Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Só por hoje eu venci o patriarcado

Ano passado eu fui convidada para ser madrinha de um casamento hétero. Na época, eu ainda me depilava e jamais imaginava o problema que teria de enfrentar mais adiante.

Daí parei de me depilar por uma questão política de luta contra a pedofilia, afinal a depilação vem de um padrão de beleza que é baseado em pré-puberdade. Quando me dei conta de que eu iria a um casamento com as pernas de fora, perguntei para uma amiga o que eu fazia e ela disse que se fosse no casamento dela ela iria odiar que eu fosse peluda “porque é o momento da noiva, ela que tem que ser comentada, não você” (como se eu quisesse ser comentada, né?).

Chorei muito.

Depois liguei para a noiva para perguntar se ela se sentiria ofendida e ela me tranquilizou. “São só pelos, o importante é a sua presença”. Uma fofa. Realmente minha amiga. Eu ainda achava que não teria forças para ir a um evento que celebra o ápice da feminilidade com as pernas peludas, tendo nesse evento um papel de destaque. Deixei a decisão para o último dia, e este dia foi hoje.

Decidi não depilar.

Fui com a minha roupa (cheguei com a noiva, antes de começar), fiquei um bom tempo instrospectiva, sentindo uma angústia, um mal-estar, aflita, pensando em desistir (mas não levei gilete porque sabia que passaria por isso e queria manter a minha decisão). Eu queria só não SENTIR aquilo. Aí eu pensei… como o sentimentalismo fode a gente. O que estava acabando comigo era um sentimento, uma antecipação dos fatos. Eu deveria estar me sentindo poderosa pela coragem de enfrentar meus medos e as consequências da minha radicalidade material, mas eu estava me sentindo pequena, eu estava sentindo vontade de me enterrar. E foi uma luta sair desse sentimento, focar no fato de que eu estava sendo insubmissa, recusando performar o que me é empurrado a normalidade do que é ser mulher.

Quando me troquei, as madrinhas e a noiva estavam na mesma sala que eu, cada uma com sua maquiadora, num ritual de beleza que fazia com que eu me sentisse uma extra-terrestre. E eu saí do banheiro com as pernas peludas e com vontade de virar um fantasma. Mas respirei fundo e a decisão de ser dona do meu corpo – apesar do mundo estar jogando na minha cara de forma tão pesada o quanto eu não me encaixo – e com essa decisão eu mudei a minha postura corporal. Parei de me encolher e estufei o peito. Esta sou eu. Quem são essas pessoas para mim e por que eu deveria me preocupar com o que elas pensam sobre os meus pelos?

Ninguém, elas são. E não podem me fazer mal algum a não ser me olhar com nojo, mas este é um problema delas e não meu: eu sou livre.

E assim foi o dia. Não vou dizer que esqueci completamente de que eu estava ali com as pernas peludas, mas consegui relaxar, embora em alguns momentos a ansiedade voltava. Voltava mas era passageira, eu logo tomava a decisão de estufar o peito novamente.

Só por hoje eu venci o patriarcado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: