Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Viva porque do contra. Do contra porque lésbica.

 

Post escrito para fazer lembrar que o dia 19 de agosto foi o Dia Nacional do Orgulho Sapatão. Nossa memória depende de compartilharmos nossas histórias. Que as mortas por lesbofobia não sejam esquecidas, que a nossa própria vida e percepção de sobreviventes não seja esquecida. Estaremos aqui, relembrando. Enquanto estivermos respirando.

É a intenção deste post: narrar a a luta de uma mulher lésbica contra a medicina e a psiquiatria lesbofóbica, a favor de sua própria vida. E de, a partir disso, promover o orgulho sapatão.  Lésbica: orgulhe-se por estar viva e revolte-se por quem nos mata. Você pode. Você deve. Lesbofobia é diferente de homofobia. Lésbica é diferente de gay. Você não está doente. Você, como eu, é só uma mulher do contra. E é isso o que te permite viver. A sobrevivência não é uma habilidade acadêmica. Nossa bandeira não é colorida. Nossa existência é resistência.

Se eu pudesse dar um conselho a você este conselho seria: VIVA. É tudo o que não esperam de você.

 

Por que eu me orgulho de ser sapatão?

do_contra

Chegando aos quase trinta anos tenho cá minhas histórias pra contar. Tais histórias não vêm ao caso agora, quero é discorrer distraidamente ao correr das teclas e da velocidade do meu pensamento, no fluxo, apenas seguindo a ordem da minha organização linguística. A ordem agora foi relembrar de todos os títulos que me foram gentilmente concedidos a partir de características que os indivíduos achavam que eu tinha, e que não hesitavam em revelar-lhes para mim a fim de que eu me conscientizasse sobre tais características. “Do contra” era um desses títulos e, secretamente, sempre o amei. “Natacha, você é do contra!”, e eu ria, gostando do que ouvia. Já pressentia que o mundo era todo errado e que eu resistia, da minha maneira, a ele. Há sobre mim por aí outras definições, rótulos, diagnósticos. Actra atei muitos deles como uma forma de encontrar uma resposta pela qual eu ansiava. Diagnósticos aliviam, pois dão a nítida impressão de que enfim agora sabemos o que se passa conosco. Nomear organiza. Então me diagnosticaram como alguém com um transtorno, déficit de atenção sem hiperatividade. Afinal hiperatividade é “coisa de menino” (e não sou eu falando, é a autora de um livro sobre Déficit de Atenção, escrito por uma mulher, cujo nome é: Mentes Inquietas.  Eu, que sempre havia me achado esquisita demais para ser uma menina, de repente fui agraciada com o deslumbre da resposta. Eu tinha um diagnóstico. Déficit de Atenção, mas sem hiperatividade. Doutor Roger assinou a guia para um medicamento chamado Concerta. Com esse nome mesmo, que sempre me incomodou: qual era a necessidade disso? Desse nome? Um nome criado por alguém que, como eu, era Redatora Publicitária. Não me permiti refletir muito sobre tal fato na época pois eu estava ocupada demais com a resposta a que havia chegado. Eu tinha um problema que não era eu, era um problema que havia me escolhido para si. Um hospedeiro conceitual. Um problema. Que precisaria ser consertado. Corrigido. Eu, tão errada, tão errada. Déficit de Atenção. Sem hiperatividade, pois hiperatividade é “coisa de meninos”.

Os sintomas do Déficit de Atenção são: distração, conexão absurda com o “mundo da fantasia”, introspecção, hipofoco (falta de foco) e hiperfoco (foco excessivo), perda constante de objetos, esquecimento de datas e tarefas “importantes” e desordem. Hiperatividade é diferente. “Coisa de menino”, de acordo com o livro Mentes Inquietas. Hiperatividade é não conseguir parar quieto, sentir necessidade de correr e pular o tempo todo, e geralmente vem acompanhada de impulsividade e agressividade, que são duas características que podem ou não estar presentes. Nos piores casos a impulsividade está, sim, presente, junto com a agressividade. “Meninos batem, coisa de menino”. E é um alívio para os pais quando eles ouvem que eles não têm a menor responsabilidade sobre o temperamento agressivo de seus moleques agitadíssimos. “Nasceram assim”, quem poderia evitar? Mas há a solução: Ritalina e Concerta. Os medicamentos podem brecar a impulsividade desses meninos tão confusos com as doses de testosterona que têm sido liberadas cada dia mais agora com o acesso facilitado à pornografia, não é mesmo? Essa coisa tão, tão comum, “coisa de menino”, deixa eles, deixa eles.

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Só que eu, perfeitamente do contra, logo depois de diagnosticada e medicada, tentava puxar os fios das narrativas que criava em minha mente para compreender quem eu era e esses fios não estavam mais lá. Minha mente era a tela em branco de um notebook aberto sem ninguém para escrever. Pelo hábito da escrita que eu já sabia ser tão salutar, compreendi que havia algo de muito errado acontecendo. O corpo também não mentiu: paralisou no meio de um dia de trabalho. Foi paralisando aos poucos. Aos poucos. Coração acelerado. Boca seca. Perda de identidade. Pedi socorro a um ex-namorado e ele foi ao meu encontro. Entrei no carro. Pedi para ser levada para um hospital. Rápido, pois tudo estava ficando cada vez mais intenso. Sentada, minhas pernas se moviam involuntariamente, meus braços começaram a se enrijecer, meus dedos ficaram duros e imóveis como pedras, a única coisa que parecia funcionar era a minha mente e eu estava desesperada, concentrada na única coisa que me parecia viva, meu cérebro, repetindo como um mantra as palavras “vou morrer, vou morrer”. Não morri. Por sorte estávamos em frente a um posto médico quando tudo isso aconteceu, e eu fui levada rapidamente para o pronto-socorro. Perguntaram se eu havia tomado alguma coisa e eu disse que sim, eu havia tomado um remédio tarja preta para déficit de atenção, estava em tratamento. Então me deram calmante na veia, e até meu coração se acalmar eu ainda repetia mentalmente as mesmas palavras “vou morrer, vou morrer”. Não morri, estou aqui para contar como me orgulho em ser do contra. Eu sou do contra com toda a força e a potência do meu corpo e isso sempre incomodou as pessoas ao meu redor. Sobrevivi porque sou do contra e vou continuar sendo porque tal habilidade ninguém pode me tirar a menos que me tirem a vida. A propósito, eu não tenho déficit de atenção. Eu rejeito este diagnóstico. Até mesmo porque o cara que sintetizou o metilfenidato disse, antes de morrer, que o remédio foi inventado antes de ter sido “descoberto” o TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, e que tais transtornos foram inventados para que o metilfenidato pudesse ser vendido. E eu compreendo os meus sintomas, refleti a minha vida inteira sobre eles. Eu sou o sujeito dos meus sintomas, não terceirizo a minha análise, tampouco me curvo a essas pessoas tão bem intencionadas  que querem me fazer acreditar que estou doente de ódio de homens e preciso de paz e amor. Eu sou sujeito dos meus sintomas, fui vítima das agressões, mas dos sintomas sou sujeito, por direito humano. É o que significa ser poeta para mim. A dissociação do mundo, distração, esquecimentos, perdas, são sintomas de estresse pós-traumático de estupros e violência doméstica. Já existem estudos comparativos sobre traumas de guerra e traumas de estupro e está cientificamente comprovado que não há diferença entre os sintomas de ambas violências. Já a não-adequação à feminilidade (desordem) são sintomas de algo que não, não é uma doença, embora o mundo queira me fazer crer que sim, embora até “mulheres-super-comprometidas-com-a-discussão-sobre-saúde-coletiva-mas-que-chamam-lésbicas-de-doentes-ou-seja-lesbofóbicas” jurem de pés juntos que eu estou “doente de ódio” e que preciso de “paz e amor”. Este diagnóstico irresponsável que recai sobre mim me é dado porque eu sou lésbica. Porque eu rejeito a dominação masculina e narro o que vejo, reivindicando-me sujeito interpretante do mundo nas poesias que se escrevem através do meu corpo-caneta. Por causa da lesbianidade, mulheres foram rejeitadas pela família. Elas “odiavam homens” e não escondiam isso, motivo pelo qual foram parar em hospitais psiquiátricos sendo esquecidas até a morte, que nem mesmo esta era motivo para uma última visita. Seus corpos eram vendidos a faculdades de medicina. Esquecidos porque odiados.

A caça às bruxas nunca acabou. Mas estou aqui. Viva. Orgulhosa por defender a minha percepção de sapatão em um mundo que quer aniquilar a minha existência. Viva porque do contra. Do contra porque lésbica.

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