Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Escolhe o teu lado e vem. #NãoMereçoSerEstuprada

NãoMereçoSerEstupradaRMXFoto

Se é para eu viver me defendendo dos ataques dos homens, que pelo menos minha defesa seja validada como legítima. Pois eu estou muito cansada mesmo. Ter de me defender judicialmente de um homem que me estuprou foi a gota d’água de um copo que já havia transbordado há muito tempo. Por que tenho que provar minha inocência se quem cometeu um crime contra mim foi este homem que agora quer que eu lhe pague dez mil reais por eu ter me defendido de uma ameaça pública velada, não nomeada, mas direcionada a mim como resposta à campanha #NãoMereçoSerEstuprada? Nunca me esquecerei das mães que me deram as costas neste momento, isto eu devo deixar dito, bem explícito. Eu estou falando aqui de um papel que vem sendo muito bem desempenhado pelas mulheres: o das mães que abandonam suas filhas. Nenhum juízo de valor aqui, preciso também dizer alto e em bom tom. Não, eu não serei aquela que vai julgar o abandono, eu não quero julgar a minha própria mãe também. Porque sim, a minha mãe me abandonou emocionalmente, mas isso não faz dela uma má pessoa pois ela também já foi abandonada um dia, minhas avós, minhas bisas, minhas trisas, minhas tetravós. Não é perdão o que eu tenho pra dar pra minha mãe, é biofilia, matrilinearidade, conexão, rede, tessitura da língua, materialização no filete de sangue escorrendo pela carne revoltada. Não, não somos más, não somos más porque a moral não foi escrita por nós, ela foi criada pelas mãos dos homens. Ah, a genealogia das mulheres, a socialização para a feminilidade, esta história ocultada da literatura. Até quando o silenciamento em tão diversas esferas da vida? Por que esta estrutura opressora, esta estrutura óssea, pétrea, esta estrutura perfurocortante? EU NÃO MERECI SER ESTUPRADA, BUCETA!

Continue lendo ou clique no vídeo para ver e ouvir este mesmo discurso no meu canal do youtube

O que eu tenho que provar aqui e pra quem? A omissão é a repetição de uma violência e quem está sendo omissa comigo durante todo esse processo saiba: eu não vou repetir a omissão comigo mesma. Eu não serei omissa com a minha própria voz, com meu próprio corpo, e isto não é um ideal de vida e sim um compromisso com as regras do jogo: as minhas regras poéticas. Obrigada, vó Dora, por ter sido a minha bruxa. Se é pra jogar então vamo que vamo né, vó. Calada eu não ficarei de qualquer forma. A menos que me matem. Mas aí seria a prova morta do crime, feminicídio descarado bem na praça pública, tipo fogueira da Inquisição às luzes do século vinte e um, como a sociedade evoluiu, né gente? Nadinha de nada mesmo. Alguém aqui se importa com a prova morta do crime? As provas que morrem aos montes diante dos olhos de ninguém-viu? Eu não serei aquela que colaborará para a própria invisibilidade. Se eu quero aparecer? Sim, eu quero sim. Eu quero dizer bem alto que EU NÃO MERECI SER ESTUPRADA.

Escolhe o teu lado e vem. Luto porque já superei o medo da morte com arte.

Se eu morrer amanhã, tanto faz. O importante é que eu quero estar viva.

Essa história eu já contei, quem viu, viu, quem não viu, a timeline do meu blog é um livro aberto. Mas as ratazanas da literatura psicanalista não poderão dizer que eu queria morrer se por acaso for assassinada porque se tem uma coisa que eu não quero é morrer, eu gosto de viver, eu gosto da minha potência de vida, eu gosto do que eu posso deixar como história aqui e eu não quero deixar minha vida ser tomada das minhas mãos dessa forma. Minha mente nunca foi frágil. Chamar mulher de mente frágil. Esse humano puro corpo impuro. Aliás, o que é mente? O que é mente? Quem mente aqui? Quem é que anda escrevendo a história ao longo dos séculos?

Isto aqui é apenas um diário qualquer que se cansou do cheiro fechado da gaveta, um diário que superou o medo de ser lido.

Voando livremente por uma rede invisível. Do jeitinho que os pássaros merecem viver.

Letras batendo asas, recriando a sonoridade do ambiente.

Se tiver algo pra dizer, fale agora ou cale-se para sempre.

Dizer?

Cale-se para sempre.

Para sempre.

Sempre.

Sem-pre.

Todo o sempre calada, princesinha de um conto de fadas: eu me recuso a permanecer silenciada.

EU RECUSO A INVISIBILIDADE, nunca é tarde para recusar a invisibilidade.

Eu, Natacha Orestes, poeta, ex-publicitária, mãe, lésbica, me recuso a ficar em silêncio. Quem quiser me calar, be my guest.

Cada uma escreve a própria história. Várias redes neurais conectadas pelos ares. Ou não. Palavras voando, signos sendo signos só signos apenas signos viajando pelas ondas aéreas, pelas ondas auditivas, pelas ondas.

Pelas ondas.

Pela potência da criatividade calada desde o início da história.

Essas palavras ressoam em que parte de sua memória, mulher?

Você vai se levantar por você mesma pra continuação da campanha #NãoMereçoSerEstuprada ou vai ficar me vendo queimar na praça pública sem se mexer para me ajudar a sair daqui? Neste momento eu sou você, lembre-se disso. Você poderia estar aqui no meu lugar, nada impede que seja você a tomar este lugar amanhã.

Essa convergência violenta que amarra as linhas narrativas do único gênero humano que está preso nas mãos do estado pelo seu órgão reprodutivo.

Mu-lher.

Nada mais do que isso. Tudo além disso.

 

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3 Respostas para “Escolhe o teu lado e vem. #NãoMereçoSerEstuprada”

  1. Ana de Adriana

    Se o cara escreveu

    “Eu não mereço ser estuprada? Ah, foi mal, achei que merecesse.”

    Isso meio que invalida um processo de difamação. Se mesmo assim você perdeu o processo, então precisa der um advogado melhor.

    Sei que não é fácil, mas busque um profissional melhor e entre com recurso.

    Boa sorte!

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  2. ndamiao

    Reblogged this on A Nossa Própria Substância and commented:
    Patriarcado é isso: homens nos violentam e quando denunciamos, somos culpabilizadas, hostilizadas, duvidam de nós e nos violentam novamente. Natacha, e nenhuma outra mulher, merece ser estuprada, nem culpabilizada e nem repreendida ou processada por apontar e denunciar abuso.
    À Natacha, e a todas nós: força. Continuaremos resistindo.

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