Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Um conto sobre Déficit de Atenção

Entrou no quarto fechando a porta atrás de si sem perceber que seu pai estava ali dentro. Quando se virou, o estômago congelou e o coração parecia ter parado de bater. Seu pai fez sinal de silêncio e não tinha nada que ela pudesse fazer além de obedecer e fingir, mais uma vez, que não estava ali, que aquele corpo sendo penetrado com ódio não era seu, que aquilo era só uma alucinação, uma viagem, uma bad trip, ia passar. Enquanto não passava, Alice fixava seus olhos no crucifixo que havia sido pregado naquela parede antes dos pesadelos começarem. Não que ela acreditasse em ressurreição ou qualquer coisa assim, mas o crucifixo pregado na parede, durante a violência, era o ponto fixo que permitia a ela sair da cena, desdobrar-se para fora de seu corpo. Para onde sua mente viajava enquanto olhava o crucifixo não se sabe. Se houvesse no quarto uma câmera capaz de enquadrar somente seus olhos, deixando de fora do quadro o que se passava com o restante de seu corpo, qualquer pessoa que assistisse ao tape notaria que havia quilômetros e quilômetros de distância entre seus olhos e aquilo que ela olhava, ainda que o crucifixo estivesse ali, logo ali, em cima da cama. Ela estava sim, distante, muito mais além do que o crucifixo, a parede, os cômodos atrás da parede, a rua, a floresta, os mares, o planeta, a via-láctea. Alice estava morta sem ter morrido. Enquanto tudo acontece – afinal nem eu e nem você nos importamos em fazer com que o pai de Alice pare -, sinto-me na obrigação de contar-lhes sobre o dia da pregação. Do crucifixo na parede. Alice tinha lá seus quatro anos. Seu pai pediu-lhe que pegasse o martelo, pois ele iria dar a ela um presente para que ela tivesse mais proteção divina. Foi assim que ele pregou ali o crucifixo, prometendo-lhe proteção. Três anos depois do crucifixo pregado na parede tudo começou. Primeiro era o segredo: papai faz carinho assim em você porque te ama, você gosta? Criança, amoral, gostava sim de ser tocada onde nem mesmo ela podia, mas ao mesmo tempo pressentia algo de sinistro naquilo tudo. Foi piorando conforme o tempo foi passando. Vou contar pra sua mãe que você é uma cadelinha safada que adora que eu me esfregue em você se não me deixar meter em você, safada, porca, putinha imunda! E ao dizer um resignado e infantil “tá bom, pai”, olhou para cima e viu o crucifixo. Enquanto olhava para o crucifixo lembrava-se de seu pai dizendo que aquilo iria proteger-lhe, então por que não protegia agora? Tudo o que ela havia aprendido com a vida desde o seu nascimento caía por terra ali, naquele quarto, junto com o que aquele crucifixo significava para ela. Fora do quarto, ela repetia o mesmo olhar distante diversas vezes ao dia. Isso irritava sua mãe, que vivia pedindo para Alice prestar atenção enquanto ela falava. Alice vivia distante. Foi levada ao psiquiatra, que alegou tratar-se de déficit de atenção. Um remédio tarja preta seria a solução de acordo com o médico. O mesmo médico que estuprava calouras na faculdade onde lecionava.

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