Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Menos amor e mais política, por favor

Uma crítica à noção patriarcal de que o amor materno pode salvar o mundo

Faz muito tempo que estou me cobrando um post novo sobre os progressos de desenvolvimento do Théo. Só que algo se transformou dentro de mim de uns tempos para cá. O exercício de minha maternidade principalmente. Já tem meses que venho me sentindo uma mamífera que quer que a cria fique um tanto quanto mais longe. A cada dia que passa, me sinto mais invadida dentro de meu espaço seguro, aquela circunferência em volta da gente que é só nossa, aquele espaço seguro pelo qual prezamos dentro de um metrô, aquela distância agradável entre nós e os outros. Minha individualidade eu já sei que não terei de volta tão cedo e já estou ok com isso, conformada, tocando em frente. Mas essa circunferência vazia em volta de mim é algo de que entendi que não posso abrir mão. Óbvio que eu não aceitei essa necessidade logo que ela deu as caras. A culpa materna não deixa: será que eu estou quebrando o nosso vínculo, será que ele ainda vai gostar de mim se eu exigir dele um distanciamento, será que ele pode me dar esse distanciamento, será que estou cobrando demais de um bebê de dois anos? Tantas perguntas que as outras espécies de mamíferas não fazem, né? Mas eu sou uma mamífera humana que vive em uma sociedade patriarcal, lógico que eu não estaria livre de todas as caraminholas sobre o papel da boa mãe que temos de exercer. Eu fui muito enganada pela lenga-lenga da Criação com Apego. Que é lenga-lenga mesmo, sejamos francas. Toda essa papagaiada de Laura Gutman e Gonzalez só incentivaram em mim algo que eu precisava descontruir, não alimentar. Basicamente esse tipo de literatura pega pelo psicológico das mulheres que estão no início do processo de se tornarem mães, sozinhas, sem terem onde se apoiar, querendo ser as melhores mães que existem no mundo, as mais bem informadas, as mais atualizadas, as mais amorosas, tudo isso camuflado naquela expressão “eu não quero ser a melhor que existe, quero ser a melhore que posso ser”. Sei, eu também menti pra mim dessa forma, normal. No fim das contas, se eu pudesse voltar atrás, de tudo o que aprendi no processo de me tornar mãe, filtraria tudo o que me colocasse como especial para o desenvolvimento do meu filho e ficaria apenas com algumas recomendações básicas, como por exemplo a busca pelo parto normal e a amamentação exclusiva e prolongada.

A amamentação, aliás, é um capítulo à parte nessa jornada. Quem se tornou mãe sendo bombardeada por mães orgulhosas de amamentarem por quatro anos, cinco ou até mais, como se aquilo fosse um ideal a ser alcançado, como se aquela criança recebesse mais amor do que todas as outras, obviamente foi impactada por estas informações de forma a colocá-las como um objetivo. Olha, não sejamos maniqueístas: eu não estou falando que as mães que amamentam seus filhos até cinco anos ou mais são mais mães e que as que amamentam até dois são menos mães, não é uma questão de competição entre mães pura e simplesmente, é uma questão mais profunda do que isso. A realidade é que o questionamento sobre estarmos ou não sendo suficientemente boas mães vêm de todos os lados. Ela está no dia a dia, presente quando saímos para darmos uma voltinha na praça para espairecermos e alguém vem dando conselhos, como se a nossa inteligência nunca fosse suficiente e precisasse ser sempre corrigida. Ela está nas revistas, na publicidade, nos discursos dos familiares, nos discursos jurídicos inclusive e isso importa demais. É uma pressão com a qual temos de lidar ininterruptamente. Estou fazendo o suficiente? Estou dando o melhor de mim? Parece que quando nos tornamos mães, ou somos perfeitas, ou nada somos. Então nos deparamos com mulheres que bradam orgulho daquele tantão de tempo de amamentação e a estrutura social que já nos fragilizou o suficiente age por nós automaticamente, nos forçando a achar que se não conseguirmos metade daquilo seremos fracassadas como mães. Não estou falando por todas, é verdade. Estou sendo específica, falando de mim e daquelas que compartilham dessas mesmas angústias comigo. Gostaria de repetir, só pra deixar bem elucidado, que eu não tenho absolutamente nada contra mulheres se orgulharem de suas histórias de amamentação prolongadíssima, todas têm o direito de se expressar, até mesmo porque nenhuma de nós sabe quantos perrengues essas mulheres passaram para continuarem amamentando por tanto tempo e se elas sentem orgulho disso é direito delas, ponto final. Só que existe o outro lado. Existe o lado das que estão num limbo, sem referência, atirando para todos os lados para construírem suas particularidades como mães.

Eu fui uma delas. Eu via as mulheres que amamentavam até cinco, seis anos, e pensava que eu queria estar ali, que eu queria aquilo para mim. Quanto mais amamentado ele for, mais amor ele vai receber, porque amamentação não é só nutrição, é também segurança, afeto, carinho. Quero que o desmame seja natural, eu repetia pra mim mesma como um mantra, escrevi posts sobre isso inclusive. E se ele receber o meu amor, se meu amor for suficiente, meu filho não será um garoto violento. Será um amor de menino. O mundo precisa disso, de homens que sejam uns amores de pessoa. Olha que perigo. Por causa dessa história de Criação com Apego e amamentação prolongadíssima, eu achava que poderia salvar o mundo de um homem violento, que com uma mamãe amorosa, conectada e feminista, ele não se tornaria um explorador de mulheres. Só que eu não tenho esse poder. Tenho a potência de guiá-lo, o que faço de todo o meu coração, com a maior fé que pode dar certo. Mas o poder de impedi-lo de se transformar em um moleque que vai viver às custas de serviços domésticos protagonizados por mulheres enquanto o bonito cuida da carreira, o poder de impedi-lo de se achar no direito de forçar sexo com mulheres, o poder de controlar que tipo de referências ele vai seguir, isso eu não tenho. Nenhuma mãe tem. Mas é nisso o que Laura Gutman e Gonzales acreditam e compartilham como verdade. No fim das contas, a mensagem é a seguinte: o amor materno salva o mundo. Não salva. Não é por falta de amor materno que homens estupram, não é por falta de amor materno que eles batem em mulheres e as assassinam, não é por falta de amor materno que eles se tornam pedófilos. E eu vejo que, infelizmente, é nisso o que as mulheres envolvidas com essa história de Criação com Apego acreditam. E acreditam mesmo, de crença, é um tipo de religião que, se você critica, se torna uma herege e é excomungada do movimento.

Só que não se pode ser omissa quando o assunto é culpa materna. Não se pode. Ou levamos a maternidade como um assunto sério e político, ou estejamos preparadas para duras críticas de quem leva. Sinceramente, eu mesma levei essas duras críticas, não aceitei no início, relutei muito para desapegar da ideia da onipotência do amor materno porque, como perdi muito com a chegada da maternidade e tudo o que me restou foi a ilusão de que a única coisa que eu poderia oferecer ao mundo – meu amor de mãe – era aquilo que o mundo mais precisava que existisse para que fosse salvo. Foi a partir desse questionamento que eu cheguei à conclusão de que o discurso mais prejudicial, em qualquer esfera da vida, é o discurso da salvação. O discurso da salvação é o discurso da colonização, e acreditar que eu poderia, com o meu amor materno, salvar o mundo, beira o ridículo e faz com que eu sinta vergonha de mim mesma. Eu sou um grão de areia no universo, meu filho é outro, e ele não vai ter contato só comigo. Há uma estrutura lá fora esperando por ele para moldá-lo, e dentro dessa estrutura, ele vai aprender que tem carta verde para dominar outras pessoas como homem branco que será. Exemplos na família, de ambos os lados, na materna e na paterna, não vão faltar. Infelizmente. Ele vai ter amiguinhos que vão lhe mostrar pornografia e a pornografia vai ditar como é que se trata as mulheres:  como objetos. Sim, estarei mediando tudo isso, mas até que ponto? Até que ponto ele me seguirá como referência? Meu amor materno não será suficiente. Eu relutei pra aceitar este fato. Relutei muito, ridiculamente, mas eu entendi, eu compreendi e depois dessa compreensão eu dei início a um processo de transformação que reverberou por todos os meus poros e atravessou a minha escrita, me deixando sem vontade de escrever sobre maternidade. Foi ótimo, pois passei a me preocupar mais comigo, ao menos internamente já que a vida prática não facilita que essa preocupação seja aplicada de forma adequada, mas internamente já é mais do que nada. Foi ótimo porque entendi com todas as minhas células, para além dos meus neurônios, que o amor materno é uma balela colonizatória. A gente precisa falar menos de amor e mais de política, por favor.

Este texto foi inspirado no post Os usos e abusos da Criação com Apego – PARTE I, da Preta Materna, que, aliás, é mais impessoal e informativo do que o meu. Clica lá.

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2 Respostas para “Menos amor e mais política, por favor”

  1. C. S. Costa

    Quem dera a criação materna fosse uma bolha protetora. É claro que a relação com a mãe influencia uma pessoa, assim como a relação com o pai e com o restante da família, assim como a relação com os colegas da escola, com a mídia, com a internet, com o mundo. Não faz sentido esperar um homem não-violento apenas baseando-se no amor materno. A sociedade é patriarcal, a cultura é misógina. Ótimo texto.

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