Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

[TUTORIAL] Como ir à praia sem se depilar

Um passo-a-passo prático e sincero que ensina como ir para a praia sem aquela chatice de ter de se submeter à cera ou à lâmina de cortar

 

Ah, como é bom ir para a praia. Se livrar da rotina por uns dias, escutar o som das ondas quebrando, indo e voltando, não ouvir a voz dos chefes, dos pais, nem o caminhão de gás passando na rua de manhã. Mas quando se é mulher, ir para a praia pode significar uma certa tortura dependendo do tanto de pelos existentes em seu corpo e de sua adequação ao padrão (que, vamos combinar, é um padrão pedofílico visto que a obrigação é que pareçamos com meninas antes da menstruação e não com mulheres adultas: mulheres adultas têm pelos).

Pensando nisso, depois de muito tempo resistindo à ordem patriarcal de me depilar (praticamente dois anos, embor durante esse tempo eu tenha tido algumas recaídas, uma delas um pouco mais de um mês atrás e é por isso que meus pêlos estão curtinhos), decidi postar um tutorial sobre a maior dificuldade de quem decide deixar os pelinhos ao natural: aparecer em público com eles.

Segue o tutorial sobre como ir à praia sem se depilar

1-naosedepile

 

2-vaapraia

 

É difícil e ao mesmo tempo fácil. Não me depilar e deixar os pelos serem vistos tem sido pra mim entrar em contato com camadas profundas do auto-ódio que aprendi a sentir do meu corpo, da necessidade da aprovação alheia para me sentir bem. Da necessidade de um padrão imposto pelos homens, um padrão irreal, um padrão que só faz mal, um padrão que incentiva o sentimento de inadequação das mulheres, um padrão que incentiva o consumismo (marcas de lâminas, de ceras, cremes hidratantes, cremes de esfoliação, cremes de depilação, salão de beleza com depilações de diferentes tipos, e por aí vai). É difícil você estar lá, com os pelos à mostra, algo que deveria ser tão natural, mas não conseguir andar com naturalidade, não conseguir sentar com naturalidade, fugir de locais com muita circulação de pessoas porque os olhares alheios pesam uma tonelada sobre suas costas. E o fato de esse olhar pesar uma tonelada sobre minhas costas quer dizer que, por mais que eu expresse um orgulho do meu ato de resistência, ainda não consigo sentir orgulho da naturalidade do meu corpo. Isso não é triste?

Aprendemos a achar que pelos são nojentos, que são feios e sujos, que é falta de higiene uma mulher deixar seu corpo ao natural quando os homens têm pêlos pelo corpo inteiro. Suas barbas enormes são motivo de elogio e incentivo. Mas se somos tão humanas quanto eles, por que os pêlos neles são lindos e desejáveis e os pelos dos nossos corpos são imundos e somos chamadas de porcas por deixá-los crescendo? Porque foi assim que minha mãe me chamou quando decidi deixá-los. Por que deixamos de ser humanas se decidimos assumir plenamente nossa humanidade, da qual a animalidade física, os pêlos, fazem parte?

 

LésbicasResistem

 

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232 páginas de poemas e prosas poéticas com temática lésbica que só se tornará possível pois está sendo produzido 100% fora do mercado editorial, o mesmo mercado editorial que tem a pachorra de dizer que poesia não vende sabendo que a última antologia do Paulo Leminski vendeu mais do que o best seller americano 50 Tons de Cinz… Violência Doméstica. Com capa de papelão produzida artesanalmente, escrito, editado e diagramado pela mesma autora deste blog que é também autora do blog Língua Inquieta (criado em 2009), o livro pretende ser um marco na produção lésbica nacional, narrando a busca de uma mulher lésbica que ainda não sabia que era lésbica pela liberdade que sentia faltar em sua vida. Ou seja, o livro Língua Inquieta pretende narrar a libertação lésbica a partir de um ponto de vista pessoal e político, permitindo a outras lésbicas que ainda não sabem que são lésbicas que entrem em contato com referências externas de lesbianidade e mostrando às já-lésbicas que é possível escrever e publicar sem precisar do aval de um mercado que não está nem aí pra arte quando mantêm lésbicas fora das prateleiras, perpetuando a fogueira das bruxas que queimou nossos livros e nos impediu de termos contato com a ancestralidade das mulheres que amam mulheres.  Acompanhe a hashtag #LinguaInquieta que em breve o livro estará à venda.

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2 Respostas para “[TUTORIAL] Como ir à praia sem se depilar”

  1. C. S. Costa

    Obrigada por esse post. Estou em processo de desconstrução dos meus pelos e faz teeeempo que não me depilo (leia-se torturo), mas ainda tenho muita vergonha de mostrar meus pelos por aí, então também faz teeeeempo que não uso blusinha regata nem shorts, nem saia, nem vestido. E lha que tem feito calor aqui onde moro…
    Acho que falta mais mulheres se unirem para e se reunirem para fortalecer isso, sabe? Eu me sentiria muito mais confiante e à vontade em sair pra passear com amigas ‘peludas’ do que sozinha ou com amigas que se depilam.
    Meus pelos são grossos, escuros (sou branquela) e ficam MUITO compridos e arrepiados. A maioria das minhas amigas tem pelos finos e curtos. Quando dizem “nossa, nem me depilei hoje pra usar esse vestido” eu olho pras pernas delas e não vejo pelo nenhum kkkkkk dá até invejinha.
    Bem, vamos ver se eu consigo atingir o nível de desprendimento social pra ostentar minha aparência natural como mulher adulta saudável com pelos. 🙂

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