Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Uma mãe lésbica contra as narrativas do príncipe

#PROJETOHISTERIA #HERSTORYTELLING #AHISTORIADELA #MULHERARTISTARESISTA

Celebrando as narrativas do sexo feminino, por Natacha Orestes

Este é o post de lançamento de contação multiplataforma de histórias de mulheres artistas e protagonistas da atualidade. A contação de histórias das artistas contemporâneas que não contam com apoio midiático se dará, a princípio, por meio de textos escritos, de música e de um convite a todas as mulheres que queiram fazer parte do #PROJETOHISTERIA para somar num ambiente artístico, acolhedor e exclusivo para o sexo feminino. No fim do texto você saberá como pode fazer parte deste projeto. Eu poderia dizer que você pode pular logo para esta última parte e ouvir a MixTape de lançamento do #PROJETOHISTERIA, mas sugiro que leia todo o post. É longo, mas é uma história de resistência à cultura do estupro, lesbofobia e violência doméstica que convergiram numa revolta pós-gravídica que é de um corpo e de muitos corpos assinados com o sexo feminino.

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Eu criei a hashtag #mulherartistaresista e agora tem um monte de mina usando. Adoro! ❤

A MixTape Smashing Prince Narratives [esmagando as narrativas do príncipe] foi mixada e gravada por mim, Uma mãe lésbica, e está no soundcloud do meu projeto de empoderamento de mulheres na música eletrônica, o SóMinas. Entenda a seguir o caminho que me trouxe até este ponto. O ponto em que eu decidi que nunca mais abaixaria a cabeça para homem nenhum. E que as minhas criações serviriam à história das mulheres, não à manutenção da história que os homens querem que eu escreva sobre a minha jornada neste mundo patriarcal.

Era uma vez

uma mãe lésbica que, cansada de ver toda a sua potência criativa ser reduzida ao papel de mãe, decidiu que fundaria o SóMinas, um projeto de empoderamento das mulheres na música eletrônica. Antes da maternidade, eu, Natacha Orestes, fui redatora publicitária por alguns anos. Cansada de ver minha criatividade limitada a peças publicitárias sem nenhum valor artístico, decidi que a partir daquele momento, lá em 2010, avançaria um passo na minha carreira trabalhando como redatora em uma das mais conceituadas agências de DJ do Brasil, que é também produtora de um dos festivais de música eletrônica de grande porte por aqui. Nada de nomes porque não fiz denúncia e não quero tomar processinho por narrar estupro pela segunda vez na internet. A gente vai ficando vacinada… Nem tudo deu certo enquanto eu trabalhava com aquela equipe. Houve muito assédio moral envolvido e eu fui, inclusive, estuprada. Assédios que me fizeram desistir daquele sonho e procurar novamente uma agência de publicidade para que eu pudesse continuar viva profissionalmente, o que consegui muito rápido afinal de contas sou realmente boa no que faço, sem falsa modéstia. O problema é que logo que pedi demissão da agência de DJs, antes de assinar o contrato com a agência de publicidade, descobri que estava grávida de duas semanas e contei o fato para a futura contratante, que desistiu de me contratar. Foi um excesso de honestidade muito grande da minha parte, com a certeza de que eu era a melhor escolha para a função e que uma gravidez e um filho não seriam um empecilho para o meu trabalho. Ledo engano. Quando eu fui descartada da função, a sensação de inutilidade começou a tomar conta de mim. Eu recebi o convite para voltar para a agência de DJs, mas eu não podia continuar sendo subordinada de um cara que me estuprou, segredo que guardei entre poucas amigas até pouco tempo atrás, quando decidi quebrar o silêncio ao participar da campanha #AssedioNoTrabalho promovida pela Revista Az Mina, narrando parte do que aconteceu. Grávida, sem emprego e depressiva, fui morar com o pai do feto, que, consciente de que eu saía de uma posição de protagonista da minha história para coadjuvante da dele, passou a atacar a minha autoestima para mostrar seu poder sobre mim. Agora que eu era a mãe de seu filho, eu era propriedade dele.

Revista Az Mina

Como você pode perceber, até então eu não tinha a noção de que eu era lésbica. Mas, voltando à minha adolescência, meu primeiro beijo e primeira vez foram com uma menina. Na época, meu pai havia sido “voluntariamente demitido” de seu emprego na Eletropaulo por motivo de privatização. Viciado em cocaína e alcoólatra, meu pai se afundava em dívidas fúteis e voltava pra casa querendo bater em alguém: na minha mãe, em mim.  Minha mãe, que fora “do lar” a vida toda, se deparava com a necessidade de trabalhar para, pela primeira vez, encher a geladeira e dar de comer aos filhos, eu e meu irmão, que é sete anos mais novo do que eu. Ela ainda não havia se separado do meu pai, que, diariamente, chegava em casa com um ódio que a gente nunca sabia pra quem ia sobrar. Certa vez, à tarde, quando minha mãe começou a trabalhar, meu pai chegou e eu estava no telefone. Tímida demais para ligar para alguém, eu nunca usava aquele telefone. Não gostava de telefone e não gosto até hoje. Mas às vezes uma amiga me ligava. Uma amiga que meus pais desconfiavam que fosse lésbica. Eu gostava dela. Ela era legal. Nós fazíamos karate juntas. Era essa minha amiga no telefone. Irritado pela minha insistência em continuar falando ao telefone com a minha amiga que ele achava ser lésbica, ele desconectou o telefone da parede e jogou tudo no chão. Sem entender nada, questionei o motivo de ele ter feito aquilo. Então ele veio pra cima de mim. Fugi para o meu quarto e ele veio atrás. Sem pensar, me deitei na cama e para proteger meu corpo de sua investida violenta, levantei o pé, que pegou em sua testa e ele interpretou como um chute. Então ele encheu a minha cabeça de socos. Um dos meus olhos ficou roxo. Meses depois eu estava namorando um carinha da escola que vinha investindo em mim há tempos, enviando cartinhas, se fazendo presente. O mesmo cara que alguns anos depois se achou no direito de me estuprar e, nove anos depois do estupro, se a achou no direito de me processar por eu ter narrado a violência nas redes sociais. Pois. O processo está quase no fim e se ele ganhar terei de pagar dez mil reais a ele. Mas estou confiante. Saí até na capa da Folha de S. Paulo por isso.

Se quiser dar uma olhada de perto nessa história, assista ao meu depoimento:

E a violência doméstica estava por vir.

Quando o genitor do meu filho começou a abusar psicologicamente de mim, foi se aproveitando de intensas dores que eu trazia em meu corpo relacionadas com abuso sexual. Ele sabia disso. Ele sabia que a minha depressão tinha a ver com os traumas sexuais que eu carregava. E ele sabia porque eu já estava dizendo isso pra ele na época. Quando eu pedi a ele para que ele tivesse mais cuidado comigo durante o sexo porque devido à gravidez e aos traumas eu já não me conhecia mais meu corpo o suficiente para atingir o orgasmo, ele se sentiu ferido em sua masculinidade e os abusos se intensificaram. Foi só eu mostrar a ele a minha vulnerabilidade sexual que ele me deixou no gelo. Aí percebi que o que ele queria de mim era que eu fosse sua bonequinha sexual de luxo e que o que importava pra ele era seu pau duro entrando e saindo de mim, não a minha saúde mental e busca pelo entendimento do meu próprio corpo, que estava em intensa modificação por causa da gravidez. Até o dia em que ele me disse que não me desejava mais porque minhas calcinhas eram velhas e manchadas. Este dia foi a gota d’água. Pensei como podia eu, uma mulher que já se dizia feminista, passar por aquilo? Pensei como eu podia ter uma autoestima tão baixa a ponto de ter acreditado que ele me amava. Eu relevei gritos, portas batendo, cara fechada pra fazer compras no supermercado e pressa em dias de consulta do pré-natal que me faziam chorar. Mas dizer que não me desejava por causa das minhas calcinhas foi o fim da linha para aquela doença que eu chamava de amor.

Não era amor, era Síndrome de Estocolmo.

Foi aí que eu refleti sobre toda a vida que a minha mãe viveu junto com meu pai e no quanto o fato de ela ter sido submetida (não, ela não “se” submeteu, ela foi coagida) influenciou negativamente na minha educação e na educação do meu irmão. A partir dessa consciência, entendi que aquilo que eu estava vivendo ali só tendia a piorar e que se eu quisesse continuar sendo eu depois da gravidez, isso seria impossível de conseguir ao lado de um cara abusivo. Além disso, se eu quisesse que meu filho, quando adulto, tivesse um comportamento diferente dos homens com quem convivi, eu teria de viver com ele em um espaço livre de interferências patriarcais.

Foi assim que voltei pra casa e fiz um financiamento colaborativo pra conseguir parir na sala da minha casa, sem médicos, sem soro de ocitocina, sem enfermeira subindo em cima de mim, sem mutilação vaginal por meio da episiotomia, aquele corte desnecessário que fazem nas vaginas das parturientes para depois darem o “ponto do marido” que “deixa a entrada da vagina tão apertadinha que o marido nem vai sentir diferença no seu ‘brinquedinho’”. Inclusive sem a presença do genitor que não havia contribuído em nada com a minha saúde mental na gravidez, que só fez piorar minha situação devido à violência doméstica. A decisão de não querer o genitor no mesmo espaço em que eu iria parir foi por demais acertada. Ele poderia ter me travado emocionalmente e isso poderia ficar refletido no meu trabalho de parto, tornando-o mais dolorido e demorado. Depois do nascimento, o genitor passou a dizer que eu queria enriquecer às custas dele no processo de pensão e que eu não deixava ele ver o filho no processo de visitas, sendo que eu era sempre a primeira a pensar no vínculo de ambos e por isso fui levar o Théo para o genitor ver quando ele já não vinha mais. E nem a isso ele deu valor: em um momento eu passei mal e pedi para que ele ninasse o filho ao que ele respondeu que “mamãe é responsabilidade e papai é diversão”, e que, por isso, eu deveria niná-lo mesmo passando mal, visto que a responsabilidade dele era exclusivamente brincar. Quem deveria niná-lo era eu, ainda que eu estivesse fraca, sem forças. Aquilo, para ele, significava ser eu agora. Única e exclusivamente mãe de seu filho. Hoje meu filho está com quase 3 anos e o genitor, meses atrás, em uma das duas visitas que ele faz ao filho por mês, disse que era meu patrocinador e que eu nunca conseguiria algo melhor. Ele também já disse que eu era uma péssima educadora. E passou a criticar o meu ativismo, que ele já conhecia, porque agora eu não estava mais servindo à esquerda e sim dividindo-a com os meus mimimis sobre opressão sexual, criticando-me por “transformar tudo em luta”. Me chamou de lixo na frente do filho, que estava sonolento mas ainda estava presente. E chacoalhou o pênis dentro da calça me chamando de irresponsável por ter chegado atrasada pela primeira vez na vida na hora de ele devolver a criança pra mim, sendo que ele não cumpre nem o que a justiça determinou, quatro visitas por mês. Ele vê o filho duas vezes por mês e eu, que cuido da criança todo dia há quase três anos sozinha, sou irresponsável.

Sei.

Ele realmente não contava com a minha sobrevivência. Ele achava que eu nunca mais me levantaria, que nunca mais estaria livre do poder econômico que exerce sobre mim por eu ter tido a minha carreira sequestrada por causa da gravidez. Ele achava que a gravidez havia sido minha derrota. Tudo o que ele dizia sobre mim durante o namoro, antes da gravidez, sobre o quanto ele me admirava como artista, sobre o quanto eu era tão maior e melhor do que ele, virou pó quando ele percebeu que o ambiente estava tranquilo e favorável pra me dominar. Toda aquela admiração era uma casca que escondia sua profunda misoginia, era seu olhar pornográfico sobre mim que continua investindo no estereótipo da mulher que engravida como fonte de renda. A mãe que se recusa a se submeter ao pai do seu filho vira prostituta, interesseira, que engravidou pra pegar o dinheiro do pai. A mulher que ele queria submissa e se recusava à submissão provocava seu ódio e ele estava disposto a tudo para destruí-la enquanto interpretava o papel de cara legal que tinha o sonho de ser pai mas pena que a mina surtou e destruiu tudo com medo de ser feliz, aquela louca. Histérica.

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Quando o genitor do meu filho chacoalhou o pau pra mim, eu já me percebia como lésbica. Sair do armário foi um processo lento e dolorido que durou todo o meu puerpério. O puerpério foi um tufão, uma tempestade, foi Oyá mostrando que a minha vida estava girando no sentido contrário do que era pra ser pra mim. Tantos traumas dos quais naquele momento eu não podia mais fugir porque a vida do meu filho e a minha própria vida dependeriam de decisões duradouras que eu tomaria a partir de então. Empurrada pela memória traumática que invadia minha mente com as violências todas, a lesbofobia do meu pai que me obrigou a ser hétera com socos, as recorrentes histórias de abusos sexuais que tiveram início na minha infância e a cereja do bolo que foi o descarte do mercado de trabalho como consequência da gravidez, tive de buscar por saídas para manter a sanidade. Sozinha.

Eu teria de me virar.

Me virar pra cuidar do meu filho.

Me virar pra lidar com os processos de guarda e visitas.

Me virar pra peitar ex-namorado estuprador.

Me virar pra fazer todo mundo enxergar que eu não sou só a mãe, eu sou muito mais do que a mãe, eu sou tudo o que eu era antes de ser e mais, eu sou tudo isso junto com a mãe porque a mãe transformou toda a merda do meu passado em adubo para o futuro.

Me virar para continuar acreditando no meu potencial criativo quando todo mundo enxerga em mim a mãe, uma mulher limitada demais para cometer a extravagância de continuar sendo artista depois da maternidade.

Eu ouso ser inteira, ser inteira é alcançar o sucesso artístico que almejo. Sou inteira a cada dia.

A consciência das mães é uma consciência que precisa ter seu lugar de fala respeitado. Fomos nós que mantivemos a humanidade viva até agora às custas das nossas potências criativas. Nós parimos, nós educamos. As principais narrativas sobre educação são nossas. E somos nós, as mães, as que mais sofrem com a exclusão total de nossas potências educacionais. Muitas de nós, mães, foram engravidadas ainda adolescentes, pararam de estudar e não enxergam mais a possibilidade de voltar. Aqui no Brasil são mais de 550 mil casamentos ilegais entre homens mais velhos e meninas de idade entre 10 e 17 anos. O número de “gravidez na adolescência” em Jundiaí, minha cidade natal, mais do que dobrou nos últimos anos. Ninguém relaciona isso com abuso sexual infantil e cultura de pedofilia por quê? Ninguém prende pedófilo por quê?Todo mundo diz que Ana Paula do BBB estava “pagando de louca” quando gritou que o Laércio é um pedófilo e ninguém percebe que ela ainda teve de pedir desculpas por dizer a verdade? Até barba azul o cara usava, fazendo menção ao Barba Azul, um sádico famoso por abusar sexualmente de crianças e assassiná-las! E o juiz que foi processado por aliciar menor de idade e “condenado” a gozar de aposentadoria enquanto continua solto podendo aliciar quantas meninas quiser, ninguém quer falar sobre isso por quê?

Eu digo o porquê.

É porque nós vivemos numa sociedade bárbara: toda a evolução do pensamento humano é uma mentira contada por homens para nos fazer crer que houve um processo civilizatório ao longo da história da humanidade. Mas as mulheres sempre estiveram condenadas à cultura do estupro e não existe civilização com cultura do estupro. Estupro é crime bárbaro e está em quase toda esquina. Não poupa nem crianças. Meninas em todo o Brasil pagam boquete em troco de balas, chocolate ou cocaína. Meninas em todo o mundo ainda são trocadas por pacotes de cigarro. Meninas refugiadas estão sendo obrigadas a pagar boquete pra soldados e funcionários da ONU em troca de água. Aqui no Brasil, um pai expôs a filha de 8 anos dançando num palco de quatro rebolando até o chão e até hoje ele está explorando a menina, não foi preso. Ele alicia a filha usando a música como pano de fundo e nada acontece feijoada. Nos Estados Unidos temos a cantora Ke$ha que foi sexualmente abusada durante 10 anos pelo Luke e a Sony não quer desfazer o contrato de exclusividade dela: qual a lógica de manter a criatividade de uma mulher presa ao seu abusador? Qual a mensagem que isso passa para as mulheres do mundo todo?

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Crédito da ilustração: Vitor Teixeira

Que os donos da guerra são os donos das armas e têm pênis e eles não querem que a cultura do estupro acabe. Nenhum homem quer realmente que a cultura do estupro acabe. Se eles quisessem eles estariam agora mesmo ajudando mulheres a colocar estupradores na cadeia e dando a devida assistência a mulheres e crianças vítimas de violência. Mas não. Eles se beneficiam do medo que as mulheres têm de ser estupradas. Quando uma mulher denuncia um agressor, um estuprador, a maioria desses falsos apoiadores acusa a mulher de estar tentando manchar a reputação do estuprador. Quando eu fui abrir o meu Boletim de Ocorrência por violência doméstica, ouvi do delegado que estava fazendo daquilo uma novela, que se ele fosse preso a culpa seria minha, mas mesmo assim eu quis levar o meu depoimento adiante. De todo o meu depoimento, só uma linha foi colocada no texto da ocorrência, mencionando que o acusado gritava comigo “e só”. Sobre as manipulações psicológicas para que a minha autoestima fosse destruída até que restasse apenas a mãe que finge ser feliz nada foi registrado, e essas manipulações perduram até hoje, pior ainda, elas são usadas institucionalmente, dentro dos processos em que o meu agressor se utiliza do estereótipo da mulher histérica existente no imaginário coletivo para me atacar por ter  me negado a ser continuar com ele. Sumiram com meu Boletim de Ocorrência e ninguém dá uma foda pro que eu tenho a dizer dentro dos processos. É muito difícil quebrar o silêncio e fazer história de protagonista e não de coadjuvante na história da vida real que escrevemos diariamente com os nossos corpos-caneta. Homens não querem que as mulheres falem a verdade sobre o que é ser uma pessoa do sexo feminino em um mundo patriarcal. Na delegacia eu entendi de uma vez por todas o que significava o silêncio das mulheres e se estou hoje contando tudo isso é exatamente para quebrar esse silêncio. O silêncio das lésbicas na literatura não está separado do silêncio das mulheres que sofrem violência doméstica. O silêncio de cada mulher que um dia foi abusada quando menina é da mesma matéria que o meu. O silêncio das mulheres na construção do pensamento humano também é da mesma matéria. O silêncio das mulheres na música também. Todo o silêncio das mulheres são um só silêncio composto de silêncios diversos. Silêncios sobre misoginia, lesbofobia e racismo. Mulheres não são misteriosas, foram os homens que sequestraram nossas potências linguísticas tornando-as secretas até mesmo para nós. Falar sobre cultura do estupro é desvendar o segredo. É deixar o rei nu. É esmagar as narrativas do príncipe.

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Como poeta, descobri a causa da minha vida com a poeta caribenha Audre Lorde, que escreveu que o silêncio nunca vai nos proteger:

Lutar contra o silêncio das mulheres.

Quando, no Dia Internacional da Mulher, palestras sobre feminismo são realizadas por palestrantes do sexo masculino como se isso não fosse um rapto da possibilidade de mulheres finalmente falarem e serem ouvidas por outras mulheres, por homens e pelas instituições, temos a certeza de que ainda não fomos entendidas. Ainda não somos percebidas como capazes de protagonizar nem a nossa luta, a nossa própria voz sobre a nossa luta que é diária no cuidado com os filhos, na educação deles, na lida com um genitor não raramente violento. E não seremos percebidas se nós mesmas não nos levantarmos contra esses estereótipos insanos que criam sobre o que é ser mulher na sociedade. Estereótipo da mulher histérica que precisa sempre de um homem para estar completa. É por isso que eu estou aqui, escrevendo estas palavras e indo além delas para ampliar a minha voz. Porque a minha voz importa pra mim e atualmente sei que ela importa para muitas mulheres além de mim. Mulheres que me procuraram para desabafar sobre abuso sexual e violência doméstica porque eu havia desabafado publicamente antes, foi assim, no grito, que me tornei um canal de apoio e segurança para outras sobreviventes como eu. Eu posso, sim, dizer que ajudei a criar esta onda a partir da minha própria narrativa de resistência. Toda mulher tem esse potencial. Cada mulher que narra a suas insubmissões investe no fim da cultura do estupro.  Todas as mulheres são beneficiadas quando uma delas quebra silêncios. Porque o silêncio de todas é igual ao de uma e o silêncio de uma é igual ao de todas. Por isso a voz de outras mulheres também importa para mim. Muito. Importam para mim as narrativas que as mulheres criam quando resistem aos homens à sua volta. Todas as narrativas produzidas por mulheres importam para mim. As prosaicas e as artísticas. As cultas e mais ainda as incultas. As narrativas lésbicas, estas atualmente são as que mais importam para mim. Pois foi a consciência lésbica que me trouxe as respostas para as perguntas-sem-resposta que eu me fazia desde menina, e isso mudou a minha vida completamente. Desde o pensamento até a postura, a forma de andar, de falar, de reagir aos outros e às outras até a decisão de não de depilar mais. Estou muito mais autoconfiante. Posso ficar ainda mais e investirei nisso. Quero que meu corpo seja uma mídia, uma plataforma de educação para mim e para inspirar outras mulheres. O que antes era objeto de uso masculino quero que seja, a cada dia, um instrumento para acabar com a cultura masculina de fetichizar o sexo feminino pelo prazer de dominar reduzindo-nos sempre a um objeto.

A autoconfiança não veio de um dia para o outro e nem de mão beijada. Ela foi sendo construída a cada dia enquanto meu filho dormia e eu podia me dedicar entender os softwares de mixagem. Ela foi ganhando contornos quando entendi que não estava sozinha, que mulheres em diversos cantos do mundo estavam se levantando e se unindo por visibilidade em um espaço dominado pelo sexo masculino.  Quando li a entrevista da Björk sobre invisibilidade, sobre ela precisar fazer de conta que achava que as suas ideias tinham vindo de homens para que elas saíssem do papel, quando eu li sobre a Bjork imperfeita e vacilante, humana, mulher, sexo feminino tendo de lidar com o fato de ser inferiorizada mesmo sendo uma gênia da música, eu decidi que me fortaleceria e não sucumbiria. Pois se Björk, do alto de sua história, disse a si mesma que seria uma covarde se não se levantasse pelas mulheres, quem mais pode dizer que as mulheres não enfrentam graves problemas quando se afirmam como artistas? A autoconfiança foi sendo fortalecida a cada virada acertada. A MixTape que eu gravei é o resultado de muita luta. A história por trás da MixTape é uma história real de resistência feminina. Resistência como professora de literatura focada em criar diálogos e pensamento junto com outras mulheres fora da Academia. Como poeta. Como audodidata que decidiu aprender a mixar sozinha pra poder se fazer ouvida. É a história de cada uma das mulheres que escreveram as músicas selecionadas para comporem a MixTape. É a história da muçulmana Yasmin Mogahed sobre o perigo de se acreditar nas narrativas do príncipe encantado, nos contos de fada, no “felizes para sempre”. É a história da songwriter e vocalista Cari Golden com a mensagem “Eu não sou sua estrela, você não é quem você diz, agora escute isso”, é a história das produtoras de música Anja Shneider e Maya Jane Coles e das brasileiras ANNA e Ké Fernandes aka Groove Delight, esta última uma mulher lésbica de São Paulo que está definitivamente abrindo uma nova página na história da música eletrônica nacional, colocando a maioria dos produtores de música eletrônica do sexo masculino no bolso.

Contra o silêncio das mulheres, #AHistoriaDela!

A MixTape #Herstorytelling by SóMinas tem o objetivo de lançar o #PROJETOHISTERIA internacionalmente. O #PROJETOHISTERIA chega agora para combater as narrativas da cultura do estupro a começar pela indústria da música eletrônica. Vale lembrar que, no ano passado, uma mulher (amiga minha, inclusive) foi estuprada por um segurança na festa REVEIÃO de uma casa noturna chamada The Box, em Brasília, e a polícia, mesmo após laudo, mesmo após a mulher ter tido que retirar o absorvente interno que perdeu dentro do corpo devido ao estupro,  afirmou que não houve estupro. A polícia. Delegacia da Mulher. Dizendo que o estupro não foi estupro. Não houve estupro como se a mulher estava tão bêbada que não poderia consentir o ato sexual? Quantas mulheres mais serão estupradas por donos de empresas ou seguranças de estabelecimentos (homens de diferentes classes sociais são broders quando o assunto é estupro) enquanto os músicos promovem estereótipos sobre o que é ser mulher nas letras das músicas se aproveitando do fato de que poucas mulheres conseguem se fazer ouvidas e geralmente só conseguem se fazer ouvidas se repetem sobre si mesmas o que os homens pensam que nós somos? Eles contratam as songwriters e vocalistas que vão fazer voz sexy, gemer, chamar a si mesma de puta e dizer que adora drogas e chupar pinto. Estereótipos de mulheres servis, loucas, selvagens, sexualmente insaciáveis, interesseiras, fúteis, superficiais, inferiores e que por serem inferiores precisam tanto de homens. Os estereótipos de gênero existem em função da cultura do estupro e é o que mais tem nas narrativas de música eletrônica.

Arte é denúncia.

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Você, mulher, também pode fazer parte do #PROJETOHISTERIA. Para isso, basta admitir que a cultura do estupro existe e que qualquer ato de misoginia não está desvinculado da cultura do estupro. Todo ato de misoginia, por menor que seja, mantém a cultura do estupro em pé. Partindo desse princípio, todas as mulheres estão convidadas a fazer parte dessa teia tecnológica que visa dar visibilidade às narrativas do sexo feminino contra a cultura do estupro. Faça a sua arte e escolha uma ou mais hashtags #MulherArtistaResista, #AHistoriaDela, #Herstorytelling e #ProjetoHisteria para narrar a experiência ou a percepção de uma pessoa do sexo feminino sobre a condição individual e coletiva das mulheres. É possível colaborar como tradutora, ilustradora, designer, videomaker, musicista, poeta, graffiteira, MC, escritora, artesã, pintora, é possível colaborar como mãe, como lésbica, como negra, como uma mulher com deficiência, é possível fazer, enfim, com que a interseccionalidade seja uma prática capaz de costurar a diversidade das vozes das pessoas do sexo feminino celebrando as nossas semelhanças e as nossas diferenças. Por meio da Arte e da Tecnologia que temos, todas nós, literalmente em mãos.

O #PROJETOHISTERIA é sobre desmantelar as narrativas do príncipe encantado. É para que as novas narrativas das mulheres não tenham que, necessariamente, vir da Academia para terem credibilidade. É para promover as narrativas poderosas das mulheres sobreviventes do patriarcado. A Tecnologia é a grande aliada das mulheres. Já dominamos essa área um dia. Fomos retiradas dela, mas estamos voltando. Estamos nos arriscando, acertando e errando, errando muito! Porque não temos de ser perfeitas, temos de ser inteiras. E temos de lutar para que a mídia nos retrate como inteiras que somos, não como contam as fantasias que os homens escreveram sobre nós. Por isso a democratização da mídia deve ser pauta da luta das mulheres. o #PROJETOHISTERIA é sobre formar protagonistas autodidatas e autoconfiantes que queiram trabalhar com um foco em comum: acabar com a colonização. É sobre educação de meninas e mulheres para a busca da representatividade. É sobre o fim da cultura do estupro.

Ousemos a utopia!

Escute a MixTape #Herstorytelling by SóMinas [celebrating female creators on Techno] BR

Tracklist:

Intro: Yasmin Mogahed

Anja Shneider ft. Cari Golden – Something that’s for life

Der Extraklasse (Ké Fernandes & Thaynara Volparto) – Girl Thang

Maya Jane Coles – In dark, in day

ANNA Lunoe – Midnight

Groove Delight – Utopia

Badass ending: Yasmin Mogahed

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