Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Desconstrução de uma hierarquia

Ou: reencontro com uma potência

Como ele ousava? Havia perguntado a ela a pergunta calada que ela mesma possuía. Como ele ousava encostar-lhe tão fundo? Ecoava: por que escrever? por que escrever? E ela fitava aqueles olhos de quem era tão viciado em si mesmo desde há muito, olhava aqueles olhos por trás dos óculos, aqueles olhos estetas.
Uma dúvida. Uma dúvida ele gerava com seu ar de certeza de que ela não tinha uma boa resposta pra dar. Uma dúvida que doía gelada como os pés no frio batendo em alguma quina.
Ela fitava-o tentando lembrar-se do que sentia, mas ele a tirava de seu eixo, ela era duas e ambas estavam embaralhadas, procurando: onde está? onde está? Aflita procurava a nervosa resposta e tudo o que via era branco. Via a mesa, via o computador, via os papéis, voltava seus olhos para os olhos dele; como quem procurava uma vaga lembrança daquilo que sempre imaginava saber.
O que diria a ele? Pois não podia dizer a verdade, ele nunca compreenderia, eles nunca compreendem e disso ela já sabia.
Com um tranco voltava-se a si ainda um pouco insegura. Ela sabia o motivo de escrever, sabia um pouco embora a cada dia que passasse ela também sabia que agregaria novas palavras e novos sentidos às conclusões dos porquês de ser uma mulher que escreve. Os motivos nunca terminavam, sempre ela descobria mais e mais motivos.
Respondeu-lhe para que ele entendesse que ela tinha uma resposta embora estivesse ainda organizando os pensamentos antes que eles virassem som em sua boca: não sei, ah… Como se buscasse as palavras certas e cambaleantes. E o silêncio penetrava seus ouvidos apesar do movimento lento e ruidoso que ali se mantinha, do lado de fora do setor de redação.
Ele, num riso de bom-vivã, num riso de quem pensava conhecer todos os sabores e os dissabores da vida e como se estivesse morto e santificado por já ter vivido tudo chegando a estar agora apenas desfrutando do grande prazer sem nenhuma dor crônica ou aguda de olhar pra si e se desconhecer, de olhar pro mundo e perguntar “por quê?”, olhava-a pupila como se ela estivesse a aprender a subir mansamente e um pouco louca uma escada. Ele a olhava da metade da escada desconhecendo sua própria posição. Pensava estar no topo, sentia estar no topo, seu cargo lhe dava essa sensação, sua posição social lhe dava essa sensação. Mas ele estava no meio e não sabia disso. Sua arrogância o limitava. E ela um pouco confusa percebia o que ele sentia, o que ele achava, que estava no topo. Confusa porque percebia sem poder dizer a si que sua percepção era uma certeza – ela achava que isso era uma intuição – de que sim, ele estava no meio achando estar no topo porque ele escrevia por fama e dinheiro e não por sobrevivência enquanto achava que ela mal tinha começado a subir os degraus, como se ela precisasse aprender algo que ele tinha a ensinar a ela. Como confiar em alguém tão estupidamente arrogante, alguém que mal a enxergava como a sobrevivente que era?
Perplexa ela ainda o admirava sem saber por que, parecia ser uma admiração compulsiva. Ainda que ele estivesse no meio da escada achando que ela ainda não tinha começado a subir, ela sabia que já havia passado dos primeiros degraus há tempos. Mas ainda imaginava estar abaixo dele, antes do meio. Então ele estava acima dela mesmo que ainda não no topo. De repente pensou que a escada talvez fosse uma invenção de sua cabeça, de sua cabeça não, de uma cultura que antecedia seu nascimento. E foi tomada por uma epifania: talvez a imagem certa não fosse uma escada e sim um buraco onde quanto mais se caísse mais fundo estaria e quanto mais fundo estivesse mais terra molhada e fértil teria para jogar na superfície que era o papel. Cair não, cair ele não tinha caído, ele não entendia nada de buracos, só de escadas. A força do mundo, para ele, estava em subir, a potência do mundo para ele era uma subida, e ela acabara de descobrir que ambos eram opostos e que ela além da subida conhecia a descida e ele não tinha a mais vaga ideia do que significava descer, portanto ela tinha muito mais matéria-prima para trabalhar do que ele.
Sorriu tão certa de si que agora a dúvida havia sido transferida para ele. E você, escreve por quê? Perguntou enigmática, curvando a cabeça para a esquerda, queixo erguido, sobrancelhas erguidas como quem dizia: xeque-mate. Ao pensar na palavra buraco pensou em tudo o que ele não sabia, e este breve pensamento elevou-a ao topo da escada. Ela invertera a sensação de impotência e de dúvida que ele havia lhe causado, duvidoso e impotente agora estava ele que, diante do ar de certeza dela, se desconfigurou como alguém que esquece de fechar a porta do banheiro e é pego em flagrante com as calças no joelho.
Preciso ir ao banheiro – disse ele sem responder.  E nunca mais ousou tentar constranger aquela mulher que escrevia.

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