Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI

Nós, lésbicas, que cultura queremos criar?

Sobreviver em um mundo de homens, eis o desafio da vida de todas nós enquanto estivermos respirando. Porque não são apenas os homens que travam nossos caminhos, mas nós mesmas, identificadas com a cultura que eles criaram para nós, mulheres, dentre as quais, nós, lésbicas, estamos magicamente vivas, embora muitas de nós não tiveram tal sorte. Nós mesmas estamos no nosso caminho, a nossa parte socializada para a voz baixa, para a vergonha, para o medo, para a heterossexualidade (que é compulsória), para a competição entre aquelas que têm dentro do ventre um útero capaz de gerar outra vida. Somos, metaforicamente, vetores de consciência humana, pois é no útero que ela se inicia. Nós somos as verdadeiras criadoras. E não é que isso deva ser desejado (lembrem-se que o conceito do desejo foi algo criado por homens e para homens), a maternidade não deve ser desejada. Muito pelo contrário: nós precisamos combater este desejo pela maternidade, a romantização a respeito de gerar outra consciência a partir do vazio escuro dos nossos úteros. Como faremos isso? Combatendo a cultura do desejo, a cultura da erotização de tudo que transforma corpos femininos em mercadoria, em algo a se consumir. Nossas potências fisiológicas para a gravidez, parto, puerpério, tudo isso foi consumido pela cultura dos homens. Nossa potência para a menstruação é um sinal disso: o maior “benefício” por trás das propagandas de absorvente, de todas elas, é a proteção. Absorventes vendem proteção. Por que a menstruação é um perigo? Por que precisaríamos nos proteger dela? Desde quando é um perigo? Por que somos ensinadas, meninas, que a menstruação é um processo secreto do qual não podemos nunca falar, nunca nos orgulhar, um processo que deve ser contido, secreto, escondido? Por que falar “região íntima” em vez de vulva ou de vagina? Como sobreviver em um mundo que se apropriou de nossas potências fisiológicas e as transformaram numa ideia, numa abstração, numa coisa que está fora da humanidade: deus? Deus e seus representantes na terra: corpos dotados de pênis. Como sobreviver em um mundo em que mulheres veneram, idolatram e tomam como próprios pensamentos cujas origens está na dominação de nossas próprias existências? É muito difícil andar sozinha com essas conclusões sobre o mundo sem ter com quem compartilhar. Muitos homens, muitas héteras, pouco espaço para a consciência lésbica, que fere sem que tenhamos a intenção de ferir, apenas porque a verdade de que os homens são os criadores de todas as nossas angústias é por demais indigesta, dá ânsia, dá náusea, crises de ansiedade, depressão, desejo de suicídio, surtos de dissociação do mundo, de distanciamento da realidade, dos nossos próprios corpos. E as héteras não querem nomear esta verdade pois nomeá-la seria tomar a consciência da tragédia de suas próprias vidas, uma tragédia que também é nossa, mas elas não se identificam conosco, elas nunca se identificarão com as nossas conclusões. Isso nos dói, porque não gostaríamos de deixar nenhuma mulher para trás. Só que existe um ponto sensível em cada mulher, que é o seu protagonismo, o grão de potência de decidir. A potência de decidir foi tomada das mãos das mulheres. A cultura do estupro, com seu poder de violação, gera traumas, medos e transtornos mentais desde a infância, um período em que o desenvolvimento cognitivo está vulnerável. E o registro afetivo de todos esses traumas são carregados pelo corpo por toda a vida. Estamos permeadas pela ansiedade de viver em um mundo de homens. Cada mulher é um aborto de si mesma. Sem exceção. Todas fomos obrigadas a abrir mão das nossas plenas potências de seres humanos porque os homens tornaram secreto nosso discernimento desde a mais tenta infância. Tornaram secretos os símbolos da sexualidade das mulheres e tornaram secretos suas violências sádicas e fetichistas sobre nossos corpos infantis. Os homens violaram muitos dos nossos corpos quando ainda éramos muito, muito pequenas. Talvez sexualmente. Talvez usando a “educação corretiva” como um meio de entendermos que não tínhamos o direito de sermos tão humanas quanto eles porque éramos crianças e, mais precisamente, meninas, aquelas que deveriam aprender a feminilidade. Os homens impuseram sobre as mulheres a cultura do segredo. Segredo sobre as origens. Origem da vida: o útero. Origem das nossas dores: o pênis e o falo. Origem dos nossos traumas: abusos sexuais, abusos morais. E não podemos, nenhuma de nós aqui pode fazer nenhuma mulher pegar para si as cópias das chaves que temos em mãos e fazê-las girar a fechadura, abrir a porta e ir embora para sempre da vida dos homens que as agridem e as submetem. Não dá! O protagonismo tem importância, cada mulher sabe de si, sabe dos perigos que corre. O que podemos fazer é mostrar que a chave existe, que o segredo pode ser aberto, que as palavras delas de repente podem encontrar as nossas, que há a possibilidade da criação de um espaço seguro na língua das mulheres, essa língua com a qual escrevo agora, a língua com a qual nos comunicamos, a língua com a qual é possível criar cultura. Pois a origem das culturas está na língua. O que, senão a língua, criou a cultura do desejo? Homens com seus pensamentos masculinos criaram a cultura do desejo, a mesma cultura do desejo que é a base do consumismo, do marketing, da publicidade.

E nós, mulheres, nós lésbicas, que cultura queremos criar? Vamos começar a nomear isso?

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2 Respostas para “Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI”

  1. narawoods

    O homem distorceu o significado de algumas palavras como, passividade=bondade, por uma questao de dominacao… O que temos que fazer eh desconstruir essa idea, e nos tornarmos ativas, resistindo a cultura da “femininidade” que somo ensinadas a nao reagir, nao discordar, ser mansa como sinonimo de ser “boa”. Precisamos desconstruir esse idea, e quebrar as grades dessa prisao invisivel

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