Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Recusa de uma herança

Helena tinha um problema: sempre que precisava se adaptar a uma nova situação – e isso acontecia com certa frequência – dava um branco nela e dentro desse branco ela se via perdida no meio de tantos pensamentos rápidos que cortavam sua mente linear de um lado para o outro, sem que um esperasse o outro enfim se completar, se fazer compreendido, como rápidos raios cuspidos pelas conexões neurais, a famosa tempestade de ideias era “seu problema”. Assustava-se depois de terminada: que foi isso¿ Estou exausta. E quando dava por si, quando voltava ao seu eixo, ia conferir se a porta estava trancada, mas ai.

Ai, ai.

Onde é que estavam as chaves¿ Drummond vinha-lhe à cabeça. Eu trouxe, eu trouxe! Onde estão¿ Que burra sou. Perdi as chaves. E ficava com esta impressão sufocando-lhe o peito: burra, burra, burra…

As chaves haviam se perdido durante a tempestade de ideias. As tempestades sempre traziam esse apagamento momentâneo da realidade. Não era algo que pudesse lhe ser perigoso, mas a incomodava porque refletia sobre si mesma e cismava: ela tinha um defeito, que era, obviamente, perder as chaves dentro de casa. Assim, como se coisa ela fosse: defeito. Espera, então. Chega mais perto que contarei um segredo. Um pouco mais. Assim está bom. De repente falava consigo mesma dentro de sua mente de mulher. Suavemente Helena deixou que sua voz saísse sussurrada pelo vento que foi acolhido por sua face depois de ser soprado por entre as folhas das árvores, assim, como se ela fosse feita pra ser livre, boca aberta, natural como um animal humano raciocinando, criando, o pensamento sonoro solto saindo de seu hálito: Helena, coisa você não é. Permitiu que saíssem as palavras de seus lábios bem suavemente, quase inaudíveis para não serem ouvidas pelas paredes que sempre a cercavam com seus juízes impiedosos, para logo depois aterrorizar-se pelo que havia dito. Aterrorizou-se, o coração a galope no peito, rios gelados percorrendo o abdômen. De onde é que tinha vindo esse segredo¿ Das árvores¿

O enigma para Helena estava no galope do peito, nos rios gelados que percorriam os arredores do estômago, nos olhos de terror que se comprimiam enquanto as pupilas pequeniníssimas pela luz ofuscante do sol do meio dia entravam-lhe pelas retinas e esturricavam em contrações mínimas dentro de seus olhos negros. Tateava as lembranças tentando lembrar-se dos trajetos que seu pensamento havia percorrido dentro de sua mente no momento em que a mão soltava a chave esquecida de si mesma em algum lugar da realidade que ela, naquele instante, tomada pelo instinto de sobrevivência, era separada feito uma rachadura em terra seca, que a desdobrava de si mesma, tornando-se a encarnação da ausência.  A tempestade de ideias fazia com que ela tivesse acesso a uma realidade paralela, o que era aquilo, uma viagem no tempo em que a mente era desligada¿ Dava branco. Para que lugar de si mesma durante a tempestade de ideias ela havia viajado que dentro de tal instante ela parecia ser estrangeira em seu próprio corpo¿ Os pensamentos começavam a tomar forma, tecido, rede, similaridades começavam a ser percebidas entre as coisas ditas do mundo e as coisas ditas do espírito. Que era afinal espírito¿ Ela, que exigia ser inteiramente um corpo com útero, ovários, cíclica como a lua mudando no céu, como as estações dançando na atmosfera terrestre através do tempo, Helena expulsava a ideia de espírito de si afirmando ser toda corpo, toda corpo, mas a ideia voltava com o som do vento, no balançar das folhas das árvores dali de perto e espantosamente tocava-lhe os ouvidos que, oras, eram corpo. Havia um sopro de vida no pé de seus ouvidos que suavemente tocava o fundo dos seus dois orifícios auriculares, um sopro de vida nas orelhas de alguns dos livros que lia. Helena, coisa você não é! Falou dessa vez convencida pelo sopro do segredo. E o que isso significava¿ O que significava Helena não ser uma coisa¿ Por que esse jato de pensamento, que começou nas faíscas das conexões neurais, se complexava cada vez mais, formando uma linha que então agitava-se pelo seu corpo todo até por fim ela não ter escolha senão sentar com o notebook no colo e escrever até parar de jorrar. Então compreendeu que jorrava vermelho vivo todo mês, experimentando diversos humores que deveriam não ser motivo de escárnio mas sim vetores de administração dos recursos naturais do mundo. E cada vez mais espantava-se com cada coisa nova que pensava, e não, ela não era porque ela pensava, ela era porque ela percebia, sensorial, ela percebia angústias particulares em pontos distintos de seu corpo, corpo, corpo, corpo, corpo, percebendo as tempestades de ideias que vinham sem que ela pudesse agarrar-se a uma e sair desbravando seus caminhos escondidos, ela via as ideias percorrendo a sala de sua mente, bagunçadas, agitadas e rápidas como volumosas flechas sendo atiradas por todos os cantos do cômodo fechado de sua mente, uma mente que inegavelmente era  sagaz mas que ainda pouco conhecia de si, como todo e qualquer ser humano deste ano de 2015. Pensou em si mesma como uma pintura cubista. Parecia-lhe às vezes um recorte de si mesma, um recorte embaralhado de um colorido vivo. Tão alheia e tão perto do mais íntimo de si mesma. Assim o homem lhe havia pintado, mas era mentira, não havia nenhum homem, ela apenas havia criado de improviso tal pensamento que de repente parecia-lhe tão verdadeiro que era impossível não querer enveredar-se por ele, dando continuidade às narrativas anteriormente criadas. Criadas para quê¿ Inútil pensar. E continuava pensando, absorta pelas descobertas que fazia no silêncio daquela tarde sozinha em casa enquanto a louça de ontem à noite aguardava na pia o momento de ser lavada.

Que esperasse. Agora estava pensando. Pensando e escrevendo.

Onde estão as chaves¿ Por que sempre perco as chaves¿ Se coisa não sou, defeito não tenho. Coisas têm defeitos, coisas de se jogar fora, aquilo que se usa e se descarta é que é uma coisa. Helena pensava com raiva, agora sacando as flechas que passavam em sua mente, sobrancelhas cerradas, dentes apertando-se uns contra os outros. Helena armava-se, calçava suas botas de combate por trás dos olhos, no campo da imaginação, e permitia que os dedos galopassem o teclado do notebook. Se defeito não tenho, por que perco as chaves¿ O que acontece para que eu perca as chaves¿ E porque logo eu, que fico procurando metáfora em tudo, sempre perco as chaves¿ Lembrou-se da identidade que também vivia perdendo, o documento que estava agora guardado em sua bolsa era o quinto feito em três anos. Chaves, identidade… que mais perdia¿ Cartão do banco também ela perdia, de débito, porque essa coisa de crédito Helena achava perigosa demais, não confiava. Quais eram as metáforas por trás das perdas de memória repentinas que faziam com que ela perdesse um objeto da realidade que precisava ser analisado, refletido, sobre o qual a sua consciência deveria debruçar-se jorrando pelos dedos que atingiam nervosos e rápidos as teclas do notebook, para que enfim ela parasse de perder, minha deusa, de se perder dentro de sua mente embaralhada. Metáforas, metáforas espocando no ar, metáforas nas folhas das árvores que pareciam grandes placentas de raízes fundas na terra vermelha viva, encharcada, perfurada por minhocas, metáforas que apontavam-lhe novos discursos, novas conexões.

Não era defeito, era potência tolhida.

Que não havia sido por Helena perdida e sim dela roubada. Não era defeito, nem era culpa sua exilar-se de si mesma enquanto o corpo tentava recuperar as memórias roubadas, o exílio era um modo de não reviver o horror de ter sido por tantas vezes estuprada. Era por isso que dava branco em sua mente durante a tempestade de ideias. Ela acessava o caminho percorrido pela borracha de apagar potências enquanto era exilada de seu corpo, linhas narrativas guerreavam enquanto seu corpo ansioso tentava expulsar-lhe a consciência para que aquilo parecesse menos insuportável, para que ela sobrevivesse. Mas a consciência agora insistia em ficar e sentir a dor, em fazer a travessia para que as lágrimas represadas no peito pudessem escoar pelos olhos. Helena arriscava, queria arcar com as consequências de deixar o pensamento correr livre atrás de seu próprio destino, à frente de seu próprio destino, rédeas em punho: o cavalo agora era Helena, que pensava, logo existia, mas que sabia que deveria ter o direito de existir desde o dia de seu nascimento e não desde o dia em que pensara por si mesma pela primeira vez: hoje, agora mesmo.

E desde então decidira que não mais negociaria com quem queria apagar suas memórias. Com quem já havia bloqueado suas potências. O mundo tinha com ela uma dívida sim, e nunca lhe pagaria, mas também ela já havia ido longe demais, não cabia mais dentro de si o ódio por ter sido enganada por tanto tempo sobre as chaves. O ódio jorraria e viraria matéria-prima. O ódio seria, sim, permitido. O problema a ser superado era esse: não achava que tinha o direito de odiar. Mas para sobreviver, tinha de se dar este direito. As tempestades de ideias vinham do longínquo passado de seu corpo para que ela aprendesse que não havia nascido para o amor e sim para se defender do ódio com um ódio à altura. Adaptou-se à nova situação finalizando o processo com um ritual: pegou todos os livros escritos por homens de sua estante e os queimou, um a um. Era o modo de Helena mostrar a si mesma e ao mundo que havia criado a si própria para se vingar da Inquisição do Hoje.

Não era mais a burra que perdia as chaves, ainda que as perdesse, não, não era burra. Helena agora era a própria pedra no meio do caminho.

 

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