pessoas cuja intenção é explorar. São diversos os fundamentos do fundamentalismo, com certeza não darei conta de todos. Escreverei neste momento sobre os que considero os principais a partir de uma perspectiva de sobrevivente (não mais vítima) de abusos sexuais, violência doméstica, lesbofobia e misoginia.

Os fundamentos não estarão organizados por ordem de importância. Antes de enumerá-los, primeiro é bom elucidar o que significa fundamento. Vou usar uma metáfora simples e acho que com ela o entendimento será facilitado: uma casa não fica em pé sem fundamento. O fundamento de uma casa seria a sua estrutura de ferro, a que sustenta o concreto e tudo mais. Fundamento do fundamentalismo, portanto, seria a base sobre a qual a moral religiosa consegue manter seu poder de exploração. Já que comecei o post falando em inversão, vamos começar por este ponto.

Fundamento n°1: Inversão dos fatos para manipular a História

Na gênese bíblica, temos a primeira grande inversão com a finalidade de controlar a História. Trata-se do nascimento do primeiro homem, Adão, que foi feito a partir do barro enquanto Eva, a primeira mulher, foi feita da costela de um homem. Um mito aparentemente ingênuo que tem um significado profundo e devastador: o apagamento do útero, logo, das mulheres como As Criadoras da consciência humana. O que não nos confere um papel sagrado, pois não vejo nada de mágico em produzir consciência humana. Não há em mim qualquer orgulho de ser de uma espécie tão autodestrutiva quanto a nossa. O que questiono é que a inversão desta realidade – que aprendemos a perceber como um simples detalhe – sequestrou a potência do sexo feminino de se reconhecer como criador e não como simples criatura incapaz de criar cultura a partir da língua, da autodefinição, da oração, de uma tradição feminina de repassar conhecimentos acerca da fisiologia feminina.

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Deus, de acordo com as escrituras sagradas, fez o homem à sua imagem e semelhança. O que quer dizer que o homem é um potencial criador como seu Pai e a mulher não pode criar nem se autodefinir, apenas para procriar e manter sua sexualidade em segredo e silêncio. Que é exatamente a exploração que o sexo masculino impôs sobre o sexo feminino: a maternidade e o apagamento da participação do sexo feminino na construção da consciência humana. Mulheres não criam cultura. Reproduzem corpos e cultura masculina. Procure por registros históricos deixados por mulheres de cem anos para trás e tenha a prova viva de que até pouco tempo atrás éramos impedidas de participar na criação da cultura e coloque os dois pés no chão: pouca coisa mudou e os direitos conquistados não são permanentes. Aliás estão em grave perigo num Brasil pós-golpe.

Fundamento n°2: Pedofilia para controle do útero a partir da infância

Senta que lá vem textão. Eu poderia escrever sobre cultura do estupro, mas não tenho mais achado este debate suficiente. Decidi, portanto, focar na questão da pedofilia porque é um assunto menos debatido e que, por experiência própria, infelizmente é evitado até em espaços de luta considerados mais radicais. A pedofilia é um ataque direto aos direitos reprodutivos do sexo feminino. Portanto, não existe a menor possibilidade de lutar profundamente por direitos reprodutivos sem debater a posição da criança do sexo feminino no Brasil, país que abriga 76% dos pedófilos do mundo, e a relação desta posição com a pedofilia.

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Atualmente, mais de 554 mil meninas entre 11 e 17 anos vivem em casamentos ilegais no território nacional brasileiro. O que significa que pedofilia é uma cultura, uma tradição socialmente aceita e não um tabu, uma proibição, como a psicologia pedófila faz crer (fundamento da inversão dando o ar de sua graça e completamentando o fundamento da pedofilia, OLAR). De acordo com o IPEA, 94% dos abusos sexuais contra crianças são cometidos pelo sexo masculino. Dados da extinta ABRAPIA revelam que 80% dos abusos acontecem dentro de casa e que destes, 50% são protagonizados pelos pais das crianças.

Mais do que uma cultura, a pedofilia é uma ferramenta de manutenção da política sexual masculinista de exploração do sexo feminino, visto que a maioria das mulheres prostituídas começam a ser exploradas numa idade em que o sexo é considerado pela lei estupro de vulnerável. Sem pedofilia, basicamente, não pode haver prostituição. Mas o que é a pedofilia? Sim, estou questionando o que é a pedofilia porque sei que existe uma disputa política pela definição deste termo. Na caixa dos comentários deste blog, fui procurada por uma adolescente que relatou que seu professor de filosofia, junto com seus colegas de classe, disseram a ela que o desejo sexual por crianças e adolescentes não pode ser moralmente condenável assim como o desejo de roubar um chocolate no mercado sem o ato de roubar não configura um ato condenável. Não vou nem comentar o absurdo de se comparar um ser humano com uma barra de chocolate. Vou focar no fato de que, mais uma vez, a  lógica é invertida e aponta-se  para quem repudia a fetichização de seres incapazes de consentir numa relação sexual por uma questão de maturidade cognitiva como moralistas quando a moral foi inventada exatamente para servir como ferramenta de exploração do sexo feminino.

Para a psiquiatria, a pedofilia é um transtorno da ordem da parafilia. Eu não confio nos discursos da psiquiatria sobre sexualidade e se você confia é por sua conta e risco. Vou explicar por que não confio: em um passado não muito distante, a psiquiatria considerava a homossexualidade e a lesbianidade como uma doença. Você já pensou no motivo de a psiquiatria considerar a homossexualidade doença? Simples: para marginalizar sexo não reprodutivo e perpetuar a heterossexualidade como um regime político. Há, portanto, evidências suficientes para não confiar em qualquer discurso psiquiátrico sobre sexualidade. Por que eu não acredito que pedofilia seja um transtorno? Porque, novamente, isso inverte a realidade, faz com que foquemos no suposto sofrimento psíquico e social do pedófilo (que é colocado como um transgressor de um tabu quando na verdade é um perpetuador de uma antiga tradição patriarcal, lembra?) e não no sofrimento da vítima do abuso sexual infantil. A psiquiatria também promove a separação entre o abuso de fato e o desejo do abuso, como fez o professor de filosofia da adolescente que me procurou para dialogar sobre o ocorrido em sala de aula. O objetivo com a separação é fazer parecer que o desejo por crianças ou adolescentes pode ser aceitável caso o abuso propriamente dito não aconteça. A realidade, porém, é outra: mesmo que um cara não consiga abusar fisicamente de uma criança ou adolescente, ele provavelmente é consumidor de pornografia infantil, que nada mais é do que estupro de vulnerável gravado e tornado mercadoria.

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A relação entre pedofilia, prostituição e pornografia infantil é visivelmente estreita. Assustadoramente, porém, temos atualmente tramitando no poder legislativo, o PL dos Pedófilos e o PL dos Cafetões, o primeiro assinado pelo deputado federal Arnaldo Faria de Sá (PTB) e o segundo pelo deputado Jean Wyllys (PSOL). O primeiro PL criminalizará mães que denunciam pais por abuso sexual infantil, ignorando os dados oficiais sobre esta temática e o segundo legalizará a cafetinagem tornando exploradores sexuais em empresários enquanto seu autor afirma que pedofilia e exploração sexual são questões distintas e dissociadas. Prova maior do que esses dois PLs de que a pedofilia é uma ferramenta de promover política sexual masculinista com objetivo de manter o sexo feminino sendo negociado pelo masculino não há.

Fundamento n°3: Apropriação de simbologias referentes ao sexo feminino

O poder de definir e de escrever a História é patriarcal e eurocêntrico, o que significa que ela vem sendo escrita há milênios por homens brancos. A participação do sexo feminino na construção do pensamento humano ainda é tão limitada quando a participação do sexo feminino na vida pública e política e não precisamos ir longe para comprovarmos este fato: basta lembrarmos que uma presidenta eleita com 54 milhões de votos foi derrubada por golpistas. Basta procurar por registros históricos produzidos por mulheres de cem anos pra trás. São escassos não porque o sexo feminino é incapaz de narrar a História a partir da própria perspectiva e sim porque fomos impedidas de fazer isso, ocupadas demais com a maternidade, tarefas domésticas e secretariando a carreira do sexo masculino.

Não somos inferiores. Óbvio que não. Se a humanidade existe até hoje apesar do belicismo masculino, do abandono paterno (5 milhões de crianças sem regustro paterno atualmente no Brasil) e cultura do estupro, é porque as mulheres funcionam a partir de uma ética diferente, que é uma ética do cuidado com a sobrevivência das crianças. Esta ética, antes que me chamem de essencialista, não é um dado biológico, um destino cromossômico XX, mas uma construção social imposta ao sexo feminino. É uma cultura que o sexo feminino é privado de se orgulhar, mas não deixa de ser uma cultura só porque ela não é narrada com orgulho. A humanidade sobrevive apesar do sexo masculino porque mulheres são resilientes e sensíveis, diferente dos homens que são covardes e colocam o prazer sexual acima da vida de mulheres e crianças.

Apesar de não sermos inferiores, homens brancos decidiram criar literaturas e mais literaturas afirmando a inferioridade do sexo feminino usando-nos como um fetiche de suas obras. Um exemplo é Freud, que não explica porra nenhuma. Freud afirmou que o seio é objeto de desejo de um bebê transferindo a objetificação que ele próprio fazia com a amamentação  para um ser humano que nem subjetividade tinha e retirando dele próprio a responsabilidade como sujeito da objetificação e exploração do sexo feminino. Como um bebê, alguém sem subjetividade, pode ter poder para fazer de outro ser humano adulto um objeto de desejo? Freud também deixou registrado que meninas se sentem incompletas com suas vaginas e que por isso invejam o pênis de seus pais, o que provocaria nas crianças do sexo feminino a procura pelo incesto. Nada mais, nada menos do que argumento para defender pais que abusaram sexualmente de suas filhas, concorda? O argumento da inveja do pênis também serve para promover estupro corretivo de lésbicas. Porque lésbicas queriam mesmo era ter um pênis então um estupro poderia “curar o problema” da falta de rola, não é mesmo? Além disso, Freud, juntamente com Breuer, travestiu a política da Inquisição com discursos psicanalíticos, colocando o sexo feminino como propenso a desequilíbrios emocionais vindos diretamente do útero,  o que conhecemos como histeria.

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Con

clusão:

Sendo a inversão, a pedofilia e a apropriação das simbologias do sexo feminino alguns dos fundamentos básicos que permitem que o poder do sexo masculino seja perpetuado sobre o sexo feminino, cabe a mim como estudiosa e principalmente crítica do pensamento feminista, ainda que não-autoidentificada como feminista, entrar em defesa de feministas radicais que têm sido acusadas de fundamentalistas quando se posicionam contra a legalização da cafetinagem e da pedofilia. A acusação de que o feminismo radical – que é o original, não no sentido de único mas no sentido de onde ele nasceu, de raiz – se assemelha a fundamentalismo religioso é infundada pois este é o  feminismo que aborda e discute profundamente a opressão sexual visando dar um fim ao condicionamento do sexo feminino à maternidade e à vida privada enquanto o sexo masculino goza da vida pública e da construção do pensamento humano.

Dedicatória:

Dedico este post à ativista Eloisa Samy Santiago, que teve sua candidatura como vereadora pelo PSOL na cidade do Rio de Janeiro impugnada pelo partido sob acusações infundadas de intolerância pelo simples fato de ser uma feminista radical. Perseguida por ser uma representante contemporânea da consciência lésbica que trabalha, incansavelmente e em grande parte, pelo fim da negociação do sexo feminino pelo sexo masculino, Eloisa me atendeu gratuitamente quando fui processada por narrar um estupro nas redes sociais. Tento retribuir a solidariedade com o que faço de melhor, que é escrever.

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Uma mãe lésbica e Elô visivelmente praticando lesboterrorismo.

Força, Elô! ❤💪

Espero que o PSOL reverta a história misógina que tem escrito tornando possível a candidatura da Eloisa novamente. Ela é a cara do que o Brasil precisa. Ainda que eu não acredite no Estado como promotor de revolução, luto pelo direito que o sexo feminino tem de ocupar os espaços que sempre nos foram tomados.

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2 Respostas para “Anatomia do fundamentalismo #ProjetoHisteria”

  1. Lai

    Parabéns pelo excelente texto. Admiro muito a sua inteligência.

    “A humanidade sobrevive apesar do sexo masculino porque mulheres são resilientes e sensíveis, diferente dos homens que são covardes e colocam o prazer sexual acima da vida de mulheres e crianças.”

    Curtir

    Responder

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