Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Chamaram-me radical

Por eu ter feito um B.O. de violência doméstica só porque ele gritava comigo. Por eu ter decidido criar sozinha meu filho. Por ter parido em casa. Por ter prezado pela amamentação e por estar amamentando até agora que meu filho tem dois anos. Por sacar a teta no metrô quando ele pediu pra mamar. Por ter dito não à chupeta e à mamadeira. Por ser contra palmadinha educativa. Por não incluir açúcares em sua alimentação. Por eu ter entrado com pedido de pensão. Por ter deixado de me desdobrar para cuidar do vínculo entre o pai do meu filho e meu filho.

Disseram-me radical por ter exposto um ex-namorado que me estuprou no facebook (o que me rendeu um processo pelo qual estou respondendo). Por eu achar que um post que faz apologia ao incesto pai/filho inaceitável. Por eu afirmar que há pelo menos um pedófilo perto de cada criança no mundo: eu fui abusada por três. Por eu odiar homens. Por eu ter saído do armário e me assumido como lésbica. Por não aceitar pau no meu corpo e falocentrismo em minha mente. Disseram-me radical por querer fazer da maternidade uma luta política, impossível de ser feita sem falar de ocitocina, progesterona, ovários, útero, mamas, menstruação. Por afirmar que maternidade não é escolha, é falta de. Falta de educação sexual, falta de orgulho da própria fisiologia, falta de autoestima, falta de capacidade para dizer não, falta de capacidade para cobrar o uso da camisinha, falta de aborto seguro e gratuito. De tudo, enfim.
Disseram-me radical por deixar meus pelos das axilas, pernas e vulva ao natural. Por afirmar que prostituição é exploração. Por dizer que todo ser dotado de útero é socializado para o cuidado brincando de boneca enquanto todo ser dotado de pênis é socializado para explorar quem foi socializada para o cuidado, até mesmo dentro da luta por direitos do grupo explorado.

Então eu aceito. Sou radical, embora não seja mais feminista. O feminismo hoje está do lado de quem me chama de radical. Não me representa. Sou radical, pois o significado desta palavra é raiz. Sou radical por não me curvar a quem quer subjetivar a minha luta a uma identidade quando é no meu corpo que a exploração se baseia.

Sim. Eu sou radical.

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3 Respostas para “Chamaram-me radical”

  1. C. S. Costa

    Eu acabei de abandonar um grupo feminista interseccional por causa de brigas. Mas ainda me considero feminista. Eu sinceramente acredito que o feminismo tem salvação e tem se espalhado cada vez mais. Não podemos deixar o backlash que sofremos e os desentendimentos entre vertentes nos desanimar e enfraquecer o movimento. Acho que devemos criticá-lo sim e tentar mudá-lo.
    Se sou radical ainda não sei, pois conheço pouco sobre esse feminismo que chamam de radical, mas tenho me identificado cada vez mais com ele.

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