Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Recado para uma filha

Eu queria poder dizer a você que ainda não é mãe que você tem muito o que aprender sem que isso soasse ofensivo. Porque a intenção realmente não é ofender. Aliás a intenção por trás dessa afirmação é o extremo oposto da ofensa. A ofensa está de verdade no seu ponto de vista impregnado de uma raiva reprimida de mães que decidem falar de suas vivências. Não é uma ofensa querer falar de vivência. É um pedido para que você ouça as mulheres que são mães, que prestem atenção no que temos a dizer. Quase uma súplica. A sua mãe sempre tentou te avisar, da maneira dela, até mesmo porque poucas das nossas mães tiveram acesso a um discurso político em que elas pudessem avaliar a maternidade como algo político, a minha por exemplo não teve. Ela tentou te avisar que tinha muito a te ensinar embora não entenda lhufas de pedagogia, desenvolvimento cognitivo, motor, linguístico. A sua mãe tem vivência embora não seja capaz de organizar politicamente sua fala. Ela sente que tem muito a ensinar e esse sentimento é real, tem uma base material, que ela só não consegue direcionar linguisticamente porque o pensamento lhe foi tomado desde tão cedo. Mas pensar você sabe. E pensamento é prática constante. Questionamento. Dúvida. Epifania. Resposta. Compartilhamento. Menos consumismo aplicado à informação (da qual a internet é a grande plataforma) e mais sabedoria, por favor. O que está entre sua mãe e você é a violência contra as mulheres, muitas vezes somada a outras opressões. O que te impede de ouvir mães é a raiva da tua própria mãe que, em desespero, em busca de se adequar ao papel da mulher que não sente raiva de alguém que você é obrigada a amar, você nega ter dentro de si. Porque é imoral ter raiva de mãe. Quarto mandamento. Honrarás pai e mãe. Você não admite. Você nega. Você finge que não está lá. E fingir é um grande fermento para o bolo da raiva. Por isso que a melhor coisa que você pode fazer pelo seu bem é pensar em como você vai fazer para extravasar essa raiva, canalizá-la pra algo útil, político (as mulheres mais incríveis que conheço são muito, muito raivosas). Não para a sua mãe. Porque a raiva por ela ter sido abusiva é legítima, mas a a raiva por ela não ter representado pra você exatamente o que fizeram você pensar que ela tivesse de representar não, não é legítima. Sua mãe não é sua mãe porque a maternidade é a grande idealização do patriarcado para as mulheres, todas. Percebe que você não é muito diferente dela? Ouça as mães. Não precisa concordar, puxar ovário, aplaudir, não precisa de cena. Muito menos de submissão para o caso de a sua mãe ser uma abusadora. Aliás, se isso não te representar perigo nenhum, você pode sim responder à altura o modo com que ela tenta minar a sua autoestima para que você se curve ao patriarcado. Lembre-se de que você não é obrigada a amá-la (romantismo não cabe mais nas relações), mas você tem a obrigação política de raciocinar sobre a sua relação com ela, pois só assim você terá acesso à história perdida, apagada da vida de sua mãe, de sua avó, de suas bisavós, até a raiz mais remota de sua árvore genealógica (pela imaginação que é capaz de tecer histórias a partir dos retalhos passados de geração em geração). O movimento é simples e ao alcance de todas. Comece agora. Por você.

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