Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Monólogo em minha defesa contra o ex que me estuprou

Eu não estava pedindo. Eu nunca pedi pra ser estuprada. Este discurso e o discurso da extrema direita que ameaça de estupro uma mulher em plena plenária são uma coisa só e essa uma coisa só eu já estou farta de suportar. Eu não mereci ser estuprada, e esta é uma resposta pública à ameaça pública que sofri após ter participado da campanha #NãoMereçoSerEstuprada. Uma ameaça pública que recebi do meu primeiro namoradinho de adolescência, o macho escroto que me estuprou depois do término do relacionamento como, sei lá, punição por eu ter me negado a ser sua bonequinha inflável pro resto da vida.

Qual foi a ameaça?

Bem, primeiro ele disse “não merece? achei que merecesse”, e terminou seu discurso publicamente pró-estupro dizendo que “vai lutando assim pra você ver o que vai acontecer porque o mundo é injusto”. Sim, o cara que me estuprou respondeu a minha participação nessa campanha. Publicamente. Depois de ele ter visto a minha participação nesta campanha de suma importância para as mulheres, ele me ameaçou: o mundo é injusto. Uma ameaça velada para me manter calada.

Guarde esta informação e vamos prosseguindo.

#NaoMerecoSerEstupradaNatacha

Não contente em me ameaçar, mandou uma mensagem para o meu pai para cobrar dele uma atitude em relação a mim. Veja bem, ele acha que meu pai é meu proprietário, não é patético? Meu pai me mostrou a mensagem (o que me desencadeou uma crise nervosa, a pior crise que eu já tive na minha vida, nunca passei por nada parecido). Peguei o celular da mão do meu pai e respondi que ele tinha o direito de me processar e que se ele quisesse dialogar comigo seria por essa via. Isso porque eu só tinha o direito de denunciá-lo até seis meses depois do fato, e nessa época eu achava que por eu estar transando com ele, ele tinha o direito ao acesso total e irrestrito ao meu corpo e o meu não ao sexo anal realmente tinha sentido em ter sigo ignorado. Mas aquele não tinha importância não obstante a conveniente surdez deste homem que agora me processa, surdez esta aliada à sua força física. Porque eu não tinha mais o direito de denunciá-lo foi até bom ele ter me processado. Porque esta é uma maneira de me defender publicamente e tornar a minha história pessoal em algo político pelas vias de fato, as vias jurídicas, onde é possível ter acesso à justiça social e eu quero que a justiça se materialize por meio destas palavras que escrevo agora.

Essa justiça da qual ele zombou, da qual fez pouco caso ao colocar em xeque a sua existência.

Não que eu ache que a justiça seja uma constante, muito menos eu acho que ela seja o que mais acontece neste mundo. Não, há muito o que se construir. Uma dessas construções que precisam ser feitas socialmente é a atenção às vozes das sobreviventes da cultura do estupro. A sociedade da cultura de estupro deve algo às mulheres e essa dívida é milenar. Em minha defesa e em defesa de todas as mulheres que estão sendo estupradas neste minuto mesmo não lá na Índia somente mas a alguns metros de você, talvez no quarto ao lado, eu digo: a justiça deve dar atenção a minha voz e a justiça sabe disso. Eu não duvido da existência da possibilidade da justiça, somente de sua efetividade plena, disso eu duvido porque há muito o que se construir. Só que ele, o estuprador, tem seu conhecimento sobre a sociedade. Ele, o estuprador, conta com a injustiça e age baseado na certeza de que o mundo será injusto com a estuprada porque é assim que as coisas funcionam.

Não é como eu quero que funcionem. E você?

Não, estuprador de merda, objetificador de mulheres, sádico, bélico,fálico, eu não merecia ser estuprada. E apesar de olhar à minha volta e só ver injustiça, eu acredito que ela pode ser feita porque se eu não acreditasse não teria mais motivos pra viver. A justiça me move, fiz da minha dor a minha luta, estou aqui pra ser ouvida e absolvida dessa acusação infundada. Atentado à honra. Eu não quero destruir a carreira do estuprador, só queria que ele nunca tivesse destruído a minha dignidade e estou aqui pra me defender de suas ameaças sim porque este é meu direito humano básico, e vou continuar me defendendo publicamente porque o meu silêncio não vai me proteger, como bem aprendi com a Audre Lorde e porque há o direito ao grito, então eu grito, como bem aprendi com Clarice Lispector.

Agora você que me lê, peço a continuidade da campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada
Se possível, poste uma foto sua com plaquinha em minha defesa.
Nunca te pedi nada. rs

Venha comigo para este levante, vamos ampliar os nossos horizontes.

Vamos lutar juntas contra a cultura do estupro.

Agora é a hora.

Se você concorda, espalhe este texto pelas suas redes sociais. Vamos tecer nossas redes contra o estupro.

Vamos juntas, apesar de todas as nossas diferenças.

Eu ainda acredito na luta das mulheres. Na possível luta das mulheres.

No dia em que eu deixar de acreditar, deixarei de escrever, deixarei de lutar, não estarei mais respirando.

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2 Respostas para “Monólogo em minha defesa contra o ex que me estuprou”

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