Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

A língua é meu machado de cortar falocentrismo

De: mãe lésbica

Para: todas as mulheres brasileiras do século XXI que sofreram, sofrem ou sofrerão assédio moral por motivos políticos, assédio especialmente vindo de feministas (mais conhecido como trashing)

Se eu pudesse dar um conselho às mães brasileiras, se eu tivesse algum título para isso, se eu tivesse, hum, digamos, algum poder de influenciar nas decisões de algumas das mulheres que são mães e que me leem, nas decisões que têm a fazer em suas vidas particulares, se eu pudesse ser um “cavalo de troia” a invadir a mente das mulheres com palavras de libertação (não de liberdade porque liberdade não existe na materialidade para as mulheres, só para os homens brancos a potência existencial é plena), neste exato momento eu diria: mães, não esperem pelo amor de seus filhos do sexo masculino. Eu posso até soar preconceituosa, mas a minha análise é baseada em estatísticas e em análises políticas próprias, portanto não é preconceito, é pós-conceito. Sim, eu posso fazer uma análise sobre machos sim, afinal machos vêm analisando (literária e psicanaliticamente) mulheres desde os primeiros livros escritos. Desde a Bíblia machos vêm criando identidades para as mulheres (mãe e puta, as únicas identidades possíveis às mulheres dentro do regime político da heterossexualidade. Não foram os machos (brancos) que, inspirados pelo “Deus Masculino”, legislaram sobre os Direitos Reprodutivos retirando das mulheres a potência de decidir se a humanidade prossegue ou acaba? Sim, foram.

Foram eles que sequestraram as potências reprodutivas das mulheres, e não só isso, foram eles que queimaram mulheres na fogueira e também seus livros condenando-nos ao silêncio enquanto eles buscam a imortalidade. Aliás a imortalidade é uma busca militar, se não me engano. A imortalidade da cultura masculina se dá por meio do extermínio da cultura feminina. Daí tão poucas poetas mulheres nas prateleiras das livrarias em um país onde um livro de poesia (do Paulo Leminski) desbancou aquele best seller misógino chamado 50 Tons de Cinza. Sim, eu posso fazer uma análise sobre o colonizador. Sou mulher e sou brasileira, sou latinoamericana, tenho o direito de escrever sobre colonização. Como poeta tenho esse direito que ninguém vai me dar de graça. Tô aqui pra tomar.

Pois então. O que eu tenho a dizer às mães é algo muito óbvio. É um conselho que vocês podem seguir ou não. Lembrem-se bem do conselho: é sobre não esperar amor de seus filhos do sexo masculino. Mas na verdade nada isso tem a ver com seus filhos. Desculpem a brincadeira, na verdade isso tem a ver com esperar amor. De qualquer pessoa. Tem a ver com espera e passividade. Tem a ver com desesperança. Tem a ver com traumas. Com mágoas. Com ódios guardados que não podem sair da garganta porque a herança das mulheres, literariamente (sim, de literatura mesmo, tô falando de arte, de poesia, cinema, música), é uma herança de silêncio, de apagamento, de Esquecimento Compulsório, como bem definiu uma amiga militante. Tem a ver com ser obrigada a esquecer para sobreviver. Esquecer do quê? Dos abusos cometidos por parentes próximos, talvez? Tem a ver com ter esperado demais do mundo de dentro da profundidade de significado do que é ser inocente e humana, uma simples garota de treze anos assustada dentro de seu quarto escuro.

Tem a ver com feminilidade.

Tem  a ver com vestidinho pra ficar bonitinha lacinho no cabelinho quietinha seja dócil pernas fechadas fala baixo não grita tapa na boca tapa na cabeça tapa na cara tapa na bunda beliscão puxão de cabelo lava a louça faz comida cala a boca vadia. Tem a ver com a socialização específica das AFABs, pessoas designadas fêmeas no nascimento . Tem a ver com a mensagem que eu quero passar. Tem a ver com quebrar correntes. De verdade. Nada de joguinhos de ilusão que o heteropatriarcado adora impor às mulheres. Nada dessa mentira de que existe ou existiu liberdade sexual para mulheres. Liberdade sexual dentro de um regime heterossexual pelo menos para mim nunca existiu. Só piorou a minha condição, veja bem.

Então eu tenho um conselho e é este.

Destruam a feminilidade. Não a feminilidade de passar batom e colocar vestido, afinal de que importa mudar isso se não for a partir de um desejo interno? Um desejo que geralmente quem tem são aquelas que sempre foram oprimidas pela obrigação da depilação, por exemplo. Depilação é tortura, dói, machuca, irrita. Pra algumas é assim. Muitos pelos. Pele sensível a gilete ou cera. Cosméticos. Hidratantes. Preguiça de tudo isso. O que importa a roupa, gente? O que importa se usamos ou não usamos batom, se usamos ou não usamos vestido, se usamos ou não usamos o que nos foi imposto? Ah, sim, problematizar para compreender que não tivemos de fato escolhaa é necessário. Mas ter problematizado não significa – pelo menos não necessariamente – que devemos fazer isto ou aquilo, que devemos deixar de fazer isto ou aquilo, muito pelo contrário. Problematizar é entender se aquilo a que temos sido obrigadas a fazer nos traz sensação de estarmos guiando nossos próprios passos ou não. Problematizar é se posicionar politicamente para compreender a própria realidade e a partir dessa compreensão tomar decisões. As decisões são, sim, individuais, porém o sistema a que estamos submetidas age sobre nós. Compreender limites e potências é dolorido e libertador ao mesmo tempo.

Eu, por exemplo, entendi que estou massacrada. Como mulher, mãe, lésbica, como uma pessoa que não vive mais na periferia mas que foi moldada dentro dela por um homem que tinha só até a quarta-série e uma mulher que só terminou o Ensino Médio pois eu ganhei uma bolsa de estudos em um sorteio na rádio para a minha mãe, eu estou massacrada pelo poder. Minhas potências foram tolhidas, têm sido tolhidas, principalmente agora com a maternidade. Não pelo meu filho, mas pela sociedade que me condena ao isolamento. Pela sociedade de mães que me isolam politicamente e reprimem minhas lutas, me expõem publicamente e me caluniam. Porque para elas eu não sou ninguém, vulgo não tenho status social, não tenho um networking poderoso, não tenho influência, não tenho um livro escrito, não tenho título de mestra ou de doutora. Porque para elas a minha poesia que grita por libertação e nada pra elas dá na mesma.

Roupas? Vocês querem falar de roupas? De passar batom? De azul ou rosa?

Eu quero falar de destruir o sistema que me destrói.

Destruam a feminilidade. Para algumas fará sentido mudar roupas e cuidados com o corpo, para outras fará sentido tomar uma postura de mulher incalável, é o que vem acontecido comigo. Tenho “falado compulsivamente” pra compensar o que me é imposto. O que é imposto socialmente, sistematicamente, estruturalmente às mulheres do mundo inteiro. E tenho escrito também. O silêncio não vai proteger a gente, Audre Lorde, poeta, disse: o silêncio não vai te proteger.

Repete: o silêncio não vai te proteger. Mais uma vez: o silêncio não vai te proteger.

Então escreva. Seja autora e protagonista da tua história.

Não espere. Escreva. Escreva as tuas defesas. Publique. Registre. Escreva cartas, escreva e-mails, escreva para mulheres, escreva entre mulheres, escreva, escreva, escreva. Produza conhecimento a partir da sua língua.

Destrua a feminilidade e torne-se a deusa de sua própria língua. Com as limitações do patriarcado mas ainda asism deusa. Aquela que com o próprio corpo deixa uma história única no mundo para as gerações futuras. Narre e defenda a sua própria percepção dos fatos. Registre-se. Faça-se ouvir. Grite se for preciso.

Este é o conselho.

Não que meu conselho valha de alguma coisa, quem sou eu? Títulos não tenho (sou professora de literatura não praticante rs) para que o que eu diga tenha credibilidade perante as instituições que guiam (ou não, espero) o pensamento de vocês. Embora eu nunca tenha precisado que mulheres me apresentassem seus títulos para que suas ideias tivessem valor diante de mim. Tem essa também. Lésbicas estão condenadas a enxergar mulheres em profundidade e nunca serem vistas. Que posso fazer eu se vivo focada em mulheres afetivamente, e tenho ideias que partem deste foco? Ideias de que mulheres são gente e que têm o direito de escrever e de serem lidas sem calúnias e difamações. Que posso fazer eu se a maior prova disso foi o meu parto domiciliar, um espaço composto exclusivamente por mulheres além do meu filho de AMAB (designados macho no nascimento)? Que posso fazer se sou uma mulher que gozou no parto e não vai esconder isso da sociedade? Uma mulher que se negou a se submeter a dominação masculina no momento de parir, saindo de um relacionamento abusivo e encontrando um mundo de sucessivas lutas diante de si? Por pensão, por exemplo? Que posso fazer eu se encontrei um monte de mãe alucinada com a maternidade e tendo de dar conta de tudo ao mesmo tempo e lutando pelos direitos de suas crianças tendo sido eu uma criança extremamente abusada que precisava da legitimação da minha história por outras mães, diferentes da minha? Que posso fazer eu se fui vítima de pedofilia? Que posso fazer se estou sendo processada por ter exposto um estuprador? Que  posso fazer eu se tenho muito pra falar? Que posso fazer eu se sou sistematicamente impedida de dizer o que tenho a dizer? Que posso fazer se sou perseguida e caluniada diante dos olhos de tanta gente dentro desta porcaria que é o movimento feminista brasileiro, um movimento que se presta a ser o braço direito da Direita, caluniada por uma mulher que poderia ser minha colega de profissão se por acaso eu não tivesse sido chutada do Mercado Publicitário por estar grávida? Que posso fazer se sou uma mãe lésbica inconformada com a política de identidades invadindo cursos de Pedagogia e já tomando as escolas sem uma discussão na sociedade a respeito, pior, com repressão a essa discussão, com repressão a mulheres querendo falar de educação e de política para as mulheres? Que posso fazer se sei que pedófilos vão se passar por personagens de desenho animado para abusar das nossas crianças e ninguém fala disso porque… por quê? Que posso fazer eu se sou mãe de um menino que tem dois anos e que já diz que é um menino? Que posso fazer eu se sou mãe de um menino que não é tolhido em seu direito de chorar e nem impedido de usar algo como um vestido se assim ele desejar? Que posso fazer eu se eu sou (quase) tudo o que vocês querem manter calada? Que posso fazer eu enquanto vejo vocês me jogando pra debaixo do tapete como a sujeira que não pode ser vista? A sujeira não está em mim, eu digo. E eu digo mais: eu digo que eu posso fazer algo a respeito da atitude de vocês de me colocarem no “cantinho do pensamento”. Essa atitude que não é individual, mas sistemática. Vocês acham que suas decisões a meu respeito são particulares, individuais?

Vou parar de falar com ela, de dar bola, não quero me envolver com esse “problema”.

Eu sou um problema, estou acostumada a ser um problema.

Mas eu sou aquela moça diagnosticada com TDAH que rejeitou o diagnóstico antes de ler a notícia de que o o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade foram inventados depois de inventado o metilfenidato. Rejeitei a partir de minha própria consciência porque o metilfenidato me fez parar de escrever. Se o metilfenidato não me calou, vocês acham mesmo que alguém nessa vida vai me calar se não for com um tiro no meio da testa?

A decisão de me isolar politicamente não foi de vocês, individualmente. Ela é fruto de um sistema de pensamento ao qual vocês querem que eu me submeta e eu não vou me submeter! Por não me submeter, isolamento. Vocês não admitem que exista uma “mulher que odeia” entre vocês. Vocês me chamam de doente, me sugerem tratamento psicológico. Mal sabem que eu devorei todos os pensadores, inclusive psicanalistas, inclusive mulheres psicanalistas, para que eu pudesse ter autoconhecimento. Não é necessário pagar um analista pra entender que o que come a minha mente são os traumas que homens me causaram sistematicamente. Esses mesmos traumas sobre os quais eu não posso falar, senão sou vitimista. Não é assim que vocês me chamam quando eu falo de pedofilia? Não, melhor. Vocês falam que eu me sinto superior por ter sido abusada. Vocês são sádicas, colaboracionistas de macho. Eu não vou me calar, eu não vou deixar de dizer o que eu vejo para que o status (fodam-se os seus títulos!) de vocês seja mantido, eu não vou mais fazer de conta que não estou vendo a omissão de vocês a violências que tenho sofrido diante dos seus olhos. Lesbofobia, misoginia, silenciamento à vítima de pedofilia. Por que vocês não fazem nada? Por que não metem a colher?

É então prejudicial ter uma mulher que não se cala ao lado de vocês? Vocês têm medo? De mim? Ou têm medo de entrar em contato com as próprias dores? Me ler é de certa forma olhar para dentro, certo? Vocês têm medo do labirinto? Da tontura? Da náusea? Pois eu não: ela é a minha matéria-prima.

Vejam bem, esta é uma conversa de mãe para mãe, como vocês devem ter bem percebido.

Vocês não estão sendo omissas comigo somente, vocês estão sendo omissas consigo mesmas (motivo original – passividade – omissão – auto-desprezo), vocês estão sendo omissas com as filhas e sobrinhas de vocês, com as alunas de vocês, com as garotas que foram prostituídas e seus aliciadores inocentados porque disseram “eram prostitutas” quando eram na verdade vulneráveis. Vulneráveis. Vocês, quando viram a cara e não empunham suas mãos ao lado das minhas, estão sendo omissas comigo e com todas as meninas da sociedade que estão hoje agora nesse exato minuto sendo estupradas por homens. Aí na sua rua, já pensou nisso?

Vocês acharam que o meu texto ia ser suave? Um texto de amor?

Bem o contrário, não é?

Porque dócil, dócil eu não sou.

Desculpem, eu vivo nessas ondas, nesses picos, e por isso escrevo. Pra colocar pra fora o ódio que vocês dizem que eu tenho que engolir (tal qual o choro) como se esse ódio fosse um perigo à sociedade. O meu ódio, eu digo a vocês que me calam, é pura poesia. E é poesia que precisa ser escrita.

E se vocês continuarem calando (fazer de conta que não ouve é ok, mas me caluniar não é e na próxima notícia prometo me defender de forma muito mais incisiva do que me defendi da última vez) não terei o menor pudor em nomear vocês como desgraçadas, como feministas colaboracionistas de macho, como aquelas que não permitiram a uma escritora que ela inserisse pedofilia, estupro e ódio em suas obras literárias.

Mas aí o recado já não é mais pras mães e sim para as feministas liberais.

E não é mais somente às feministas liberais mas também a qualquer macho que estiver tentando barrar as verdades que eu tenho pra contar sobre o meu corpo e sobre os corpos das mulheres desde o início dos tempos.

A poeta não vai pedir licença pra passar.

A língua é meu machado de cortar falocentrismo.

E isso é tudo. Por enquanto.

Obs¹: o texto foi escrito para mães, mas é dedicado a todas as mulheres porque a maternidade é compulsória.

Obs²: depois de escrevê-lo senti muita, muita náusea, tontura, o mundo girava e eu tinha de manter o equilíbrio pois precisava dar banho no meu filho, escovar seus dentes e colocá-lo para dormir. Muito semelhante à sensação que tenho após ler em um carro em movimento. Não que essa informação seja importante, apenas senti vontade de registrá-la. O mundo gira!

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2 Respostas para “A língua é meu machado de cortar falocentrismo”

  1. Henrique Mafra

    Ouço sua voz e a escuto, de fato, como o grito acumulado por milênios de silenciamento e milhões de mutiladas e mortas, simbólica ou literalmente, por se insurgirem contra o falocentrismo e a cultura patriarcal. Não há como ser uma voz suave. Não há como esperar sutileza e compaixão e, até, a compreensão de que possam existir homens também vitimados pelo mesmo mal e que não encontram espaço para, simplesmente, estar ao lado de suas irmãs e tentar construir um mundo diferente… Não tenho esperança desse aceno vindo de você para mim. Não nego que o deseje. Mas não nutro esperança. E tão somente por compreender que você cumpre um papel fundamental: ser esse monólito imenso no meio da planície dos sem posição; ser o espinho cravado na consciência dos hipócritas; ser o machado que fende nosso escudo comodista…
    Como já disse num comentário a outro texto seu, mais recente, respeito a demarcação imposta por você ao seu campo de luta. Mas não consigo me furtar a revelar minha admiração. Seria covardia da minha parte.
    Não me dou o direito de chamá-la amiga. Mas a reconheço irmã na nossa humanidade e assim lhe envio minha saudação.
    Força, que a paz ainda demora…

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