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10 verdades sobre a cultura do estupro que você precisa saber

Verdade #1 – Violência neonatal é uma irônica “boas-vindas” à cultura do estupro

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Se você não é ativista pelo parto humanizado, provavelmente não sabia disso até hoje. Mas todos os bebês, minutos após o nascimento, são recebidos com tubos de plástico sendo enfiados pelas suas narinas, garganta e ânus com o objetivo de retirar líquido amniótico de tais vias. Um procedimento tão violento e invasivo que, quando adultos são submetidos a situações semelhantes, são anestesiados. “Bebês não sentem dor” é o argumento que muitos profissionais de saúde usam para justificar o ato, o que é uma mentira sádica e deslavada. O curioso é que este procedimento na verdade é desnecessário uma vez que os bebês eliminam esses líquidos naturalmente com o passar dos dias (como o meu filho, que nasceu em casa). Agora imagine um ser que passou nove meses dentro de um útero seguro, quentinho, escuro, sem ser tocado, flutuando harmoniosamente no líquido amniótico, sendo retirado de lá de dentro com brutalidade, chegando ao mundo em uma sala gelada, com uma luz forte em seus olhos sensíveis e tendo seu corpo penetrado por quase todos os orifícios. Parece um filme de terror? É, concordo. Mas infelizmente é a realidade dos bebês nascidos em hospitais.

Verdade #2 – Furar as orelhas das meninas também tem a ver com cultura do estupro

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Ah, fica mais delicadinha. Ah, fica com mais cara de menininha. Ah, fica tão mais bonitinha. Já reparou que os argumentos sempre terminam com “inha”? Não importa que para isso seja necessário forçar uma bebê recém-nascida a um procedimento doloroso de perfuração de uma parte de seu corpo. E não é à toa que somente as pessoas do sexo feminino sejam obrigadas a – pela família! – a tal procedimento. Além de conceitualmente a perfuração estar relacionada à penetração, o que por si só já é um fator a se considerar ainda que a maioria das pessoas ache essa relação um exagero, há também o fato de tal procedimento ser inútil e mesmo assim ser realizado com a óbvia impossibilidade de consentimento daquele ser que ainda não chegou à condição de sujeito, o que só será possível durante o processo de desenvolvimento da linguagem. As pessoas do sexo feminino são as únicas que são perfuradas em linha de produção antes de desenvolverem a habilidade de dizer não. Agora é só ligar os pontos.

 

Verdade #3 – O fetiche pela virgindade tem a ver com a cultura de estupros de meninas

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Também conhecido como pedofilia, o abuso sexual infanto-juvenil é um dos mais graves problemas sociais da humanidade. Isso porque esses abusos não se tratam de casos isolados e sim de um estilo de vida cultuado pela maioria dos homens, mesmo aqueles que dizem que nunca se envolveriam com menininhas. A sociedade prefere fingir que não vê que padrão de beleza feminino tem a ver com fetiche pela pré-puberdade (motivo pelo qual mulheres são obrigadas a se depilar) e com a fragilidade (por isso o culto à magreza, molas propulsoras da anemia e da bulimia, transtornos alimentares dos quais comprovadamente pedófilos se aproveitam para fazer vítimas), além de ser eurocentrista (e, por isso, eugenista). A sociedade prefere achar normal que homens tenham fetiche por mulheres vestidas com roupas que remetem à escola. Prefere fazer de conta que pornografia infantil não é um dos nichos do mercado que mais geram lucro. E a pornografia infantil só gera lucro porque existe uma demanda forte e esta forte demanda por si só já comprova que o fetiche pela inocência cujo pano de fundo é presunção da virgindade é mais comum do que se imagina: o homem que divide a cama com você, a vida com você e os cuidados da sua filha com você pode ter esse tipo de fetiche e você nem sabe. A sociedade prefere achar tudo isso normal, mas a Associação Americana de Psiquiatria curiosamente considera esse fetiche por crianças uma anormalidade apesar de ter inserido em seu quinto manual de transtornos mentais “por erro” que pedofilia é orientação sexual. De dar nó em qualquer cabeça, não é mesmo? Eu sei, deu em mim. O tema “pedofilia” é tão matrix quanto parto e as crianças só estarão protegidas quando todas nós sairmos dessa matrix. O responsável por tal “erro” se chama Richard Green. Ele é psiquiatra, teórico da sexualidade, estuda também identidade de gênero em crianças e é um membro da Nambla, Associação Norte-Americana de Homens que Amam Meninos. Uma associação abertamente pedófilia cujo objetivo é acabar com a idade de consentimento para legalizar as relações sexuais entre adultos e crianças do sexo masculino.

Verdade #4 – Violência doméstica contra as crianças facilita a cultura do estupro

gritar com filha

Agredir moralmente e fisicamente crianças, ainda que com intuito educativo (apesar da incoerência em se ensinar qualquer coisa por meio de um método violento) ensina a vergonha e o medo, respectivamente. Uma criança envergonhada, principalmente se for uma criança do sexo feminino, que é educada a evitar o descobrimento natural de sua própria sexualidade, que é punida por tocar seu clitóris desde os dois anos de idade ou menos (inclusive punida fisicamente enquanto meninos são incentivados a essa descoberta), dificilmente se sentirá confiante para relatar um abuso sexual. Uma criança fisicamente agredida dificilmente entenderá o abuso sexual como uma violência, isso porque a agressão física ensina as crianças que elas não têm direito sobre o próprio corpo, ensina que elas podem ser tocadas sem consentimento. Logo, a violência contra as crianças é um método muito eficaz para que as vítimas fiquem em silêncio.

 

Verdade #5 – A prostituição e a pornografia são a capitalização da cultura do estupro

ex-prostituta

Clique na imagem para ler o que Brenda Myers-Powell tem a dizer sobre prostituição.

Dica de amiga: se quer formar uma opinião justa a respeito deste tema ouça mulheres, mas evite as brancas e ricas, pois elas não representam a maioria das mulheres que passam pela situação. Nem de longe. Muitas mulheres que já estiveram na indústria do sexo como atrizes pornô ou prostituídas e que conseguiram sair dessa indústria relacionam a “profissão” ao fato de terem sido sexualmente abusadas na infância. Isso quer dizer que o consumo de prostituição e pornografia – mesmo aquelas pornografias em que as atrizes “sentem prazer” –  incentiva um mercado que se sustenta por meio de traumas sexuais infantis. Falando nisso, é bom lembrar que o nicho “pornografia infantil” é um dos mais lucrativos deste “mercado”, e este “nicho” não existe sem o abuso sexual infantil real: pesquisas indicam que 85% dos consumidores de pornografia infantil mantiveram contato sexual com crianças. Tampouco a pornografia infantil se sustenta sem a pornografia considerada legal: elas estão interligadas, seus consumidores são os mesmos: homens, majoritariamente, cada grupo com seu fetiche, unidos pelo direito que sentem em fetichizar – tornar um objeto – outro ser humano – mulheres e crianças em especial -, animais ou cadáveres. Se há algumas atrizes pornôs e mulheres prostituídas que afirmam vender seus corpos por escolha – e não é uma coincidência o fato de elas serem geralmente brancas, acadêmicas e ricas, como é o caso da Monique Prada -, também há aquelas que deixaram a “profissão” para mandar a real sobre a verdade oculta por trás das câmeras e da vida real das prostituídas. Da próxima vez que você assistir um pornozinho lésbico achando que está sendo super liberal e revolucionária, tente imaginar as atrizes garotinhas sendo abusadas por seus pais, padrastos e vizinhos. Lembre-se de que nos sets de gravação e nas bolsas das prostituídas existem sempre algum tipo de droga para que elas se alienem de seus corpos enquanto são estupradas: a droga é uma maneira de evitar a dor, essa mesma dor sem a qual essas mulheres têm a certeza de que não teriam comida em sua mesa. Lembre-se também de que aquela sua amiga lésbica que faz com que você se sinta tão “anti-homofóbica” por “ter uma amiga lésbica” possivelmente foi penetrada por alguém de seu convívio social para aprender a gostar de pênis, afinal não gostar de pênis é uma doença mental, fruto de um ódio incontrolável de pênis – ou mais precisamente fruto da inveja dele – que precisa ser corrigida com… estupro. Estupro corretivo. E atrizes lésbicas são obrigadas à penetração penetradas porque  este é o ganha-pão delas e não há nada que elas possam fazer sobre isso.

Verdade #6 – Corrigir lésbicas com penetração também é cultura do estupro

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Quem promove apologia ao estupro corretivo de lésbicas como “cura-gay”? Isso mesmo: homens de bem.

A maioria das meninas cuja orientação sexual é voltada para o mesmo sexo é forçada à heterossexualidade dentro de sua própria família. O número de lésbicas que nunca tiveram um relacionamento hétero é ínfimo se comparado ao número de gays que nunca namoraram meninas ou mulheres. A lesbianidade é uma proibição – e isto é uma questão política que será explicada nos próximos pontos – e as meninas ou mulheres que fogem às normas heterossexuais correm o risco de sofrer estupros corretivos promovidos pela própria família. Já ouvi relatos de primos que foram pagos por pais para fazerem sexo com a filha a fim de corrigirem a sexualidade das filhas. Bem como relatos – inclusive os meus – de mulheres que se lembram de terem tido orientação sexual voltada para a lesbianidade ainda meninas e que viveram toda uma vida se relacionando sem sucesso com homens – leia-se sendo estupradas por anos e anos – achando que tinham algum problema até entenderem que o problema na verdade não eram elas, não éramos nós, era a lesbofobia que não nos permitiu que fôssemos nós mesmas desde sempre, nos obrigando ao intercurso sexual heterossexual. Agora a pergunta que não quer calar: por que a “comunidade LGBT” não promove a luta contra o estupro corretivo? Porque ela é dominada por homens gays e homens não estão interessados em lutar contra o estupro, nem mesmo os gays. Homens gays também estupram.

Verdade #7 – Mulher VIP na balada é cavalheirismo e cavalheirismo também é cultura do estupro

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Baladas são ambientes de caça sexual para homens. O que parece um benefício – não pagar a entrada – é, na verdade, uma metodologia bastante eficaz de fazer vítimas. Homens gostam de pagar bebidas para as mulheres, não porque são gentis, mas porque sabem muito bem que a bebida alcoólica é um anestésico da consciência e torna tudo mais fácil para que eles alcancem seus objetivos: penetrar mulheres. Casas noturnas são ambientes propícios para colocar drogas nas bebidas e oferecê-las às mulheres que, após a ingestão, perdem a consciência e quando a recuperam se veem em um lugar desconhecido, sem roupa e com um homem nu e igualmente desconhecido deitado ao seu lado.

Verdade #8 – A psicanálise promove a cultura do estupro

tudo-isso-e-falta-de-piroca

“Freud explica” é meuzovário”

Freud descobriu que as suas pacientes tinham algo em comum: a maioria delas tinha sido abusada quando era criança. Ao se deparar com uma realidade que colocava em risco suas teorias – obviamente que colocava porque se ele tivesse sido honesto o rei ficaria nu e ele jamais teria construído seu legado com tão justa denúncia sobre a relação direta entre masculinidade e estupro de meninas -, sua alternativa foi inventar que as afirmações relacionadas a abuso sexual infantil relatadas por suas pacientes eram na verdade uma fantasia que suas memórias tinham criado devido a suposta –  suposta por ele, óbvio – incapacidade de pessoas do sexo feminino vivenciarem seus impulsos sexuais livremente.  Para Freud, as mulheres são naturalmente recalcadas e moralistas. O Complexo de Édipo é uma das maiores mentiras patriarcais já inventadas, podendo ser equiparada com o mito da mulher que veio da costela de um homem. Não é à toa que ambas se tratam de inversões dos dados reais, ou seja, de mentiras inventadas por homens para fins de manutenção da dominação das mulheres. Com o Complexo de Édipo, Freud afirmou que crianças desejam sexualmente seus pais e tornou viável uma teoria que pudesse embasar que vítimas de abuso sexual infantil são capazes de provocar os abusos porque os desejaram. Oras, é óbvio que crianças têm sim impulsos sexuais, não se trata de negar a sexualidade das crianças. Porém esses impulsos são naturais e saudáveis e estão relacionados aos seus próprios corpos, qualquer mãe que acompanhou a sexualidade natural de suas crianças sabe que os impulsos sexuais infantis não são orientados para outras pessoas, a menos que elas aprendam a direcionar esses impulsos por meio de abusos sexuais físicos ou simbólicos como exposição à pornografia. A psicanálise dividiu a humanidade entre O Sujeito e O Outro, sendo O Sujeito o homem produtor do conhecimento e O Outro (na verdade A Outra, A Mulher), objeto de estudo.  A sexualidade sem a cultura da dominação sexual masculina não faz dO Outro (a mulher, mais precisamente a mãe, aquela que tem seios) um objeto de desejo.  Não à toa Freud também considerava homossexualidade um desvio. Uma prova disso é a sexualidade lésbica ter sido motivo para internações em manicômios. Justamente a sexualidade em que não existe a hierarquia sexual. A lesbianidade era considerada histeria (histeria significa útero em latim) e uma das punições para lésbicas eram os manicômios, afinal rejeitar se submeter à dominação sexual masculina tem como uma de suas grandes punições o isolamento social, até mesmo porque a heterossexualidade obrigatória tem fins políticos e uma mulher que resiste à dominação masculina precisa ser isolada das demais por ser um perigo real aos objetivos políticos do patriarcado.

Verdade #9 – A violência obstétrica é um dos vetores da cultura do estupro

projeto violência obstétrica

foto por carla raiter // projeto 1:4 // clique na imagem para mais fotos

É muito comum gestantes ficarem nuas em salas geladas enquanto estão em trabalho de parto, e é tão comum quanto isto elas terem suas vaginas penetradas por dedos de diferentes pessoas – geralmente estudantes da área da saúde – com o intuito de medir a dilatação do colo do útero com intuito de manter “tudo sob controle”. Este tipo de procedimento deveria ser feito com o consentimento explícito e informado das parturientes, como qualquer outro procedimento, afinal, de acordo com o código de ética médica, o consentimento explícito e informado para todo e qualquer procedimento é necessário, exceto em situações em que os pacientes estejam correndo risco de morrer ou de perder um membro de seu corpo, o que obviamente não é o caso. Além do controle da dilatação realizado por meio de repetidas penetrações de diferentes pessoas, outro tipo de violência durante trabalho de parto que na maior parte das vezes ocorre sem o consentimento explícito e informado da mulher que pode ser considerada estupro é o rompimento da bolsa, procedimento doloroso que consiste na inserção de um instrumento dentro da vagina até a bolsa do líquido amniótico estourar, também com intuito de controle do processo do parto. Tais intervenções são desnecessárias e isto não é opinião, já é ciência hoje. O que só comprova que, mesmo que conhecimentos a favor das mulheres sejam produzidos dentro da Academia, esta é uma instituição que se coloca contra as evidências científicas quando estas não estão de acordo com as políticas dos homens da qual a cultura do estupro faz parte.

Verdade #10 – O objetivo da cultura do estupro é a maternidade compulsória

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A direita tem uma agenda política. Uma das pautas da agenda política da direita é manter mulheres grávidas dentro de suas casas enquanto homens vão para a guerra. Isso poderia ser uma invenção da minha mente fértil, mas é uma frase do Ronald Reagan (lembrada de cabeça) denunciada pela Andrea Dworkin em seu discurso sobre estupro feito em uma conferência para a qual ela foi convidada a discorrer para uma plateia majoritariamente composta por homens sobre o que o feminismo espera do movimento dos homens. Seu pedido foi muito simples: eu quero vinte e quatro horas sem estupro. A questão é: por que é tão difícil conseguirmos um dia, um só dia, que mulheres possam sair às ruas ou entrar em suas casas sem o medo de serem sexualmente assediadas ou forçadas ao ato sexual? A resposta é óbvia apesar de estar distante da percepção da maioria das mulheres: porque o estupro é uma das grandes ferramentas da política da direita. A extrema-direta, por exemplo, pode muito bem ser representada pelas instituições religiosas dominantes – ou seja, cristãs -, e a maior representante da moral cristã – a Igreja Católica – ainda considera errado o uso de preservativos. É pecado, segundo a moral católica, o uso de preservativos. É pecado, porque sexo bom é o sexo reprodutivo apesar de sabermos que essa moral só vale para metade da população: a que nasceu com útero.

bolsonaro

E isso não é uma coincidência. A moral sexual cristã é a base da política da direita, é o projeto que prevê aos homens que sejam soldados da direita e às mulheres que sejam reprodutoras destes, mesmo que tais soldados desejem o fim da PM e se autodeclarem de esquerda. Portanto a cultura de estupro é a verdadeira política da direita. A cultura do estupro garante a maternidade compulsória e, com isso, garante que mulheres sejam isoladas da sociedade. A cultura de estupro foi e é uma ferramenta de guerra, portanto de colonização. E ela não poderá ser combatida em sua totalidade se o combate a ela não levar em conta todos os dez pontos citados neste post. Eu gostaria que a luta não precisasse ser tão dura. Mas a realidade é esta e negá-la não vai alterá-la.

Se não agora, quando? Se não por nós, por quem?

Esta última frase não é minha e eu não lembro a autoria, mas me identifiquei muito. Fica aí a reflexão.

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13 Respostas para “10 verdades sobre a cultura do estupro que você precisa saber”

  1. MelÉvola

    Profundamente perturbada por em um só texto você colocar todo o condicionamento da mulher dentro do sistema patriarcal. Tou abalada. Nauseada e sem forças. #elasporelas #morteaopatriarcado #aboliçãodogénero

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  2. lorena

    Moça, a Emma Watson disse mais ou menos isso (se não eu, quem? se não agora, quando?) no discurso dela na ONU mulheres. Não sei se a frase é dela, mas não lembro dela dando nenhuma fonte. 🙂

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  3. cabralerika

    Texto muito bom! Reflexões que abalam nossas mais profundas ideologias!

    Só gostaria de fazer uma reflexão. Que a psicanálise é uma teoria que reproduz a opressão contra a mulheres é fato. Mas não acho que Freud fez isso por desonestidade consciente. Freud como Homem, branco, inserido numa sociedade machista, simplesmente não conseguiu ir para fora da caixa para ver as coisas com outros olhos. Errou sim. Errou feio. Seu erro ajudou a perpetuar e até a aumentar a violência contra as mulheres.
    Devemos sim anunciar para todos sobre esses erros da psicanálise, esclarecer as pessoas e mostrar a verdade. Porque sabemos o quanto os seus postulados passaram a fazer parte da cultura. E o quanto isso perpetua o machismo.
    Freud foi um machista nojento sim. Sua teoria é um resultado disso. Mas ele acreditada realmente no que disse/escreveu. Não agiu com desonestidade intelectual, que é quando a pessoa tem consciência da realidade mas mesmo assim deturpa com interesses próprios. Assim o fez porque na cabeça pequena dele, a realidade era essa.

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    • milfwtf

      Isto não confere, cabralerika. Você pressupõe a inocência dele, mas o fato é que ele se deu conta do quanto a verdade poderia ser perigosa para suas finanças e sua reputação perante outros homens. E a verdade que ele encontrou é a que até hoje é escondida: a maioria dos traumas femininos têm relação com a nossa sexualidade roubada na infância. Eu não concordo com a ideia de que homens sejam misóginos por falta de consciência ou por causa da tradição de uma época. Isso é naturalizar a misoginia. Ele não tava inserido numa sociedade machista, ele era sujeito do machismo na sociedade, ele era essa sociedade. O machismo não é uma ideologia separada de materialidade e nem de intenção. Tudo o que ele produziu foi intencional sim, do mesmo modo que as mentiras produzidas pelos escritores da bíblia. Aliás existe uma semelhança muito forte entre bíblia e psicanálise. A sacralização da mãe pela religião é muito semelhante à fetichização da mãe pela psicanálise que a tornou objeto de desejo dos bebês, como se bebês fossem capazes de objetificar qualquer pessoa: quem faz isso são homens. Freud sabia muito bem o que ele estava fazendo. Todos os homens sabem o que querem: continuar explorando mulheres sexual e laboralmente. Isso nos exclui da produção de conhecimento e permite a perpetuação da produção de conhecimento patriarcal. Freud lançou seu olhar sobre vínculo entre mãe e filhos sabendo o quanto isso era poderoso e assim ele controlou quase tudo, deu tudo de mao beijada pra psiquiatria lucrar com a patologização dos corpos femininos. Não era inocência não. Era pensamento estratégico puríssimo. Ele não errou. Ele acertou em cheio e é por isso que se tornou um imortal na história do pensamento humano. Ele acertou. A gente tem que entender isso, parar com essa ingenuidade. O fato de as mulheres até hoje estarem excluídas da literatura se dá pelos acertos estratégicos dos homens ao longo da história do pensamento humano. E eu não tô falando de acerto no sentido de certo e errado do ponto de vista moral, mas do ponto de vista de metodologia para se atingir um fim. Os homens vêm acertado desde o início do patriarcado em suas estratégias para manter as mulheres em silêncio. Não, eles não “erraram sem querer”, é muita inocência mesmo achar isso. Vocr vai me dizer: ah, mas temos mulheres na literatura hoje em dia sim. Onde estão as histórias de estupro na literatura? Onde estão as histórias de violência doméstica na literatura? Onde estão as histórias de transtornos mentais contadas pela perspectiva das mulheres na literatura? Por que Nietzsche, considerado “louco”, é considerado um gênio até hoje (e Freud bebeu de sua obra), mas as mulheres loucas têm suas vozes apagadas da história? Pensa nisso. 🙂

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  4. ana laura (@_euanalua)

    Adorei o texto muito bom. Gostaria de ressaltar que, apesar de Freud ter sido o pioneiro existem outros pensadores mais atuais com diferentes tipos de abordagem para com as mulheres e mesmo assim continuam dentro da Psicanálise. Sou estudante de Psicologia e concordo plenamente que Freud nasceu, morreu e desenvolveu suas pesquisas sendo machista, no entanto não podemos resumir toda a teoria da Psicanalise só em Freud. Logo não é a Psicanalise que contribui para a cultura do estupro, mas sim determinadas partes da teoria Freudiana. Beijos a todas as irmãs.

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    • milfwtf

      Oi, Ana Laura! Também estudo psi (autoditada) e a linha que gosto é a da Alice Miller e da Karen Horney (conhece?). A psicanálise não é só freudiana isso é verdade, porém, a linha mais utilizada institucionalmente tem a linhagem dele. Dele, de Lacan e atualmente dos teóricos queer que atualizam as teorias do freud com roupagens pós-modernas e juram que isso é feminismo. Então analisando de um modo sistemático e estrutural, freud ainda é o primeiro pensador que vem a mente quando se fala em psicanálise até pra quem não sabe nada de psicanálise. O ditado “freud explica” é um exemplo de como ele é endeusado pelo seu legado. Beijo!

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  5. helenafialho

    Caramba, que texto!
    Lembro de vc do grupo Cesárea, não obrigada, acho que estivemos grávidas na mesma época, eu era leitora assídua e conheci seu blog…acabei esquecendo e agora lendo o Escreva, Lola, voltei a visitar.
    Estou inebriada c tantos textos maravilhosos.
    Sou psicóloga, negra e venho com uma amiga pensando e tentando construir (ao fazer) uma forma de acompanhar mulheres apesar de nossa formação eurocêntrica e machista na faculdade de psicologia (apesar de termos nos formado em uma excelente universidade, crítica, etc).
    É difícil. Mt difícil.
    É artesanal e, a cada encontro com nossas clientes, vamos conversando e tentando pontuar os limites de nossa prática, onde machista, onde racista, onde invasiva, onde potencializadora de vida e libertação.
    Não é fácil.
    Agradeço a oportunidade de reflexão aqui no seu blog.
    Se quiser conversar sobre, refletir junto, helena.fialho@hotmail.com.

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    • milfwtf

      Nossa, quero muito! Assim que eu conseguir um tempo vou te mandar um email sim porque me sinto bem só nessa empreitada e isso às vezes me faz duvidar da minha percepção. Obrigada pelo teu comentário e que bom que você me reencontrou. É nóis!

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