Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

As escritoras lésbicas estão passando

 

No dia 17 de junho de 2015, escrevi sobre algo que me doía: o silenciamento de vítimas de abuso sexual infantil dentro do feminismo. Hoje, ao observar outras escritoras se levantando para abordar essa temática do abuso sexual infantil em suas obras, meu coração fica quentinho. Não é, assim, muito interessante observar o nascer de uma nova onda, brasileiríssima onda? Sim, é, eu acho sim, sinto meu coração quentinho quando observo que por trás de tantas diferenças que temos entre nós, mulheres, algo nos conecta para além de nossas biologias, uma cultura. Mas ele vira uma pedra de gelo quando lembro que essa cultura se chama cultura de extermínio. Assassinato. Guerra. Genocídio. Ginocídio. Tão pouco restou para nós dentro dessa cultura. Parece que a ditadura militar nunca acabou para as mulheres, não é mesmo? Quando o feminismo não serve para fazer algo sobre meninas que já foram vítimas de violência sexual, eu não consigo compreender, eu não consigo visualizar quando é que ele poderia ser bom pra qualquer outra coisa.  Porque a cultura do extermínio é essa mesma cultura do estupro que é a mesma cultura do abuso sexual infantil, uma coisa está intimamente ligada à outra.

Não existe separação entre o homem que bate na mulher que disse sim a ele perante à Igreja e um padre que abusa de uma criança: ambos agem pelo direito que sentem em relação aos corpos das crianças de das mulheres dentro da sociedade.

Porque sim, homens se sentem os proprietários de tudo, e eu não quero saber se o teu macho – seja teu marido ou teu pai, não quero saber – é diferentão, se arrepende, pede desculpas e trilili, eu simplesmente não tenho absolutamente com os machos que acham que você é deles por você ser da família deles. Eu quero falar de toda uma cultura, não do quanto o seu macho é superior ou diferente dos outros. Eu quero falar dessa cultura que é a cultura do extermínio e que nós chamamos de patriarcado, pois é a cultura onde os homens retiram as potências das mulheres por meio dos nossos sistemas reprodutivos, ou seja, por meio da maternidade forçada, maternidade compulsória. É a cultura do pai sendo imposta sobre as mulheres e transformando-as em mães. Eu, como mãe lésbica, tenho o direito de analisar essa cultura sob uma perspectiva diferente das héteras, sem ataques de héteras ou bissexuais, porque a cultura do patriarcado é o que impede a existência lésbica, a existência da mulher fora do mundo dos homens, fora do contato dos homens, fora do acesso aos homens, e eu não vou permitir que a cultura dos homens analise o que eu tenho pra dizer. É muito simples, tão simples que cabe numa frase:

O falocentrismo não cabe neste blog.

Este é o meu matriarcado particular. Tendeu bem? É a ditadura da mãe mesmo, uma mãe que é professora de literatura e boa, muito boa em análise do discurso revoltadíssima contra as análises de Freud sobre a maternidade e sobre a infância: onde já se viu dizer que bebê, por não ser sujeito, faz a mãe de objeto? Bebê não é sujeito então ele não tem capacidade de fazer ninguém de objeto não, essa transferência da responsabilidade pelas atitudes do pai que recaem sobre um recém-nascido é absurda, não tolero, não fecho com, não me calo e sigo em frente. Quem transforma a mulher em objeto é o pai e não o bebê. O seio se tornou um objeto, um fetiche, por meio de um tipo de atitude masculina, de um tipo de atitude de um homem, e não pelo tipo de atitude do bebê, pois o bebê não age senão a partir da necessidade de sobrevivência! É um absurdo enorme de grande a existência de tantas correntes de pensamento com a mesma origem que são as teorias falocêntricas sobre maternidade e desenvolvimento infantil. Eu mal consigo acreditar em tanta gente sendo enganada e fervorosamente bradando contra qualquer pensamento contrário às suas ideias tão cristalizadas sobre desenvolvimento infantil, eu não consigo entender como estudos continuam sendo produzidos a partir de uma raiz tão podre como o falocentrismo é.

Porque o falocentrismo é a lei do estuprador, minha gente.

O falocentrismo é o poder sendo consagrado ao falo em detrimento das potências das mulheres de gerar, de nutrir e de decidir se querem gerar e nutrir ou não! Para mim esta percepção é nítida, exata, um mais um igual a dois, transparente. E eu sinto muito que algumas héteras ou bissexuais discordem de mim, mas o falocentrismo é sim estratégia de guerra contra as mulheres e nós, mulheres, temos o direito de decidir pela estratégia de não criar conhecimento em colaboração com tais teorias. É um direito lésbico que deve ser respeitado, não está na Constituição, mas precisa estar para ser respeitado? Nós temos pressa. Nós queremos passar com nossa consciência. Nós queremos o direito à existência material e subjetiva, queremos a existência de nossos corpos e produções artísticas fora do alcance das análises masculinas.

É tanta pressa que nada está nos impedindo de escrever a partir das nossas próprias perspectivas, nem os piores ataques e isolamentos políticos estão nos calando, as táticas patriarcais não estão funcionando para todas, vejam só. Algumas de nós, lésbicas, temos um compromisso firmado com a história material dos corpos femininos ao longo de tantos séculos, e não podemos nos deixar abater afinal é da nossa própria sobrevivência como mulheres escritoras que estamos falando aqui.

Estou escrevendo no plural porque não me sinto mais sozinha.

Há autoras que, como eu, inserem a história calada das mulheres em sua literatura.

A história que precisa ser dita e espalhada.

E estou escrevendo para limpar os caminhos, tirando de antemão as análises falocêntricas do caminho das literaturas lésbicas.

Por amor dela – literatura lésbica afrocentrada

Como a Monique Rosa Brasil, que está escrevendo uma novela lésbica que gira em torno de mulheres se unindo para combater a violência contra as mulheres. Por amor dela é a história de uma mulher que matou um cara em uma estratégia de defesa de mulheres, de meninas, de crianças que sofrem abuso sexual infantil. Nesse processo, que se desenrola em paralelo a narrativa de um romance lésbico afrocentrado, ela acaba descobrindo o envolvimento de seu pai com um grupo de criminosos que exploram mulheres e é aí que a história para diante dos nossos olhos sedentos por mais para pedir às leitoras que ajudem a novela a chegar ao seu fim.

PorAmorDela
Monique abriu um crowdfunding para financiar coletivamente o término de tão importante obra artística. Ela teve alguns imprevistos com o notebook e agora está sem seu instrumento de trabalho. Você pode ajudar a Monique a terminar sua história, uma história tão necessária de ser escrita e lida. Quer participar desse movimento cultural de mulheres protagonizando as próprias histórias e sendo apoiadas por mulheres?

Por amor dela

Clique aqui para financiar a obra literária da Monique.

Gostou da história da Monique e quer conhecer os primeiros capítulos de sua novela? Abaixo você pode acessar todos os capítulos:

POR AMOR DELA 1 – NÃO ESTOU DESAPONTADA EM TE DESAPONTAR

POR AMOR DELA 2 – PREFIRO LEVAR UM TIRO A FALAR SEU NOME

POR AMOR DELA 3 – A METADE DA MISSA

POR AMOR DELA 4 – NÃO SE SENTE FALTA DO QUE NÃO SE TEVE

POR AMOR DELA 5 – PROBLEMAS NO PARAÍSO?

Por amor dela 6 – O segundo sexo

POR AMOR DELA 7 – ENDUREÇA SEU CORAÇÃO E FAÇA DIREITO

Por amor dela 8 – Não sei fazer isso sem você

POR AMOR DELA 9 – FÉ CEGA, FACA AMOLADA

Veja o vídeo da Monique falando sobre sua novela. Clique aqui.

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