Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Como um bebê aprende a falar – 8 e ¹/2

Ou: os vãos do processo de desenvolvimento

O exercício da maternidade toma quase a totalidade de meu tempo. E eu a exerço sem amparo social nenhum, o que, na prática, significa que quando eu não estou carregando um bebê de doze quilos no braço, esse mesmo bebê está se arrastando a minha volta e pedindo pela minha atenção enquanto eu coloco a minha criatividade para buscar uma maneira de resolver minhas finanças sem me render às regras do mercado do qual eu fui chutado ao engravidar (o publicitário). Sim, mandei o patrão para o inferno já que fui mandada antes e quero viver do que produzo por conta própria, só isso me garante a liberdade de pensar e de me expressar sem censuras mercadológicas ou ideológicas. Minha bagagem privilegiada não vai mais ser usada para enriquecer ricos, decisão pra vida inteira dentro do que me for possível enquanto sujeito do segundo sexo, ou, para ser mais exata, uma mera agente da passiva cansada de nunca conseguir evoluir para a posição de sujeito. Não quero ter agência, quero ser sujeito, porém o sistema e a estrutura – social e linguística, que coincidência – são mais fortes do que eu.

Sigo.

Acontece que estou no meu limite humano e para variar só um pouquinho, justo quando me percebi no limite, Théo compreendeu o conceito por trás da palavra nome, reconhecendo a si mesmo como Théo e esboçando um salto de autonomia ao pedir para fazer coisas sozinho tais como colocar sapatos ou escovar os dentes, ou seja, ele experimenta um novo salto de consciência – inclusive corporal, refletido pela proatividade em exigir ser protagonista de ações cotidianas -, o que curiosamente o angustia pela separação que isso causará entre nós dois. Como consequência, ele gruda em mim e demanda atenção dobrada. Como eu sou uma só, e como o pensamento racional funciona de modo linear para cada ser humano (mulher não é multi tarefa, isso é reflexo do estereótipo baseado na socialização para o cuidado solitário dos filhos e da casa) , eu tenho de me desdobrar para estar conectada às necessidades educacionais, higiênicas e alimentícias de um bebê de dois anos enquanto formulo como vou fazer para ganhar dinheiro e ter a minha autonomia financeira de volta. Quero ser sujeito, mas sou mãe, o objeto do Sujeito, subordinada a Ele. A regra gramatical é metalinguística: a estrutura da língua e da sociedade são semelhantes. Deve ser por isso que o que eu mais amo escrever são poemas embora eu seja obrigada a escrever outros tipos de texto porque não foi ensinado o gosto pela poesia nas escolas.

Ajo com o ímpeto do Sujeito, sou devolvida à função de agente da passiva, mas não me encaixo na sintaxe convencional do que é ser o segundo sexo. Subverto em meio a brinquedos espalhados pela sala e louça na pia. Subverto sempre empurrando meus próprios limites um tantinho para adiante. Pela primeira vez é tão difícil assim. Não que tenha sido fácil em algum momento, mas agora há um algo mais: há o esboço de um novo Sujeito, meu filho, há eu-tentando-ser-sujeito-mas-sendo-objeto. A Psicanálise diria que é o bebê que vê a mãe como “objeto de desejo”, mas não, somos o objeto trabalhando enquanto o patriarca acumula conquistas e mais conquistas. Eu digo: a Psicanálise odeia mulheres e também crianças. Objeto de desejo, tudo é desejo, fetiche e objetificação em uma sociedade patriarcal. Bebê não deseja, posto que desejo é construção social e não inato. Bebê necessita. É diferente. Ele não enxerga a mãe como objeto, mas precisa dela por uma questão básica de sobrevivência.

Sobrevivência, essa grande escola.

Sempre que meu filho entra num processo de aquisição de novos saberes, eu entro em parafuso me perguntando “cadê o bebê que estava aqui até ontem? hoje ele está completamente transformado exigindo de mim coisas sobre as quais ainda não entendo”. Este não entender se instala por alguns dias em que nos desentendemos para voltarmos a nos entender logo adiante. A esse desentendimento mútuo eu chamo Vão do Desenvolvimento. Por um breve período de tempo não compreendo bem suas novas vontades e seus novos modos de negociar. Não me sinto preparada para lidar com este novo ser até que eu entenda exatamente quais foram suas mudanças e quais terão de ser as minhas. O vão do desenvolvimento me deixa nervosa e com uma sensação de fracasso. Este vão existiu das outras vezes, mas desta vez houve um rompimento que não sei bem explicar. Sinto-me como uma mamífera a querer distância de sua cria, incentivando-a a não necessitar de mim. Algo se quebrou e já sinto até nostalgia, como se… como se em breve ele fosse deixar de ser um bebê e se tornar uma criança. E não vai?

Vai, não posso adiar e nem adiantar o tempo. Mas me sinto nervosa por precisar de um afastamento que ele ainda não está pronto para viver porque preciso produzir arte e dinheiro para sentir que ainda sou a minha mulher, não só a mãe do Théo.

Mas quão minha o mundo me permite ser?

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3 Respostas para “Como um bebê aprende a falar – 8 e ¹/2”

  1. Carla Jaia

    queria um livro dessas belezas. não sou mãe, mas a sinceridade com que vc fala disso me cativa. há beleza sem romantização. e às vezes dói.

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