Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Thammy Miranda, partido do Bolsonaro e cura lésbica

Há poucos dias, pulou no meu feed a notícia de que o ator Thammy Miranda havia se filiado ao PP, o partido do Jair Bolsonaro. Antes de mais nada, eu acredito na boa intenção de Thammy, que sugeriu a criação do “PP diversidade”, ideia bem aceita pelo partido que será presidida pelo novo integrante. Thammy deseja, ao que me parece, fazer algo pela causa LGBT: confrontar de perto a política da cura homossexual. Este post, portanto, está longe de ser uma crítica ao ator Thammy Miranda.

ThammyMiranda

Só que, infelizmente, a moral do ódio aos não-héteros não é fruto da ignorância dos políticos, algo que pode ser alterado caso eles “entendam” que “são ignorantes” e queiram “se redimir”: muito pelo contrário. Essa moral anti-gay e anti-lésbica é a base de todos os interesses políticos da direita, e os interesses políticos da direita são: mulheres submissas aos seus maridos, procriando, recebendo um salário menor por poder engravidar ou não sendo contratada. A moral anti-homossexualidade não está separada da obrigação moral que uma mulher tem de reproduzir. A moral anti-homossexualidade não está separada do fato de a igreja católica ainda ser contra o uso de preservativos. A moral anti-homossexualidade não está separada da cultura do estupro. A moral anti-homossexualidade não está separada da violência doméstica. A moral anti-homossexualidade não está separada do assédio sexual no trabalho. A moral anti-homossexualidade é apenas parte de um projeto político que já está vigente e quer ser perpetuado: o projeto político do patriarcado. Eu não estou sozinha nessa associação. Andrea Dworkin em seu discurso Eu quero 24h sem estupro (discurso feito em uma conferência cujo público era majoritariamente masculino com o objetivo de disseminar o que o feminismo espera dos homens) disse o seguinte:

Andrea-Dworkin

Os interesses do PP por trás da imagem de Thammy Miranda

Thammy Miranda não tem a menor culpa de estar sendo usado para promover a cura lésbica, mas é o que o PP está fazendo com ele. O PP compreendeu, assim como o Irã, um país fundamentalista onde a homossexualidade é proibida com direito a pena de morte, o quanto a operação de sexo pode ser útil para seu projeto político.

TranssexualidadeObrigatoria

Uma vez que uma pessoa homossexual do sexo feminino decida passar pela hormonização e por cirurgia de retirada de mamas, ela transitará pelas ruas de mãos dadas com sua namorada sem ser afetada pela lesbofobia. A transsexualidade masculina, portanto, não desafia as normas do gênero e nem a lesbofobia da sociedade, porque ela reafirma os papéis de gênero referentes a como mulheres e homens devem se vestir e se portar. Um casal que antes seria visto como lésbico enquanto andasse na rua, depois da cirurgia, ganha passabilidade hétera. O que isso significa senão um novo modo de readequar as lésbicas ao que nos é imposto: que devemos gostar de homens ou, se não nos adequamos àquilo que nos foi imposto, é porque queremos ser homens.

TranssexualidadeObrigatoria2

A passabilidade hétera conquistada após a mastectomia e a hormonização pode ser utilizada, portanto, como uma roupagem ultra-moderna para a cura homossexual. O partido do Bolsonaro não ficou bonzinho de repente. Eles não acreditam na moral anti-homossexual por ignorância, eles sabem muito bem o que estão fazendo e utilizam de inteligência estratpegica para isso. Com a imagem de Thammy no partido, o PP passa a ter um modo de tokenizar as pessoas trans para caberem na pauta da diversidade, como se o fato de ter uma pessoa trans dentro do partido fosse um modo de dizer “viram como não somos homofóbicos?”. Ao mesmo tempo, eles mostram para a população que homossexuais (gays ou lésbicas) não são aceitos, mas pessoas que passaram pela cirurgia de transsexualidade sim. A mensagem que está sendo passada, aliada a toda a política queer que já está inserida nas mídias digitais de forma intensa, que já está inserida nos cursos de pedagogia, que já está inserida da mídia tradicional (saiu até no profissão repórter), é a da normalização dessa cirurgia e da hormonização.

E quem ganha com isso?

As religiões, apagando a existência das lésbicas (ser lésbica é se negar a desempenhar o sexo reprodutivo, portanto a referência deve ser retirada do alcance das demais meninas e mulheres).

Ganham os consultórios psiquiátricos especializados em transsexualidade.

Ganha a indústria farmacêutica que quer lucrar com venda de hormônios.

Ganham médicos cirurgiões.

Enquanto nós, lésbicas, continuamos perdendo o direito à existência, seguindo o curso da história que apagou nossos corpos e literaturas nas fogueiras da inquisição.

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3 Respostas para “Thammy Miranda, partido do Bolsonaro e cura lésbica”

  1. Adriana Rodrigues Castro

    Olá Natacha! Além dos teus posts aqui, eu vi um teu no blog da Lola, simplesmente adorei! Você tem algum e-mail no qual eu poderia entrar em contato? Gostaria de saber sua opinião sobre algumas coisas. Desde já agradeço!

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  2. Henrique Mafra

    Perfeita a sua análise das motivações de um partido como o PP para não só incentivar como “acolher” Thammy… As artimanhas da opressão para suavizar a sua real face estupradora (física, emocional e mental) são inesgotáveis. E o pior é que, com frequência, encontram respaldo e acolhimento entre os que são alvo preferencial de sua sanha dominadora.
    Cabe sempre citar Simone de Beauvoir:

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