Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Antes do Verbo vem o Sujeito

Não, no princípio não era o Verbo. O que principia a oração é o Sujeito. A estrutura da Língua Portuguesa é patriarcal. Foi construída com o sangue das mulheres, materialmente, com o sangue de morte das pessoas do sexo feminino, o segundo sexo. Com o silêncio das mulheres é que a Língua Portuguesa foi construída. Com a proibição de uma fala que tenha sido herdada das matrizes. Com nossas literaturas queimadas. Chega dessa palhaçada de jogar nossos livros na fogueira como materialmente fizeram com as mulheres, nossas avós e bisas. A fogueira das mulheres queimou nossos corpos e nossas assinaturas, há assinaturas pelo mundo que morreram antes mesmo de terem nascido porque grande parte da matrilinearidade foi impedida de assinar o próprio nome. A fogueira que continua impedindo a navalhada no silêncio, o rompimento, a ruptura com o que subjetiva a nossa condição. O respeito – básico – ao local de fala de pessoas do sexo feminino é a principal via de saída do pós-modernismo que nada de novo trouxe à vida das mulheres fora a estética. E a ética? Qual a ética vigente na sociedade patriarcal em que vivemos? A ética é o respeito ao lugar da fala daquelas que foram dizimadas do mundo por meio de seus úteros. Esta é a hierarquia da Igreja Católica sobre as mulheres, hierarquia religiosa e, tchã nãm, baseada numa moral sexual que Nietszche, o Super Homem, fazia de conta que não existia enquanto escrevia seu tratado sobre a moral cristã. Sintomático que Freud tenha sido influenciado por Nietzsche. O masculinismo segue firme e forte vampirizando o sexo das mulheres e a prova disso é a cultura de estupro acontecendo debaixo dos nossos olhos, com as nossas crianças, enquanto a sociedade inteira vira a cara. O ECA num momento desse, onde foi parar o ECA quando meninas obrigadas à prostituição são culpabilizadas pela justiça brasileira como se o fato de terem sido prostituídas fosse uma desculpa para inocentar os homens que as drogaram e estupraram e viciaram a troco de quê, minha deusa, de quê?

Com licença Patriarca da Língua Portuguesa, estou passando com a minha poesia e vim pra ficar.

O que eu escrevo já existe, não tem como voltar. Nem mesmo a minha morte adiantaria, pois sou estratégica e antecipo minhas respostas à Dominação Masculina na Literatura da Língua Portuguesa.Quem decide o que é Literatura agora são as que têm o útero preso ao Estado.

E isto, meus caros, está longe de ser uma negociação. Está mais para acerto de contas. Vocês mentem quando dizem que no princípio era o Verbo, no princípio era a Mãe, o Sujeito Original usurpado pela Psicanálise Misógina e transformado em mero agente da passiva. Agente. Que tem alguma agência. Agente da passiva. Quem disse que mulheres são passivas? E também objeto direto, responsável pela nutrição. Objeto direto na boca da cria, objeto de uso do Patriarca, alienada de si, doadora eterna de si, virgem, fiel e casta serva. A passividade é o objetivo da feminilidade, um objetivo que estou desconstruindo enquanto construo um discurso novo sobre a Língua Portuguesa, do ponto de vista de uma mãe que ensina sua cria a falar, do ponto de vista de saber uma professora de Língua Portuguesa e quase especialista em Semiótica, do ponto de vista de uma poeta lésbica que cansou de ver mulheres sendo fetichizadas pelo mercado literário através dos séculos.

Ad Infinutum (até o infinito) nunca mais.

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