Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Confira entrevista sobre o livro Língua Inquieta no DoMiNiO PeSsOaL

Neste post você terá acesso a duas perguntas da entrevista sobre o lançamento do meu livro Língua Inquieta ao blog dedicado à cultura lésbica DoMiNiO PesSoAl. No final do post você pode clicar para acessar a entrevista completa.

DP: Em seu blog atual, você diz que enquanto escreveu no Língua Inquieta estava presa à heterossexualidade compulsória. O que seria esta heterossexualidade compulsória, a que se refere?

Heterossexualidade compulsória é a obrigação à heterossexualidade desde pequena. É aprender a cuidar de bonecas enquanto meninos aprendem liderança. É aprender a esperar o príncipe encantado, representação de deus na terra, o único capaz de salvar a mocinha do perigo com um “beijo de amor” enquanto ela dorme. O que é estupro, certo? É beijo sem consentimento, os contos de fadas ensinam a normalizar estupro. É não entender que o príncipe é que é o perigo porque tal entendimento nos foi roubado. É você ter orientação sexual desde pequena voltada para outras mulheres e a sua mãe e seu pai te proibirem de ter amigas sem você não entender nada do que está acontecendo. Porque a sua mãe já sabe das suas tendências, mas você, criança, mal consegue formulá-la por falta de representatividade: você não conhece nenhuma mulher lésbica, como vai entender que é lésbica? É você ter seu primeiro beijo com menina e primeiro sexo com menina e ainda assim se sentir BV ou virgem. É a sociedade dizendo às mulheres que nós somos mulheres porque pênis nos transformaram em mulheres, a expressão “eu a fiz mulher” é uma prova disso. É “cidadãos do bem” ameaçando lésbicas com estupro corretivo para que nós aprendamos o que é ser mulher de verdade. Como se “ser mulher” fosse igual a gostar de pênis. Sabe? A sociedade empurra pinto pra mulher de todas as maneiras possíveis, isso se chama cultura do estupro. Heterossexualidade compulsória é cultura do estupro.

DPSeus textos e poemas evoluíram após libertar-se desta compulsoriedade? Como assumir-se e reconhecer-se enquanto lésbica impactou em sua produção literária?

Eu ainda não me libertei dessa compulsoriedade, em sonhos os meus estupradores ainda me perseguem, e eu tenho um filho. Compulsoriamente estou ligada a um homem até o fim da minha vida, mesmo que não afetivamente, mesmo que não sexualmente. Mas juridicamente estou ligada e isso é uma bosta. Formalmente não houve impacto no que eu escrevo, pois no que tange a forma – ou estilo – acredito que a minha escrita já esteja desenvolvida, embora ela não esteja isenta de se transformar. Mas no que tange o conteúdo sim. É como se escrever fosse cavar um poço pra encontrar água. Eu estava há muito tempo cavando, cavando, cavando e com a sensação de que eu não saía do lugar. E eu não tinha a menor ideia de como ir mais fundo. “Tinha uma pedra no meio do caminho”. Ter entendido a minha lesbianidade foi como dinamitar a padra e a partir daí conteúdos começaram a jorrar das minhas profundezas. O impacto disso é o impacto do acesso à verdade. Gloria Steiner estava correta quando disso que a verdade vai te libertar, mas primeiro ela vai te enfurecer. Eu tive de lidar com a fúria que jorrava daquela parte de mim que foi impedida de existir. Registrei essa fúria, pois sabia que ela era parte do processo. Fui muito criticada por isso. “Você odeia homens, é louca, deveria se tratar”, opiniões que geralmente leio a meu respeito De mulheres. A maioria hétera. A libertação é mais interna do que externa, porque eu não tenho controle sobre uma sociedade misógina e lesbofóbica. Mas eu tenho agora acesso à consciência de que sou lésbica. À consciência de que minhas potências foram roubadas e que elas podem e devem ser reivindicadas. Inclusive na literatura. Aliás, utilizando a literatura como ferramenta para isso, uma vez que a literatura é a legislação oculta do mundo. O impacto é fazer as minhas próprias leis, inventá-las, para que elas pelo menos existam como um mundo possível dentro das minhas obras. Dentro da minha esperança.

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra

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2 Respostas para “Confira entrevista sobre o livro Língua Inquieta no DoMiNiO PeSsOaL”

  1. 15 trabalhos de lésbicas maravilhosas – #visibilidadelesbica | vulvarevolução {!}

    […] 1 – “Todas fomos obrigadas a abrir mão das nossas plenas potências de seres humanos porque os homens tornaram secreto nosso discernimento desde a mais tenta infância. Tornaram secretos os símbolos da sexualidade das mulheres e tornaram secretos suas violências sádicas e fetichistas sobre nossos corpos infantis. Os homens violaram muitos dos nossos corpos quando ainda éramos muito, muito pequenas. Talvez sexualmente. Talvez usando a ‘educação corretiva’ como um meio de entendermos que não tínhamos o direito de sermos tão humanas quanto eles porque éramos crianças e, mais precisamente, meninas, aquelas que deveriam aprender a feminilidade. Os homens impuseram sobre as mulheres a cultura do segredo” —– trecho de “Uma provocação às lésbicas brasileiras do século XXI”. Clique aqui para ler na íntegra. A autora desse blog (M.I.L.F. WTF?) está lançado um livro independente, o “Língua Inquieta – da heterossexualidade compulsória ao orgulho sapatão”. Para saber mais sobre e encomendar o seu, clique aqui.  […]

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