Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Sobre Temer, corrupção e cultura da pedofilia

“O amor não vê idade”, é o que ouço dizer, até mesmo dentro do movimento feminista (do qual não faço parte, por isso e por outras coisas que não vêm ao caso) desde o ano passado, quando comecei a me envolver mais com a luta contra a pedofilia e o abuso sexual infantil. Só consigo pensar nas mais de 550 mil garotas entre 10 e 17 anos que vivem em casamentos ilegais aqui no Brasil, com pouco ou nenhum acesso à educação, porque “amor não vê idade”, e ainda que a relação seja ilegal, a ilegalidade passa batida perante os olhos da sociedade (que inclui instituição familiar, escola, religião, comunidade em geral) porque “amor não vê idade”. “O que é que o Temer tem a ver com a realidade oculta do casamento infantil aqui no Brasil, cara Natacha? Você está falando de coisas completamente distintas: Marcela já tinha 20 anos quando se casou com Temer, já era adulta, tinha o tão famigerado poder de escolha.”

Talvez você tenha razão.

Sim, ela tinha agência, como vocês gostam de falar. Só que uma coisa ela não teve, ela não teve porque eu não tive e a maioria que me lê não teve: acesso à verdade sobre a história das mulheres, contada fora dos estereótipos sexuais que romantizam a violência sexual. Porque a falta de acesso à história sexual das mulheres é algo estrutural, é algo que permeia a família, a escola, a Academia, a religião, o Estado e todas as instituições que dele derivam. O silêncio histórico das mulheres na construção do pensamento humano não é um vazio sem sentido: este silêncio, que é milenar, é perfeitamente interpretável. Para a supremacia masculina, o silêncio das mulheres é interpretado a partir da inferioridade racional feminina, fonte de fragilidade mental e da Histeria, uma doença inventada pela psicanálise de Breuer e Freud. Para as mulheres que lutam com o objetivo de furar a histórica supremacia sexual masculina, o silêncio não está intrinsecamente ligado à biologia sexual feminina que o sexo masculino julga inferior, mas sim ao fato de que os homens excluíram, à força, as mulheres da possibilidade de ocupar espaços públicos, destinando ideologicamente e materialmente o sexo feminino à posição de “mulher do lar” através dos séculos. Quando eu digo que as mulheres foram excluídas à força da ocupação dos espaços públicos do qual a história do pensamento humano faz parte, é principalmente da força sexual, de poder sexual, que estou falando. A cultura do estupro é sobre o poder sexual dos homens milenarmente usado contra as mulheres. O poder sexual masculino sequestra o corpo das mulheres e as simbologias provenientes da fisiologia feminina, como por exemplo o parto, a amamentação e a menstruação, que deveriam ser percebidos como processos naturais, parte da vida do sexo feminino, mas que são demonizados, postos como indesejáveis para mulheres pós-modernas, não no sentido ideológico da pós-modernidade, apenas para simplificar o entendimento. Parir é assustador e nojento, as mulheres querem cesárea. Amamentar é nojento e vulgar, vamos dar fórmula ou leite de vaca pra facilitar a vida. Menstruar é nojento, chato, as mulheres querem se livrar do desconforto que sentem quando menstruam. Para o pensamento pedófilo, relacionar-se sexualmente com uma garota que já menstrua não pode mais ser considerado pedofilia. Aprendi isso em discussão com ativista pedófilo na internet, um carinha de 19 anos que se diz apaixonado por uma menina de 12.

Pedófilos usam a menstruação como marco de maturidade associado à ideia de que “mulheres amadurecem mais cedo”.

Com certeza Marcela sabe nada disso. Provavelmente nem você sabia, está sabendo agora. Eu ainda estou construindo e costurando esse saber com o intuito de produzir sentido para a minha própria vida, mas não só, quero que este saber chegue ao maior número possível de meninas e mulheres. É o que desejo como poeta, escritora, educadora e futura oradora (estou no processo). Porque nós temos o direito de acessar a verdade sobre a condição sexual feminina. Nós temos o direito ao acesso à nossa história coletiva. Nós temos o direito de furar o silêncio imposto estruturalmente, resistindo à tecnocracia, à mercantilização das nossas vozes e ideais, à hierarquização do conhecimento promovido pela educação baseada na meritocracia em que só tem credibilidade para gerar conhecimento quem alcançou título de mestra ou doutora. Não desmerecendo a importância da ocupação destes espaços públicos, pois o avanço das mulheres depende desta ocupação também, os avanços dependem de ocuparmos quanto mais espaços públicos pudermos. Apenas apontando que a Academia é, como escreveu Andrea Dworkin, fortaleza da supremacia masculina e que, quem está dentro dela precisa, necessariamente, fazer essa análise e ser ativista contra a hierarquização dos saberes, que é uma ferramenta supremacista (não apenas de sexo mas também de raça). Nós temos o direito de saber que o zeitgeist (do alemão, significa “espírito da época”, é a soma de toda a cultura produzida pela humanidade), para estar completo, passa necessariamente pela consciência do sexo feminino a respeito de sua própria condição, e estar na Academia não é garantia de acessar este saber. Não sou nada modesta, pergunto a você onde mais você lê o que lê aqui neste blog de uma mãe lésbica quando o assunto é cultura do estupro e pedofilia. A verdade é que, devido à consciência lésbica, eu sei que estamos condicionadas à política sexual masculina dentro e fora de casa. Uma política violentamente predatória que não está presente somente nos atos de abuso sexual, mas também nas teorias sobre sexualidade desenvolvidas por homens, especialmente psiquiatras, dentro da Academia.

A cultura do estupro foi institucionalizada a partir da promoção dos estereótipos sexuais femininos presentes nas obras de Freud, Lacan e seus sucessores, um deles, Richard Gardner, que na década de 1980, afirmou, em uma de suas obras, que a pedofilia é positiva para a sobrevivência da espécie humana.

Tais teorias são usadas por operadores de lei para decisões de guarda. Nos piores dos casos, com base nessas teorias, as guardas estão sendo revertidas da mãe para o acusado de violência doméstica ou abuso sexual infantil. Porque tais teorias têm o poder de perpetuar os estereótipos sexuais sobre as mulheres e tornar vilã a vítima e o agressor em inocente.

Mãe alienadora é o novo “louca”, “doente”, “histérica”. Inquisição pós-moderna.

“Natacha, ainda não entendi o que tem a ver o Temer e a Marcela com tudo isso.”

Se você ainda não conseguiu ligar os pontos, tudo bem. Estou aqui pra te ajudar com isso. Aproveitemos o momento para relembrarmos (como se fôssemos esquecer, rs) quais foram as qualidades femininas levantadas pela Revista Veja a respeito de Marcela:

Bela, recatada e do lar.

A beleza de Marcela está associada ao fato de ser branca, loira, de olhos claros e jovem. Não precisamos partir para uma análise muito profunda a esse respeito, a gente está cansada de saber que o padrão de beleza é uma maneira de promover insegurança feminina por meio da divisão entre as mulheres que agradam esteticamente os homens e as mulheres que não. Qual a estética que agrada os homens? De onde vem essa estética? Além da supremacia branca, racista, eugenista e nazista que só valida a estética eurocêntrica – querem que seus herdeiros sejam brancos -, há também a supremacia masculina, cuja estratégia é associar a beleza à juventude. Quais são as características da juventude? A busca feminina pelo alongamento dos cílios, pelas bochechas rosadas, pelos lábios vermelhinhos, pelo corpo sem pelos, sem estrias, sem celulites, com seios durinhos, revela: o padrão de beleza é a garota branca e magra no início na puberdade. A ode à juventude é uma ode à fragilidade feminina. As características que fogem deste padrão são tão indesejadas que a busca pela juventude, para muitas mulheres, custa a saúde ou até mesmo a vida, perdida por distúrbios alimentares ou por cirurgias estéticas que deram errado.

Marcela é percebida como recatada porque não faz questão de aparecer. Não gostar de aparecer é uma qualidade considerada boa para os homens porque, para eles, aparecer é coisa de homem. A invisibilidade cai bem para uma mulher. A invisibilidade é desejável porque é desejável que mulheres não façam história. A invisibilidade é desejável para as mulheres porque o papel de protagonista da história é reservado ao sexo masculino. Para o sexo feminino, fica o recato: a política sexual masculina quer as mulheres como meras coadjuvantes românticas dos homens. A política sexual masculina quer as mulheres como primeiras-damas, não como líderes políticas. A liderança política feminina irrita profundamente o sexo masculino. Fere, diretamente, os privilégios que eles têm. E eles não querem perder esses privilégios.

Por último, ser do lar significa, para os homens, ser uma mulher que cuida da administração da residência e da educação dos herdeiros dos homens enquanto eles cuidam de construir a sociedade. Enquanto as mulheres estiverem cuidando de questões domésticas, os homens estarão construindo a sociedade, a vida pública. A territorialização feminina, por meio da maternidade, retira do sexo feminino a potência deste sexo ocupar os espaços públicos em pé de igualdade com o sexo masculino. As mulheres saíram de casa e foram trabalhar (lembrando que as mulheres negras sempre trabalharam e inclusive foram escravizadas também por mulheres brancas, como ainda o são), mas os serviços domésticos ainda continuam sob tutela do sexo feminino (lembrando que o trabalho doméstico é majoritariamente composto por mulheres negras e isso é herança da escravidão, inclusive as meninas negras são as mais afetadas pela exploração de trabalho infantil, também herança e manutenção de regimes escravocatas). Meninas brincam de boneca, meninos de carrinho e ferramentas. A divisão do trabalho continua sendo sexual. As garotas aprendem, desde cedo, a desejar funções relacionadas aos cuidados. Meninas são criadas para naturalizar a divisão sexual do trabalho desde antes de aprender a falar. São criadas para que duvidem das próprias potências cognitivas, criativas, da própria percepção da realidade, são criadas para acharem que suas potências de sobrevivência são mais frágeis e que precisam de homens para estarem protegidas de uma suposta inferioridade sexual feminina, em que acreditam pois não têm acesso a uma história mais positiva e verossímil sobre o sexo feminino, a uma história que narre o grande fato da humanidade: se estamos vivas e vivos até hoje, è à força descomunal da sobrevivência das mães que devemos a existência. Mulheres resistimos sempre, estamos sobrevivendo, meio capengas, muito alienadas, mas estamos sobrevivendo.

MarcelaCoadjuvante

Sobrevivendo mães e filhas. Netas e avós. A memória das que já se foram. Marcela tinha 20 anos quando sua mãe a apresentou, em um jantar, para Temer: um homem que, na ocasião, tinha 62 anos. Isso quer dizer que, quando Marcela nasceu, Temer tinha 42 anos. Não que isso tenha acontecido – na verdade não sei se aconteceu apesar de valer o exercício de imaginação -, mas você consegue visualizar um cara de 42 anos carregando uma bebê recém-nascida no colo, vendo-a com 4 anos e já desejando-a sexualmente, com 7 anos dizendo em jantares de família, em tom de brincadeira – socialmente aceita, vamos frisar –  que ela é uma menina tão linda que ele seria capaz de esperá-la crescer só para poder casar com ela (o filho adulto de um velho que abusou sexualmente de mim me disse isso aos 7 anos), e então sendo entregue a ele logo após completar a maioridade perante a lei, assim, um pouco antes de completar a antiga maioridade, que era aos 21?

Você consegue imaginar?

Imaginando isso, você consegue separar o casamento entre Marcela e um homem 42 anos mais velho da realidade de mais de 550 mil garotas brasileiras entre 10 e 17 anos vivendo em casamentos ilegais? Porque a cultura da pedofilia existe e é a base da cultura do estupro. Embora alguns homens sejam suficientemente espertos para não serem pegos agindo ilegalmente, “esperando em deus”, outros não se importam com a legalidade, estão, como propôs Nietzsche, acima do bem e do mal, são super-homens, são eles os únicos deuses em que acreditam no fim das contas. De um lado, os homens invocam a religião e contrariam a laicidade do Estado enquanto, de outro, controlam os úteros e toda a sexualidade feminina com base em uma moral fabricada exatamente para isso. Controle reprodutivo em massa. Guerra milenar contra o sexo feminino.

Dilma é a Eva da nação brasileira. É o tipo de mulher que foge à maioria dos estereótipos femininos. Assertiva, combativa, destemida, segura, protagonista da própria vida, e o principal: a mulher mais poderosa do país. Mais que muitos homens – é o que mais os irrita, por isso o impedimento e o golpe. Dilma é uma afronta ao patriarcado. “Vagabunda, puta, vadia”, eles dizem. Nós entendemos que a nossa fuga ao gênero que vocês nos impõem irrita profundamente vocês. É a prova do quão inteligente somos, e vocês não esperavam por isso. O patriarcado treme e tenta de maneira inconstitucional golpear o poder feminino conquistado democraticamente. 54 milhões de votos é pouco pra eles. Não importa. Democracia não importa pra eles. O povo não importa pra eles. As mulheres não importam pra eles. Eles querem manter suas propriedades, seus benefícios, e são iguais, o discurso de todos é o mesmo. Em defesa da minha família. Família, Família. Família. Do latim, famulus, que significa escravos domésticos. Os homens nos querem fora de qualquer posição que nos confira o poder de mudar a realidade das mulheres, por nós mesmas e pelas outras, pela nossa história de bruxas queimadas no Fogo da Inquisição. A exclusão das mulheres da sociedade (vida a história do sexo feminino das insituições manicomiais) é a grande punição para uma mulher subversiva, uma mulher negra, uma lésbica, uma mulher prostituída, uma mãe que decidiu não ter um romance com o pai de seus filhos, uma mulher que abortou, uma mulher que matou o cara que batia nela quase todo dia, ou o cara que a estuprava quase todo dia, uma mulher que foi reeleita quando um homem tinha certeza de que ganharia.

Marcela, é a Virgem Maria, é o fundo moral do recado da revista mais conservadora do país sobre como Dilma e todas as nós deveríamos ser. Um recado estrutural, ou seja, que atinge uma parte considerável da população brasileira. Um recado cuja intenção é atravessar a história que nós, mulheres, estamos escrevendo para nós a partir de nossas resistências diárias contra a violência doméstica e sexual. Quem é do rolê dos muros sabe bem o que significa atravessar. Atravessar é fazer seu pixo em cima do pixo de outra pessoa, válido para grafitti também. Nós, mulheres, não deixaremos recados sem resposta. Não deixaremos que os homens brancos mais uma vez atravessem a nossa história querendo contar a deles, que sempre foi contada, há milênios. Este recado midiático dos homens para as mulheres que lutam por seus direitos é uma ameaça velada para nos mandar de volta ao lugar social que eles querem que ocupemos. Não sejamos ingênuas. As mulheres foram o primeiro povo a ser colonizado, a ser tornado o Outro do Sujeito por meio de ações materiais e simbólicas. A ferramenta que os homens utilizam é a cultura do estupro, que pode ser materializada em discursos físicos, concretos, como o ato do abuso sexual infantil, ou em discursos simbólicos que visam fazer a manutenção dos estereótipos sexuais femininos. Quando, lá no início deste texto, eu disse que eu achava que vocês tinham razão ao evocar a agência das mulheres novas diante de homens mais velhos, é porque agência me lembra de publicidade, sintaxe e gramática normativa. Fica difícil não pensar em agente da passiva por livre associação.

Assim, sabendo que o lugar do Sujeito é estruturalmente reservado ao sexo masculino, ao sexo feminino me parece sobrar apenas ser agente da passiva. Primeira dama. Enfeite. Coadjuvante do Romantismo, história literária dos homens. Eis a corrupção das mulheres pelos homens, a começar pelas garotinhas. A Virgem Maria é a garota erotizada pela religião. Deixe essa ideia aterrisar no seu coração.

Contra isso, temos o que as mulheres antes de nós deixaram escrito. Só tem uma coisa mais poderosa do que a herança cultural das mulheres sobre a hierarquia sexual: as nossas próprias vozes ecoando o que nos foi deixado enquanto narramos as nossas próprias histórias.

Pelo fim da estrutura da cultura do estupro cuja base é a cultura da pedofilia, eu digo:

#FicaQuerida

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6 Respostas para “Sobre Temer, corrupção e cultura da pedofilia”

  1. Peterson de Souza Querioz

    meu, q porrada! apresentou questões perturbadoramente óbvias (pq, apesar de serem óbvias, são convenientemente ignoradas – inclusive por mim, homem q sou e tentando cada vez mais me limpar então de uma cultura de machismo e opressão). então, obrigado Natacha. força nessa luta e q se dissemine cada vez essas tuas voz e visão.

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  2. Rose

    Finalmente consegui ler todo! \o/
    Que inspiração maravilhosa e feliz você teve em abordar temas tão perturbadores para sociedade. Confesso que comecei a enveredar por este mundo do questionamento da posição social feminina agora, ainda sou “machista” de criação e estou abrindo meu coração para igualdade lendo textos maravilhosos como este que me ajudam muito a deixar inquieta aquela pessoa dentro de mim que sabe que muita coisa está errada.

    Parabéns e obrigada por me ajudar a dar mais um passo.

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