Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

O que uma escultora francesa tem a nos ensinar sobre mulheres encarceradas

Trechos transcritos do discurso de Fernanda Ottoni na Palestra II – A Mulher no Manicômio Judiciário (vídeo acima)

 

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Homem mais velho e garota em processo de desenvolvimento cognitivo: um padrão aniquilador da saúde mental das mulheres

“Camille foi uma criança fora dos padrões em uma época em que as mulheres eram criadas para afazeres domésticos. Ela estava sempre suja de barro e descabelada. Para o desespero da mãe e o orgulho do pai, Camille descobriu muito cedo o gosto pela escultura. Começou moldando argila quase como uma brincadeira. O pai de Camille acreditava na vocação da filha e levou toda a família para Paris. Seu professor a apresentou a August Rodin. Na época, Camille tinha 19 anos e Rodin 45. Chamou Camille para trabalhar com ele no momento em que ele recebera uma encomenda do governo francês para fazer as Portas do Inferno. Camille ficou incumbida de fazer os pés e as mãos das estátuas. Logo a convicência entre o mestre e a aluna se tornou em “caso de amor”. Rodin já vivia com Rose, mãe de seu filho, e sua fama de mulherengo corria longe. Mas Camille estava apaixonada e deixou a casa dos pais, passando a viver em uma casa alugada por Rodin que eles chamavam de “retiro pagão”. Eles passam a frequentar lugares públicos tornando-se amantes assumidos, o que era um escândalo para a época. Essa fase da vida de ambos é marcada por obras de intensa sensualidade. No entanto, com o tempo, Camille passou a se sentir sozinha. Vivia a espera de Rodin, que nem sempre aparecia. O relacionamento começou a deixá-la deprimida. Para a historiadora e ex-diretora do Museu Rodin ele tinha medo de Camille, de sua inteligência e talento, que faziam dela uma artista que poderia suplantá-lo. Camille sofreu um aborto e então resolveu abandonar o “retiro pagão” e se afastar de Rodin. Para recuperar o tempo perdido se concentrou no trabalho. É a sua fase mais produtiva. Vivia trancada em seu estúdio, cercada de seus gatos, e estava com sérios problemas financeiros. Usava roupas e sapatos velhos. Não comia direito e começou a fugir de todos. Em sua última escultura ela teria 34 anos. Depois desse ano destrói tudo o que esculpe e proíbe que vejam o que faça. A partir de então suas angústias se tornam “ideias fixas” até se instalar a “psicose”, segundo os historiadores. Aos 40 anos, uma semana após a morte do pai, a pedido da família que arranjou uma certidão médica, ela foi diagnosticada como “portadora de delírio paranoico” e foi levada a força para um hospício no interior da França.

Está em cartaz nos cinemas da cidade um filme sobre Camille que registra seu período de internação. É o que nos interessa aqui. Um filme sobre o encarceramento da mulher no manicômio baseado nos prontuários médicos e no registro de algumas cartas. Um filme muito silencioso ainda que seja no meio do grito das loucas. O filme abre com Camille de costas sendo levada para tomar banho. Seu corpo é objeto dos cuidados dos outros. Não decide mais sobre o horário que se banha, a roupa a vestir, nem mesmo por onde passarão as mãos sobre o seu corpo enquanto ensaboa-se porque não são suas as mãos que cuidam dessa tarefa. Inerte, com o olhar fixado no nada, em meio a uma fila de mulheres nuas, sua roupa é arrancada, seu corpo é lavado, suas mãos, seu olhar e sua nudez não dizem nada a ninguém. No silêncio cuida de outras internas. Amarradas em camisas de força ou dependuradas em braços alheios. Para cada interna uma “irmã de caridade”. Uma sombra permanente: nenhuma privacidade. Camille tinha conquistado o direito excepcional de fazer sua própria comida. Dizia que queriam envenená-la. E por essa greta de um suposto delírio alcançou sossego na cozinha. Uma hora por dia para preparar sua refeição. Se era delírio ou não o filme embaraça-nos. Por exemplo quando a nova secretária dirige-lhe a palavra como quem fala a uma igual, uma pessoa normal e diz: não se preocupe, madame, ninguém aqui vai te envenenar. E Camille sorri como quem diz: eu sei. A essa funcionária ela pede um endereço para se corresponder secretamente sem ter sua correspondência violada. A secretária torna-se uma parceira. Mas esse detalhe da humanidade não mudará muita coisa e só nos permitirá, mais tarde, ter acesso às lúcidas palavras escritas em suas correspondências sobre o sofrimento que lhe fora imputado. Ela diz: sem direito a nada, nada, nada. O que foi que eu fiz, ela pergunta em seus desespero mais íntimo. No mais absoluto silêncio do sentido e das explicações razoáveis não cessa sua ideia fixa de que por trás de tudo estaria Rodin. Queria destruí-la para apropriar-se de suas obras. Era seu modo de traduzir a condição de dejeto a que fora reduzida após ter sido usada como objeto por aquele a quem amava. Para os médicos do hospital isso confirmava sua fixação delirante persecutória. Cem anos depois sabemos que não era tudo delírio. Após nove anos de internação sem nenhuma visita seu irmão foi vê-la. O diálogo com seu irmão é uma das conversas mais lúcidas que já pude ouvir, mas ele se apressa a sair. O médico assegura ao irmão que ela está tranquila e dócil ainda que perdurem ideias fixas sobre a perseguição de Rodin e envenenamento. Ela deseja fortemente retornar para mais perto de Paris e o médico confirma ao irmão que seria melhor para ela, sem nenhum prejuízo para ninguém. O irmão filosofa sobre o laço estreito sobre genialidade e loucura. O filme termina com Camille Claudel sentada em silêncio sepulcral no deserto gelado das pedras medievais que acolhem aquele manicômio. Olhando para o nada. Diz a legenda que seu irmão sempre a visitou. E ficou por ali mais 29 anos. Morreu aos 79 e seus ossos foram jogados numa vala coletiva e jamais encontrados. Seu irmão não foi ao velório. Nenhuma palavra. Jamais voltou a esculpir. As mulheres internadas nos manicômios judiciários são as Camilles de nossos dias. Talvez com histórias menos glamourosas, mas igualmente marcadas pela segregação, preconceito, abandono e apagamento de sua marca singular, sua humanidade.”

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