Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Desculpe-me dizer, mas sim, você é obrigada

Texto escrito para a campanha #ESQUERDOMACHOSVAOTOMBARTOMBEI

nao-sou-obrigada

Para participar, escreva seu texto e use a hashtag (a expressão acima, com # no início)

É com ela que mediremos alcance e relevância para avaliarmos a quantas andam a colaboratividade entre mulheres (cliquem para ler a minha primeira avaliação sobre o tema)

Um post dedicado a Daniela Lima e outra compa que não pode ser nomeada por motivos de cuidado.

Vocês não são obrigadas a passar por isso sozinhas.

Você é obrigada a nunca tocar seu sexo quando é pequena. Seu prazer precisa ser secreto. Sendo secreto, você nunca poderá falar sobre sexo com ninguém. Nem mesmo se um pedófilo abusar sexualmente de você. Porque você já foi programada pra se calar sobre a sua biologia e associá-la a sujeira. Socialização não falha. Você é obrigada a sentar-se de pernas fechadas e de colocar calça comprida no calor porque senão…senão o quê? Você é pequena, não compreende, apenas obedece. Você é obrigada a usar vestidos que te impedem de correr tanto quanto os meninos. E é obrigada a gostar de vestidos cor-de-rosa, de brinquedos relacionados a cuidados maternais como boneca e fogão. Você é obrigada então a não ser dona do seu corpo e nem de sua identidade.

Você é obrigada a doar tudo. Seu útero para o Estado. Sua força de trabalho para os patriarcas donos de empresas. Seu sentimento de pertencimento a algo maior do que sua individualidade à religião desses mesmos patriarcas. Seu sexo ao seu marido. E você é obrigada a doar tudo isso “por amor”. Você é obrigada a amar, odiar não pode nunca, sob a pena de ser tão condenada quanto foi Eva ao se rebelar contra o primeiro grande patriarca. E se você resolve lutar, até a sua luta tem de ser doada.

Desculpe-me dizer, mas sim, você é obrigada.

E essa obrigação tem nome: feminilidade.

A feminilidade não vem da natureza. A feminilidade é a preservação da espécie humana cooptada por interesses patriarcais. A feminilidade é a preservação da espécie colonizada. A feminilidade não existe. Doar-se não é feminino, é humano, é necessário para a manutenção da espécie. A feminilidade é a grande mentira da humanidade. A maior de todas. A que aprisionou a potência das mulheres a duas identidades limitadas e artificiais: mãe e puta.

[Leia mais sobre feminilidade como ferramenta de manutenção da hierarquia entre os sexos neste post da Keli Cristina, autora do blog À Margem do Feminismo]

A feminilidade divide as mulheres entre santas e putas e cria entre elas uma competição.

Já viu time fazer gol enquanto integrantes de uma mesma equipe em vez de passarem bola um pro outro ficam brigando entre si?

Então, a feminilidade nos torna competitivas. Luta-se pela atenção dos homens. Ou pra casar, ou pra foder.

E não é a toa que o xingamento mais presente na boca dos brasileiros é: puta que pariu, ou feladaputa.

Porque as mulheres, ou são uma coisa, ou outra.

As mulheres não têm direito à identidade.

As mulheres têm as migalhas que conseguem colher enquanto resistem. Têm linchamento e fogueira pública,

A puta que pariu é a mulher que gozou no parto.

Que dispensou o genitor e ficou com a placenta.

A puta que pariu é a mulher que foge à dicotomia da existência. Dicotomia (ou:binarismo) imposta pelo patriarca.

A puta que pariu é a que quer se definir sem a língua dos homens. Quem ousa ser dona da própria língua. Metaforicamente e materialmente.

Eu sou a puta que pariu. Mas eu não sou puta. Eu não vou encher a boca pra me chamar de puta. Porque isso seria pisotear em meninas que foram obrigadas a se prostituir, as meninas do Acre (clique nas palavras sublinhadas para ler) por exemplo, meninas por quem luta a ativista Joana D’arc Valente Santana (Ativista d’Acre). Meninas que se tornaram prostitutas depois de terem sido drogadas pelos patriarcas para que eles usassem seus corpos de acordo com seus fetiches, suas fantasias sádicas de dominação. Se tornaram não: foram transformadas em. Foram transformadas por meio do vício a quem foram obrigadas a ter.

Isso me rasga.

Não te rasga?

Rasga mais do que o rasgo da minha buceta depois de ter parido. Nem rasgou, praticamente. Nem precisou de ponto. Mas o que a medicina patriarcal mais faz é rasgar buceta em parto. Episiotomia. As meninas prostituídas me rasgam, não só porque foram prostítuídas, mas também porque seus aliciadores seguem impunes. Isso me rasga. Me rasga. Me consome. Me dá vontade de não existir. Me faz odiar, odiar, odiar. Odiando, sou punida. E continuo me rasgando, me rasgando por causa desse discurso reaça de direito de escolha que tá sendo imposto às mulheres até mesmo pela boca de outras mulheres. Prostituição uma escolha. Sério? Essas meninas por acaso não são nada pra vocês? Elas escolheram? Onde vocês estão com a cabeça?

Direito de escolha para quem? Fácil falar quando teu saco não é controlado pelo Estado, né? Homens. Machos. Eu vos odeio com o ódio que a menininha que eu fui foi impedida de sentir. Eu vos odeios profundamente. Mas fui por vocês odiada primeiro e a minha resposta é como um grão de areia tocando as costas de um elefante. Macho: teu ódio por mim é que é radical, e não a minha resposta ao seu ódio. Esconda a cara, envergonhado, ou vem pro debate com a cara limpa – que não terá, homens nunca têm. 

O arrependimento é um sentimento que só quem tem buceta é obrigada a ter. Culpa, né. Tem até a versão “culpa materna”. Pois é. E tem a culpa da menina prostituída pela profissão que escolheu. Sim, são os argumentos que inocentaram os patriarcas pedófilos. Escolha delas. As mulheres se calam por culpas que não têm, nunca tiveram, minha deusa, nunca tiveram. Mas não todas. Muitas são radicais (ainda que no armário). E eu sou uma delas. Eu sou radical porque qualquer mulher assertivamente materialista será considerada radical. Materialismo é o oposto de idealismo, e talvez seja por isso. As radicais são tipo foda-se os ideais, eu quero saber da história dos corpos, e quero ter o direito de nomear as hierarquias criadas, que me fazem inferior ao homem.

Essa hierarquia vem da moral religiosa. Idealista. Abstrata. Pós-Moderna. Essa hierarquia é uma coisa meio que só-os-inteligentes-podem-ver. Hierarquia iluminista, imperialista, patriarcal, baseada em aspectos físicos da nossa existência para depois nos roubar as identidades.

É hierarquia e é baseada em sexo.

A existência das mulheres que não se calam é radical nesse sentido. Radical no sentido de que radicalmente só o fato de existirmos é necessário para que sejamos o ideal da mulher pecadora, seres culpados pela Queda dos Homens, ai, quanta culpa sentimos por tudo, que coisa horrorosa. A culpa é devastadora e ela só tem um objetivo: destruir nossas vozes. Apesar de termos poder de decisão sobre as possibilidades limitadas (e um poder igualmente limitado pelo poder material dos homens no mundo), nós temos apenas duas identidades pra escolher. A mãe e a puta. E ambas serão linchadas na praça pública como culpadas. Mas não são, porque culpa tem quem peca e pecado não existe. Culpa pode ser desconstruída e deve, com ela não vamos longe. Mas só quando pudermos construir também o ódio criador de realidade, realidade contrária ao ódio que sempre teve o poder de matar, indivíduos e povos, roubando-lhes a identidade por meio da língua.

Mãe e puta são mulheres que tiveram suas vidas, suas forças de trabalho, definidas a partir do que se tornaram após a colonização do pênis nos corpos das mulheres. Duas identidades atreladas aos órgãos genitais masculinos, ao fato de que foram transformadas a partir do contato com o pênis. Identidades falocêntricas, porque criadas por quem criou estas identidades. E eu sei que não, não foram as pessoas com sistema reprodutor feminino que inventaram estes nomes para nós.

Mãe ou puta.

Porque se você escolhe outra identidade, “mais fluida”, você vai pra fogueira.

E isso poderia ser apenas uma metáfora. Mas é história.

Deus, a mãe e a puta. A sujíssima trindade.

Não fica só no campo da fantasia.

É real, controla todos (ou estrategicamente só alguns) dos seus passos. Dos meus. Dos nossos. Por termos nascido com sistema reprodutor feminino.

A sujíssima trindade tem estratégias fraternas. Com a fraternidade, a “honra”, entre irmãos do sexo masculino, eles controlam os nossos sistemas reprodutivos.

Queremos direitos relacionados ao nosso sistema reprodutivo. Queremos o direito básico de não sermos estupradas. De não sermos obrigadas à maternidade. De sermos obrigadas a aceitar pênis em nossas relações e nos conceitos que aprendemos ao longo da vida. Queremos o direito básico de dizer: NÃO.

E o que quiser nos calar é a Contra-Onda ou A Onda-Contrária ao avanço das mulheres. a Contra-Onda são os machos, isso já é história no agora, e se essa campanha viralizar de alguma forma ampliaremos o alcance das mulheres à verdade mais urgente que precisa ser dita: esquerdomachos te querem ver retrocedendo. E eles agem com as ferramentas que têm em mãos para que o patriarcado continue em pé. Apagar registro histórico é estratégia de crime de guerra. Em inglês, o nome disso é Backlash (lê-se béquilaxi, com um i sem ser pronunciado). Backlash é um livro escrito por uma mulher, Susan Faludi, que conta a história da busca das mulheres por direitos básicos. A cada progresso, retrocessos. Se queremos tornar esse assunto sério, é importante falarmos sobre crimes da ditadura. Que nunca acabou para as mulheres. O ápice deste crime especificamente para mulheres: estupro. Quando rompemos o silêncio, as armas apontam para nós. Armas que podem nos levar ao chão. História, manas, história. Nossos livros foram queimados, tirados de circulação por causa da Contra-Onda. Estamos repetindo a história, repetindo, repetindo, porque não tivemos acesso a ela.

[Encontrem o livro Backlash em português no tumblr da Daniela Bado, e muitos outros livros escritos por mulheres que lutaram pelo direito de criar uma literatura que vá a raiz do problema, ou seja: o direito à verdade sobre seus corpos.]

A verdade está no nosso corpo, não na cabeça dos machos.

A colonização do corpo das mulheres merece um capítulo à parte nos livros de história da humanidade, da humanidade toda. Medida urgente. Quero saber onde está o MEC para me dar uma resposta. O MEC está ouvindo as mulheres? Não. Nem a Secretaria das Mulheres está. Infelizmente. Pois é. Mães não foram consideradas ao permitirem que lei 117/2013 – Lei da Guarda Compartilhada – passasse.

Quem tem direito à história, a aprender história a partir de referências materiais cujo compromisso é somente com a verdade e nada mais?

E quem tem o direito de escrever essa história? Numa ditadura, não há o direito à verdade. 

A busca dela, portanto, é radical.

Não por ser de uma corrente ideológica ou de outra.

Mas porque ela vem do corpo e o corpo não mente nunca. Ele sucumbe, ele cai. E ele merece vir à tona neste debate. A verdade mora no corpo das mulheres. Os últimos porões da ditadura ainda não foram abertos. Nele estamos nós, torturadas desde meninas, sufocadas, gosto de medo parado na garganta que engole a seco a verdade pelo medo de morrer como nossas avós, bisavós. Sendo tratadas com indiferença.

Queria poder abraçar a minha avó paterna.

Ela faleceu de tanto desgosto, tenho certeza.

A minha avó materna faleceu de um câncer que era tratável. Negligência médica. A mesma médica que a matou por indiferença a minha avó, me separou de minha mãe, cortando sua vagina sem anestesia e dizendo a minha mãe que eu era sua diarreia. Assim: tá aqui a merda da tua vida agora. Médica sádica, colaboracionista de macho.

Sangro, logo existo. Existimos.

A nossa busca precisa ser matrilinear. Matrilinearidade importa. A língua costura. Sutura. Limpa o sangramento. Se afia na faca da poesia. Se lança, caçadora, até onde a mão alcança. E vai, de mãos dadas, poque as mãos que tecem a rede importam. Dedos batendo nas teclas fazendo vibrar o corpo todo.

É a biofilia possível.

Quem se nega a lutar, que pelo menos tenha a decência de me deixar passar.

E o recado que eu tenho para elas, não é de ódio, tampouco de amor. É de desespero.

Não permita que te obriguem a odiar quem te gerou. Não se sintam obrigadas a amar. Você não é “ou isto”, “ou”aquilo”. Lembra? Eles te obrigam, eles te obrigam. Obrigaram quem te gerou também.

Você é obrigada a odiar quem tem o sistema reprodutor igual ao teu. Mas pode começar a se desobrigar.

Nessa luta estaremos juntas, mas só quando você decidir o seu lugar.

E aí? Tamo juntas da campanha #SOMOSTODASRADICAIS?

Ou será que eu só falei besteira e discurso de ódio aqui?

 

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2 Respostas para “Desculpe-me dizer, mas sim, você é obrigada”

  1. C. S. Costa

    Que texto lindo, que texto maravilhoso! Expressa tanto do que eu sinto!! Gosto de usar a frase “Não sou obrigada” para várias coisas, mas parando pra pensar, se tem uma coisa que somos nessa vida é obrigadas, infelizmente… De novo: que texto maravilhoso!

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