Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Mulher, maternidade, natureza e determinismo biológico

As redes virtuais construídas por mulheres de classe média que tornaram mães são tóxicas para as mães lésbicas. Porque embora muito se fale sobre um retorno à natureza e ao protagonismo feminino via parto e amamentação, ou, em outras palavras, embora se afirme que o parto foi roubado pelo poder dos homens e que agora as mulheres têm a oportunidade de ter suas potências sexuais restituídas fora do controle masculino, muito pouco se vê, dentro deste contexto, o incentivo total à autonomia do pensamento das mulheres em relação às produções científicas que foram elaboradas com o objetivo de manter as mulheres cativas a um destino pré-fabricado: o destino da maternidade.

Em primeiro lugar eu gostaria de deixar dito que não existe retorno da mulher à natureza porque nunca fomos apartadas dela, ainda que sob as rédeas curtas de uma cultura patriarcal. Não fomos afastadas da natureza em si, pois isso seria humanamente impossível de se fazer. Não há nada que um ser humano, de qualquer sexo que seja, possa fazer separado de sua natureza. Fomos afastadas, antes, do acesso à organização linguística a respeito dos nossos processos fisiológicos, não da natureza propriamente dita. Por exemplo: fomos afastadas do conhecimento dos nossos ciclos, da linguagem dos ciclos. Fomos afastadas do contato íntimo e comum com a menstruação e de seu significado: a não-gravidez. Não é bastante curioso o fato de não podermos, culturalmente, celebrar a menstruação? Não é curioso sermos obrigadas a escondê-la? Não é curioso que devemos esconder justamente um processo fisiológico que significa que o óvulo não foi fecundado? Pois para mim é extremamente curioso. Algumas de nós deixam de menstruar por tanto ódio dos desconfortos da menstruação (que convenhamos nada têm com a menstruação em si mas com toda a sua simbologia socialmente reprimida), tomando anticoncepcionais de forma ininterrupta. Mas mesmo a interrupção da menstruação não pode ser chamada de afastamento da natureza. Assim como a cesárea, os bicos artificiais e as fórmulas também não são um afastamento da natureza, eles são meros produtos de uma cultura de separação não das mulhere e sua natureza intrínseca (que não existe), mas sim das mulheres e suas potências linguísticas, suas capacidades de nomear e definir racionalmente sobre os próprios processos fisiológicos sem a intervenção masculina. Este é o pulo do gato, sinceramente. 

E aí fica explicado por que motivo eu comecei escrevendo sobre a toxidade dos espaços maternos de classe-média para as mães lésbicas, nós, que buscamos autonomia total em relação ao poder dos homens sobre nossas vidas. Nós, lésbicas, não nos desvencilhamos somente do poder dos homens sobre os nossos direitos reprodutivos, nós, lésbicas, levamos a sério de cabo a rabo a ideia de que nossas vaginas e seios não foram criadas pela natureza pra dar pra aos homens, nós vamos além: elas também não foram criadas para parir e nutrir. Elas têm um fim em si mesmas, nossas vaginas e seios não podem ser definidas em relação aos homens e aos bebês, elas precisam ser definidas por nós e para nós, antes de mais nada.

É preciso valorizar a potência de definição linguística das mulheres sobre os próprios corpos para além, muito além do poder institucional, da ciência. As mulheres é que precisam se definir a partir de suas próprias vozes, não falo em teorias e sim em vozes. As mulheres que estão nas academias produzindo teoriad precisam ouvir mães lésbicas se querem de fato mudar a realidade acadêmica, ou seja, se querem implodir as fortalezas da supremacia masculina construídas em torno das universidades. E eu tenho plena e absoluta convicção de que isso não será possível de ser feito enquanto as mães lésbicas não forem ouvidas, a consciência lésbica é de suma importância para o debate sobre a hierarquia do gênero.

Até quando vão ignorar nossa existência e nossa produção de pensamento, uma produção de pensamento que está fora do alcance dos homens porque não os deixamos participar dos debates, porque não lhes diz respeito? Ou melhor: por que somos atacadas quando afirmamos que nossos espaços políticos são exclusivamente para aquelas cujo sistema reprodutor e suas simbologias foram sequestradas pelo poder dos homens? As mães lésbicas deveriam ser referência para estudos de caso e não demonizadas e excluídas dos espaços virtuais devido nosso modelo de vida divergente.

Fica aí uma sincera e honesta reflexão.

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