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Padrão penetrativo peniano: vamos conversar sobre isso?

anatomiaculturaestupro

Este não é um post que tem como objetivo cagar regras em como as mulheres se comportam sexualmente. Não é sobre o gosto pessoal de cada uma de nós e, ao final da leitura, a leitora estará livre para continuar se comportando como se comportava anteriormente sem culpas, sem rancores, sem pressões. Confio na capacidade de cada mulher compreender o que é melhor para si. A minha intenção enquanto materializo meus pensamentos acerca do padrão penetrativo peniano não é obrigar mulheres a pararem de praticar o sexo penetrativo com homens. É tão somente promover uma reflexão sobre o comportamento sexual dos homens ao longo de toda a história da humanidade a que temos acesso.

Cultura do estupro: mais do que uma ideia, uma realidade material

Ao longo de 2015, ficou bastante nítido para nós, mulheres ativistas pelos direitos das mulheres que utilizam plataformas digitais como ferramenta de luta (de qualquer frente, ou seja, feministas, mães, lésbicas) que a cultura do estupro não é apenas uma ideia: ela existe, é material. O que antes era apenas uma teoria formulada com base em relatos encontrados nos guetos femininos/feministas – os únicos espaços em que as vozes das mulheres que sofrem agressões sexuais são legitimadas – agora já é evidência indiscutível, que inclusive creio que possa ser chamada de evidência científica. A campanha #MeuPrimeiroAssedio promovida pela agência de publicidade Think Eva permitiu, por um lado, que mulheres relatassem abusos vividos durante a infância e juventude e, por outro, que esses relatos fossem analisados e transformados em dados: só no Twitter foram 82 mil replicações da hashtag #MeuPrimeiroAssedio. Ao total, foram analisadas 3.111 relatos publicados no microblog e chegou-se à conclusão de que a idade média em que as meninas são abusadas pela primeira vez é 9,7 anos. Estes dados, apesar de informais, permitiram que os relatos anteriormente limitados aos guetos femininos/feministas saíssem da invisibilidade e se tornassem públicos. Depois dessa campanha, não é mais possível que homens digam que somos exageradas quando falamos em cultura do estupro. Os dados falam por si. Contra fatos não há argumentos.

Se os dados informais não são suficientes para que a leitora deixe de compreender a cultura do estupro como uma ideia abstrata e passe a internalizar a ideia de que essa cultura é física, material, concreta, que se dá por meio da força de um corpo do sexo masculino contra outro corpo geralmente do sexo feminino ou infanto-juvenil de ambos sexos e as piores consequências do estupro ocorrem quando existe a penetração peniana, trago aqui alguns dados da pesquisa Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde, que você pode acessar na íntegra clicando aqui.

 

 

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Penetração peniana, pedofilia, cultura do estupro & maternidade compulsória

Um dos mais alarmantes dados de toda essa pesquisa é o índice de gravidez decorrente do estupro quando a vítima tem entre 14 e 17 anos, faixa de idade que representa 19% dos casos, ou seja, 100 mil adolescentes, sendo que 89% dos casos de estupro foram cometidos contra adolescentes do sexo feminino, ou seja, 89 mil garotas. Do mesmo estudo, relata-se que 15% dessas adolescentes sofreram estupros com penetração, o que dá um total de 13 mil garotas. Desses 13 mil casos de estupro, 15% resultaram em gravidez, totalizando cerca de 2 mil casos de gravidezes decorrentes de estupros. No entanto, a estimativa é que os casos de estupros relatados representam apenas 10% do número real. Isso significa que, por ano, são estimados no Brasil cerca de 20 mil casos de gravidezes na adolescência como consequência de estupro. Lembrando que adolescentes com menos de 14 anos já podem engravidar mas não estão sendo contabilizadas nessas estatísticas.

Agradecimentos especiais à Keli-Alexandre, autora do À Margem do Feminismo, por me ajudar com os cálculos desta parte do post.

Socialização para a feminilidade: da proibição da descoberta do clitóris à maternidade compulsória

Embora os homens já considerem garotinhas de dois anos estupráveis, essas mesmas garotinhas são desincentivadas a descobrir o prazer que o toque em suas genitálias podem proporcioná-las. Qual é a mensagem que as meninas no início do processo de desenvolvimento cognitivo estão recebendo com a proibição da descoberta de seus corpos aliada à exposição ao risco de abuso? Que o sexo não lhes pertence, que sua vulva – que nem nomear corretamente sabem – está à disposição de terceiros, mas não à própria disposição. O senso comum conclui que essa proibição se dá por algum tipo de preconceito, provavelmente religioso, acerca da sexualidade feminina. Mas não é um simples preconceito. É uma espécie de treinamento para a exploração do sistema reprodutor feminino.

Bombardear garotas que ainda não têm maturidade cognitiva, ou seja, que não podem refletir sobre as mensagens que lhes chegam de forma crítica de modo que possam se defender desses bombardeamentos, é uma maneira de condicioná-las a internalizar as mensagens que estão sendo bombardeadas: o corpo não é seu, você não tem direito a ele, não tem o direito de tocá-lo ou defendê-lo, o corpo é de terceiros. Ao chegar na adolescência, as garotas já estão doutrinadas para compreender que aquela parte de seus corpos não são propriedade delas ao passo que os garotos já aprenderam que aquela mesma parte dos corpos femininos que as garotas são ensinadas a perceber como proibidas são um terreno a ser por eles explorado. Então o consentimento compulsivo – dificuldade de dizer não a uma atividade sexual que não deseja – aparece na vida das garotas. Como as garotas que não se sentem donas de suas vaginas se sentiriam no direito de dizer não para aqueles garotos que foram ensinados que deveriam  tomar corpos femininos a força? É uma guerra fria, não deixa de ser. Qual a arma dessa guerra, senão o pênis capaz de engravidar e territorializar as mulheres ao campo doméstico?

Enquanto isso, os garotos aprendem que acumular o maior número possível de terrenos conquistados – ou seja, vaginas – faz parte do que é ser um garoto em processo de se tornar homem. A conquista das vaginas faz parte da socialização para a masculinidade. Por meio do acesso cada vez mais facilitado à pornografia, meninos aprendem cada vez mais cedo que basta penetrar mulheres para que elas gritem de dor enquanto são fodidas com agressividade e que o uso da camisinha para prevenir gravidez/DST e o orgasmo feminino não importam nada, o que importa é tão somente o gozo deles. Como as meninas foram privadas da compreensão acerca do próprio corpo, elas condicionam a o exercício da sexualidade ao comando masculino que foi, por sua vez, aprendido com a pornografia: o prazer da penetração que ignora totalmente o estímulo clitoriano. O clitóris não é ignorado por acaso, da mesma maneira que as garotas não são impedidas de tocá-lo por acaso, da mesma maneira que em algumas culturas ele é mutilado e não por acaso. Tudo isso faz parte de um sistema que foi estrategicamente pensado por homens para condicionar mulheres ao sexo reprodutivo: pênis na vagina. Damos a esse sistema o nome cultura do estupro. Se as mulheres não fossem socializadas para a alienação da própria sexualidade, saberiam que seus corpos lhes pertencem, que suas vontades sexuais importam. Assim, saberiam exatamente como se comportar durante o ato sexual para obter o máximo de prazer daquela relação. E, com certeza, o padrão penetrativo estaria mais dificultado. Mas não existe ponto sem nó na cultura do estupro. Toda a sexualidade dos homens e das mulheres são moldadas para que a cultura do estupro funcione. Por isso que, antes de falarmos sobre gênero, precisamos falar sobre sexo. A opressão das mulheres é sexual. 

Consentimento compulsório: sintoma das sobreviventes da cultura do estupro

Quantas vezes garotas e mulheres foram e são levadas a consentir uma prática sexual estando desconfortáveis com ela?  Eu mesma fui coagida muitas vezes a transar sem camisinha, por exemplo, e por mais que eu quisesse o sexo penetrativo, o fato de eu não querer transar sem camisinha configura o sexo que pratiquei como estupro. Se eu não estava confortável, não tem outra palavra senão estupro. A questão sobre o estupro é essa. Estupro não é somente sobre força, violência e machucado, mas principalmente sobre a coercitividade masculina que ignora todo e qualquer desconforto feminino até facialmente reconhecível porque o importante, para eles, é que eles conquistem aquele terreno que chamamos de vagina com o objetivo de gozar, sem se importar com as consequências do sêmen masculino entrando em contato com o sistema reprodutivo feminino: DSTs ou gravidez. Sem contar os traumas de querer dizer não e ter de dizer sim que não são elaborados pelo nosso sistema cognitivo consciente causando ansiedade, depressão e outros transtornos mentais.

Os meninos e homens não se importam porque sabem que para eles não há consequência, só para as mulheres. Eles sabem que uma gravidez vai mudar por completo a vida das meninas e mulheres pois são as mulheres as responsáveis pela educação e cuidado das filhas e filhos. E isso os beneficia, pois uma mulher presa aos filhos tem mais dificuldade de lutar por equidade social do que uma mulher livre de filhos. Isso também faz parte da estratégia masculina para manter as mulheres cativas. Aliás, essa é a grande estratégia. A territorialização das mulheres ao ambiente doméstico que se torna mais difícil de se desvencilhar após uma gravidez e maternidade. O sentimento de não poder dizer não é baseado em uma materialidade prévia que construiu esse sentimento. Lembram? A materialidade prévia é o não poder tocar o clitóris e ser sexualmente abusada na infância. A feminilidade é talhada, portanto, nesse sequestro que os homens impõe às mulheres: de seus corpos e suas vozes. Esse sequestro é possível pois o poder de guerra dos homens é tanto individual quanto coletivo. Individual porque é exercido no campo privado, de um corpo sobre outro, dentro das casas, dentro das relações humanas. Coletivo porque exercido no público, das instituições patriarcais sobre corpos femininos por meio de leis e de agentes do Estado. Esta é a realidade do poder de guerra dos homens. Ela é talhada na masculinidade, não na masculinidade estética, mas na política. A masculinidade pornograficamente estupradora das pessoas nascidas com pênis.

Mas será que todo sexo penetrativo é estupro?

A mim, não cabe afirmar todas as mulheres estão sendo estupradas a cada vez que fazem sexo penetrativo. A mim, cabe questionar cada mulher se ela compreende que ser coagida a transar sem camisinha também é estupro. Se ela compreende que se está sentindo dor e não consegue pedir para parar é estupro. Porque a cara de uma pessoa com dor é óbvia, gente. Me rasga o peito saber que existem mulheres sendo estupradas hoje, agora, nesse minuto, sem a menor ideia de que elas poderiam ter negado aquilo. Afinal quem tá estuprando é o marido e na cabeça delas as mulheres são dos homens, a vida é assim, é pra aceitar. É pensando na cabeça das mulheres que acham que são obrigadas a aceitar que precisamos refletir sobre a estrutura e sobre o sistema da cultura do estupro, sobre o comportamento sexual dos homens, sobre o poder dos homens ser um poder de guerra e sobre esse poder de guerra não estar separado do poder sexual que eles exercem sobre nós por meio dos estupros. É pensando na cabeça das meninas e mulheres que não conseguem impor seu autocuidado e pedir para que os caras coloquem camisinha que continuo seguindo com os questionamentos e falando sobre penetração sendo uma lésbica que queria nunca mais ter que falar em penetração peniana, pois é um assunto que me deixa mal, me traz lembranças horríveis. Ser coagida a transar sem camisinha não é muito diferente de “ter que dar porque meu marido quer”. Então eu questiono: você sabe que pode dizer não? Você diz não quando quer dizer não? E se você chegou à conclusão de que você sabe, sim, impor dentro do seu relacionamento hétero o seu não (embora ter de impor já seja um mal sinal), não seria egoísmo com mulheres que são estupradas sem conseguirem nomear estupro como estupro você se colocar contra a problematização do padrão penetrativo peniano como se isso fosse sobre o seu gosto pessoal e não sobre o comportamento predatório dos homens, ou seja, sobre uma estrutura que está sob o comando e domínio masculino? Os homens são os sujeitos da guerra. Há as colaboracionistas, mas eles são os sujeitos. Os autores da História da Cultura do Estupro, portanto, das guerras.

A questão – problematizar penetração peniana – é proposta por mim com base em teorias lésbicas e deveria ser de qualquer feminismo, todo feminismo deveria falar incansável e profundamente sobre cultura do estupro. Mas a resposta é de quem quiser responder para si mesma. Eu não vou responder por mulheres individualmente, ou contestá-las, confio na capacidade que cada uma tem de responder por si. Só gostaria de repetir, mais uma vez, que a discussão sobre o padrão de penetração peniana estar associado ao estupro não é sobre mulheres e suas escolhas dentro de uma sociedade patriarcal. Eu faço questão de repetir isso até a exaustão para que não restem dúvidas. É sobre poder masculino, poder de guerra. Já é sabido, mais que comprovado, que estupro é crime de guerra. É sobre o crime de guerra original, a dominação do território do corpo feminino pelo estuprador que nos coloniza desde dentro de nossos corpos, desde a infância, desde o início da história, desde a raiz da humanidade que é o útero das mulheres. É sobre o fato de que cada ato sexual masculino está permeado por uma noção de propriedade do corpo dO Outro – eu diria dA OutrA -, coagindo este corpo à penetração peniana da mesma maneira que coage à maternidade, pois uma coisa é consequência da outra. O padrão sexual masculino que ignora o clitóris se beneficia do sentimento feminino de que o sexo das mulheres não pertence a elas, e, como consequência, se beneficia do desconforto em dizer não para práticas sexuais que causam desconforto. Sem esse padrão, a cultura do estupro não conseguiria se sustentar. Essa é a relação entre a penetração peniana e a cultura do estupro. Uma coisa não vive sem a outra. Ambas são parte integrante da cultura masculina da guerra.

Pesquise mais sobre a relação entre guerra e cultura do estupro

umamaelesbica1

Clique nesta imagem da minha página Uma mãe lésbica para ter acesso ao vídeo sobre relação entre guerra e cultura do estupro. Aproveite e me curte lá no facebook!

 

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2 Respostas para “Padrão penetrativo peniano: vamos conversar sobre isso?”

  1. Keli-Alexandre

    Ficou muito bom e você se diz de não ter o direito a nomear todo sexo hétero como estupro.
    Mas se houvesse um sistema onde todas as mulheres fossem coagidas a beijar todos os homens, pois desde criança as tivessem dito que elas nasceram para aquilo, ainda que algumas gostassem do beijo, o beijo seria roubado, forçado, coagido.
    Temos que focar no fato social de que existe a coerção, a compulsoriedade. Se calhou de algumas indivíduas após terem acesso a todo tipo de problematização profunda sobre este fato ainda alegarem que gostaram do beijo, mesmo coagido, isto não anula a coerção, o abuso de uma classe sobre a outra.
    Enquanto houver propaganda desleal de penetração peniana, enquanto houver relatos majoritários de mulheres que não alcançam o orgasmo em sexo com homens, enquanto houver mulheres sem coragem de admitirem que não sentem prazer na hora do sexo mas ainda assim fingem, então continuaremos, materialmente, vivendo sob uma cultura de estupro que se manifesta já ali no ato sexual e não no imaginário de feministas radicais.

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