Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Carta aberta para Laerte Coutinho e seu ódio de vaginas

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Quem me dera viver em um país em que a mídia de massa fosse vaginista. Quem me dera que vaginas de crianças não fossem penetradas por pênis de idosos. Que seus úteros infantis não fossem engravidados. Que meninas, por terem nascido com vagina, não fossem obrigadas ao estupro coagidas por juízes que depois de processados foram inocentados ou “condenados” à aposentadoria (google isso) afinal qual o valor das meninas? A saber, aquelas de quem já se sabe o que é esperado desde o momento em que o médico diz:

– Parabéns, é menina!

Parabéns pelo quê? São as meninas que têm suas orelhas obrigatoriamente furadas porque nasceram com vagina pra que elas estejam marcadas com o furo sem consentimento. Furo, é assim que os homens nos enxergam e é porque os homens nos enxergam assim que a cultura do estupro existe. Porque o olhar dos homens sobre nós é pornográfico. Mulher é furo, é falta, é necessidade de preenchimento sempre à espera de um falo que a eleve. E a pornografia, como ensinou Audre Lorde, é o sequestro do erotismo. As mulheres, porque nascidas com vagina, não têm o direito ao erotismo fora do olhar dos homens. Os homens sempre querem definir as palavras que usamos, nossos símbolos, nossos signos. Os homens sempre quiseram definir quem somos.

Laerte, ser humano do sexo masculino: a vagina não é um mero furo. Ela é um músculo potente que está nas mãos do Estado junto com o útero. Enquanto eu escrevo esta carta aberta, vaginas infantis estão sendo estupradas e engravidadas, mãozinhas de crianças com vagina estão sendo obrigadas a masturbar ou a fazer sexo oral em velhos nojentos e eu não quero saber se eles estão usando saia ou calça, eu só sei que eles têm pênis e que a identidade de gênero de nada importa pois a identidade não muda o sexo que sai e entra daquelas vaginas infantis. Enquanto eu e escrevo esta carta aberta, vaginas estão sendo mutiladas com episiotomia durante seus partos. Enquanto eu escrevo esta carta aberta, mulheres estão passando por exames de toque doloridos sem que tenham consentido esses exames. Algum médico já enfiou o dedo no seu cu sem pedir licença, Laerte? Enquanto escrevo esta carta aberta, mulheres estão tendo suas vaginas penetradas pelos seus maridos sem que elas tenham consentido. Enquanto escrevo essa carta aberta, vaginas de lésbicas estão sendo penetradas por pênis para que elas aprendam a gostar de homens. Enquanto escrevo essa carta, mulheres estão sendo espancadas e mortas somente por terem nascido com vagina.

Se existisse um movimento vaginista, eu seria vaginista sim. Pois se me fosse dado um único pedido, eu pediria que as pessoas do sexo feminino não fossem mais obrigadas à maternidade ainda crianças porque as pessoas do sexo masculino, apesar de terem inventado tantas escolas artísticas e literárias marcando “evoluções psicológicas da humanidade”, não conseguiram sair do barbarismo que é o ato do estupro e o sequestro das mulheres por meio do nosso sistema reprodutivo. Se dizem tão civilizados esses machos brancos, mas não conseguem perceber que vagina não é um signo de inferioridade. O sexo masculino percebe o sexo feminino como inferior e nem sob essas circunstâncias nós podemos bradar o orgulho de apesar de termos vagina estamos vivas? Sabe como é o nome disso, Laerte?

Socialização.

A socialização que você recebeu, Laerte, está relacionada com o fato de você ser branco e de não ter o signo do furo, da falta, da metade à espera da outra metade. A socialização que você recebeu faz com que você ignore o quanto seria bom se a mídia de massa do país fosse de fato vaginista como você sugere que é. Porque, afinal, mais de 500 mil garotinhas entre 10 e 17 anos estão em casamentos ilegais atualmente no Brasil e o curioso é que meninos com pênis estão longe de sofrer o mesmo destino. Porque, afinal, mais de 16 milhões de meninas ao redor do mundo não terem acesso à educação básica por terem nascido com vagina parece pouco pra você.

Não é a sua identidade que vai apagar o fato de você ser parte do problema, Laerte. Porque quando você relaciona o símbolo da vagina a algo degradante, digno de sarcasmo, de inferiorização, você está sendo anti-mulher, mesmo “se autoidentificando” como uma.

#ahistoriadela
#herstorytelling

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4 Respostas para “Carta aberta para Laerte Coutinho e seu ódio de vaginas”

  1. Rafaela

    !!!!!!!!!

    Cara eu tenho que acordar amanhã (hoje) às 6h, já são 4h21 e eu simplesmente não consigo parar de ler UM TEXTO ATRÁS DO OUTRO.

    E o doido é que já me deu TANTOS insights, tanta calma interior, num nível que nem sei dizer qual é, que eu comecei a ver com mais leveza problemas na minha vida que até ontem pareciam desesperadores. Fez eu olhar pra eles de um lugar de mais lucidez, e olha que nem são assuntos que têm a ver com o feminismo exatamente.

    Ou seja, você me tocou num nível absolutamente não-superficial.

    Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada!!!!! Você é incrível!!!!!!

    *-*

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