Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Narrativas da cultura do estupro #ProjetoHisteria

Há um tempo venho produzindo conteúdo para combater as narrativas da cultura do estupro, priorizando o combate às narrativas institucionais produzidas no meio acadêmico.

Não há, dentro da Academia, nenhum conteúdo de combate radical às narrativas da cultura do estupro. Há fora dela e está em nossos lábios, especialmente na herança cultural das lésbicas que registraram suas histórias de resistência ao acesso sexual masculino. A história lésbica é a história das mulheres que dizem não, a palavra mais odiada pelo sexo masculino que o sexo feminino pode dizer. Mulheres precisam criar suas próprias narrativas de negação à cultura do estupro, esta é a maior potência linguística de todas as pessoas do sexo feminino que não foram mortas pelo patriarcado. É para isso que escrevo. Sinto que para isso nasci. Para tirar da língua portuguesa, como aprendi com Clarice Lispector, o que nunca foi dela tirado. E eu não darei um passo para trás em minha decisão por causa do cenário político pois o cenário político não mudou para as mulheres depois do golpe, apenas se tornou ainda mais visível. Não há lucro no que faço. Não há prêmios para uma rebelde. Não há medo que eu já não tenha enfrentado. Posso ser morta a qualquer momento e não me importo. Morro mas morro registrando minha percepção de uma poeta lésbica brasileira no século XXI pós-digital.

Meu prêmio é celebrar minha própria consciência sem o intermédio das narrativas masculinas. É raciocinar numa lógica de contracultura e registrar estes raciocínios, definindo-os como a resistência linguística à cultura do estupro. É me afirmar lésbica sabendo que posso ser morta na próxima esquina. Eu não tenho medo da morte, tenho pânico de estar morta apesar de estar respirando portanto enquanto eu respirar serei inteiramente eu.

Seja bem-vinda ao #ProjetoHisteria. Esta é uma iniciativa que visa incentivar a luta das mulheres escritoras contra a institucionalização das narrativas da cultura do estupro. Mas como começar? Simples, muito simples: vamos começar pelas teorias pedófilas de um médico norte-americano que dedicou sua vida à defesa de estupradores de crianças e agressores de mulheres na corte estadunidense. Tais teorias foram produzidas para proteger pais que abusaram de suas crianças ou espancaram suas esposas. A tática é sempre a mesma: tornar a vítima, vilã. Desde a gênese bíblica. Richard Gardner acusa mulheres que fazem denúncia de alienadoras. Ele afirma que as mulheres procuram difamar o abusador para os filhos com a intenção de se vingar dos homens. São os homens que alienam as mulheres de seus direitos.

As narrativas do Richard Gardner vêm sendo promovidas por uma associação brasileira chamada APASE, que, curiosamente, está nesse momento produzindo um documentário sobre um suposto lado perverso da Lei Maria da Penha, um uso exagerado com objetivo de vingança. A psicóloga Liliane Santi, aparentemente parceira do Analdino, responsável pela APASE, divulgou um vídeo afirmando que uma mãe se matou por ser vítima de Alienação Parental e, dias depois, o filho da mulher que cometeu suicídio veio a público revelar a mentira. Eu me pergunto o que leva uma psicóloga a apoiar, mentindo sobre a história de uma mulher que cometeu suicídio, teorias produzidas por um pedófilo norte-americano. Eu me pergunto se por trás disso não existe uma quadrilha de tráfico internacional de crianças. Nada posso afirmar, mas eu sou uma mulher com uma massa cinzenta ativa demais para não fazer essa associação e esperta demais para ficar calada sobre isso. Ficar calada não protege menina nenhuma. O que está acontecendo precisa ser escancarado.

Estou sabendo que a cafetinagem chegou às escolas ocupadas do Rio de Janeiro e que isso está sendo possível via feminismo. O que estão fazendo com o feminismo, afinal? Permitindo que aliciadores de crianças entrem nas escolas pra falar de empoderamento por meio da prostituição? O feminismo infelizmente foi colonizado pelo movimento LGBT. O movimento LGBT é masculinista. O apagamento das lésbicas deixa o masculinismo do LGBT aparente. O masculinismo conseguiu se apropriar do feminismo e entrar em escolas para colocar adolescentes em contato com a glamourização da prostituição. Eu fui uma adolescente que sonhava com a liberdade. Fico imaginando, nos meus tempos de escola, se uma pessoa me abordasse com o discurso da liberdade sexual com o objetivo de me aliciar para a prostituição. Será que eu não teria acreditado? Eu só queria não viver mais sob um teto tão violento.

O que será das meninas de hoje se nós não combatermos a institucionalização da cultura do estupro?

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