Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Resposta à carta aberta de Bia Pagliarini

Querida Bia,

Por ser democrática e prezar pela transparência, o contrário do que você e a Hailey fizeram ocultando o meu discurso do alcance do público de vocês, postarei os prints da sua resposta dirigida a mim logo após a introdução, necessária para explicitar minhas intenções quanto a este diálogo proposto por mim (que vocês duas preferiram transformar em monólogo, mas eu mantenho o caráter dialógico das minhas intenções). Por que não respondeu aqui nos comentários? Me pouparia este trabalho. Tanto melhor, porém, pois a sua resposta dará visibilidade a uma realidade que precisa urgentemente ser apontada, uma realidade sobre a qual eu já escrevi no post Às (futuras) mulheres da Academia. De que realidade estou falando?

A genealogia dos estudos da língua é patriarcal e eurocentrada

Ela me lembra bastante a Gênese, primeira parte da Bíblia, onde os patriarcas são sempre apontados como a raiz da genealogia dos povos do mundo. Adão, Caim, Abel, etc e tal. Os estudiosos da língua são sempre intelectuais europeus, todos eles dotados de pênis, brancos, da elite europeia. Friedrich Schlgel, Franz Boop, Jacob Grimm, Ramus Rask, August Schleicher, Hermann Osthoff,  Karl Brugmann,  Paul Hermann, Antoine Meillet, Michel Bréal, Saussure,  Jakobson, e por aí vai.

Os estudos de Saussure, portanto, interessam-me, e muito, mas não para que eu produza a partir deles e sim para que eu me contraponha a eles. Pois esses estudos estão banhados em sangue e em suor de seres dotados de útero. No sangue das mulheres contemporâneas destes homens. No suor das mães dos filhos deles, que faziam sozinhas todo o trabalho de preparar as crianças para a vida adulta enquanto eles produziam teorias, comendo de suas comidas, dormindo nas camas limpas sobre as quais elas estavam responsáveis por manter limpas seja por ação direta, seja por meio da administração das serviçais, suor que também importa, que deve ser trazido à tona. Foi na base do suor das mulheres que cuidavam de tudo o que “era mundano” para que eles cuidassem “do que era do campo das ideias” que as teorias sobre linguagem foram escritas. Estão lavadas com o sangue das culturas e línguas exterminadas pela colonização europeia, culturas estas da qual minha bisavó faz parte por ser indígena. Matrilinearidade importa. Minha bisa “foi laçada” por um jovem europeu. A isso eu chamo estupro de guerra para a dominação da terra, não há colonização de uma terra que não passe pelo útero de suas nativas. Deram a ela um nome de batismo associado ao cristianismo (Rosa de Jesus), ela foi impedida de ter seu nome, de falar a sua língua e foi forçada a aprender português. Sua cultura e sua >>>> identidade<<<< foram roubadas dela. As mulheres nunca tiveram direito à identidade. As teorias patriarcais sobre a língua são uma estratégia de guerra às mulheres e aos demais povos dominados. A intenção é roubar a identidade desses povos e perpetuar a dominação. 

 

Resposta à pequena carta de Bia

Enumerei as respostas para construir uma dinâmica que facilite a compreensão.

Item 1, 2 e 3

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1) “Se gabou em dizer que tem pós em Semiótica”

Em nenhum momento “me gabei”, disse inclusive que eu não havia concluído o curso, infelizmente. Ninguém deveria “se gabar” de ter ou de ter tido acesso à Academia. Em primeiro lugar porque essa é uma atitude elitista. Em segundo, porque os conhecimentos que são construídos dentro dela são patriarcais e colonizatórios, a despeito de inúmeras pessoas que estão dentro dela lutando contra tal realidade. As pessoas são indivíduos e a Academia é um sistema. E os indivíduos são dominados pelos sistemas. Para produzir conhecimento dentro do sistema acadêmico antes é necessário passar por uma doutrinação, submetendo a capacidade criativa para a produção de conteúdo à aprovação de uma bancada. Uma bancada formada por pessoas que estão lá para que as teorias se adequem ao conhecimento anteriormente produzido dentro dela. Nesse sentido, as mulheres, dentro da Academia, continuam tendo de se submeter ao conhecimento produzido por homens, sem que as intenções desses homens ao fazerem ciência sejam problematizadas. A isso chamo falocentrismo acadêmico. Portanto, não, não me gabei e nem me gabo. Sua interpretação está equivocada. Jamais me gabaria por ter submetido a minha capacidade cognitiva às ideias impostas pelos homens.

2) “O significado de uma palavra não tem a ver com a etimologia dessa palavra”

Pois tem, tem sim. E Saussure, sujeito de uma língua colonizadora, foi bastante sagaz em apagar a raiz da língua. Pois etimologia é isto, o estudo da raiz das palavras, portanto, diz respeito e remete às intenções de quem as criou. Os homens deturpam e distorcem tudo o que possa ser relacionado a origem, pois a origem da vida humana é o útero, e não o Verbo, como propôs a Bíblia. Este é um dos meus contrapontos a Saussure que jamais passaria dentro de uma Academia. Radical demais. Vai demais à raiz do problema. É perigoso para o patriarcado. É perigoso para o patriarcado uma mulher dentro da Academia dizendo que por ter útero sua minha bisavó foi impedida de falar sua língua para que a cultura de todo um povo fosse exterminado. Mas assim como o patriarcado foi burro em designar a mulher a partir de seu sistema reprodutor (mulher vem de mulgere – ordenhar – ou mulcere – lamber), e designar a família a partir de sua função em relação ao patriarca (família vem de famulus – escravos -), deixando as pistas etimológicas sobre o que sempre fomos para os sujeitos da língua – objetos de reprodução e força de trabalho -, ele continuou sendo burro quando associou língua à maternidade, escancarando a relação e entre linguagem e o organismo capaz de gerar outra vida e ensinar-lhe a falar, ainda que não a própria língua materna (como no caso de minha bisavó), mas a língua imposta pelo pai, patriarca, sujeito do patriarcado, colonizador.

3) “Estudo diacrônico não se confunde com estudo sincrônico”

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Fonte: Meninas da Linguística

Item 4 e 5

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4) “Saussure é o pai da linguística”

Obrigada pelo comentário autoexplicativo. Sim, ele é o patriarca. Você exemplificou muito bem todo o meu sistema de pensamento. Valeu!

5) “A língua é um sistema autônomo”

Eu não diria isso sobre as línguas indígenas do Brasil extintas pelos sujeitos – patriarcas – das línguas europeias. A menos que passemos a culpabilizar a vítima e dizer: as línguas extintas se autoextinguiram! A língua sempre tem um sujeito. A menos que ela tenha sido criada por Deus, que seja organizada por algo superior à humanidade. Talvez pensando por esse ângulo, sim, faça sentido o seu comentário. Não que faça sentido para mim, porém compreendo sua forma de pensar.

Item 6 e 7

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6) “A língua não diz respeito às coisas do mundo”

No princípio era o Verbo. É nisso que você acredita mesmo? As mulheres são consideradas mundanas por causa da capacidade de gerar. Por termos ciclos, como a lua, somos associadas à natureza, a algo que o homem deve dominar. Por sermos mundanas, temos de cuidar dos assuntos do mundo, tais como os cuidados com os filhos e com a casa. É uma estratégia de guerra para nos manter cativas aos serviços que os homens não querem fazer enquanto se divertem, bebem ou produzem teorias acadêmicas. Esta dicotomia entre corpo e alma, mente e espírito, língua e mundo, nunca serviu aos seres dotados de útero, portanto. No princípio era o útero, o seio da mãe, e a comunicação que se criava nessa relação. O Verbo precisa de um sujeito pra existir. A minha hipótese é a de que o sujeito original da língua é aquela que gera. E o patriarcado apagou tal fato como apaga tudo o que vai à raiz, ao útero. Primeiro na Bíblia. Depois nas teorias acadêmicas. Eu prefiro o meu chute honesto e sem intenção de obrigar ninguém a acatá-lo do que o que está posto e dado como certo pelas teorias acadêmicas patriarcais. Meu chute não está sujo de sangue, nem exterminou culturas.

7) “Sua definição de mulher cis transfóbica” sobre as origens do termo mulher foi contestada pela linguística

Exato. E eu contesto a linguística. Eu, mulher, dotada de útero, contesto qualquer teoria que apague a raiz da palavra mulher e que me impeça de pensar livremente a minha própria condição, a condição de minha mãe, avó e bisavó indígena estuprada por um colonizador europeu e impedida ter seu nome próprio e de falar sua língua-mãe. Eu rejeito o patriarcado, rejeito profundamente, rejeito as raízes do patriarcado, rejeito o falocentrismo, rejeito pênis entrando no meu corpo. Lésbica. Sou um nada perante a Academia e isto me dá uma mobilidade enorme. Sendo nada para o patriarcado, sou tudo para mim. Prefiro assim.

Item 8

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8) “Usar etimologia da palavra mulher pra legitimar transfobia é feio e rude

Me obrigue a ser bela e dócil. Sempre seremos transfóbicas quando decidirmos lutar  profundamente contra a exploração de nossos corpos e mentes, de nossos úteros, de nossa realidade material, incluindo a história de nossas mães, avós e bisavós na luta. Chamar de transfobia a minha luta contra misoginia mesmo eu tendo sido inclusiva e cordial é apenas uma ferramenta de colonização, perpetuada por pessoas que foram socializadas para explorar mulheres. Um grupo do qual você faz parte e este post é uma prova, independente da sua identidade de gênero. Foda-se a sua identidade de gênero, a minha avó não teve direito nem ao seu nome e nem à sua língua para que esta terra fosse colonizada por patriarcas cujo estudo da língua você defende. Eu posso até te chamar pelo seu nome social e te tratar no pronome certo, mas se eu me aprofundar da colonização do corpo possuidor de útero e lutar contra ela, do meu corpo, do de minha mãe, de minha avó e de minha bisavó, o seu ódio contra mim vai aparecer. Você me quer calada, Quer que eu não existe. Eu só tenho a agradecer por ter se expressado esse seu ódio a essa gentinha que você chama de “mulhere cis”. Por ter sido o modelo exemplar que eu precisava para escrever um texto tão necessário quanto este.

Há braços.

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8 Respostas para “Resposta à carta aberta de Bia Pagliarini”

  1. Natalia

    Não perca tempo discutindo com machos de saia, não vai adiantar. Hômi é tudo igual, querem ter razão sempre. Mansplaining ad infinitum.

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    • milfwtf

      Não é por eles, babe.
      É material para que as mulheres possam discernir sobre a própria militância, se elas se alinham ou não ao pensamento dessas pessoas.

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  2. narawoods

    Por que que essas pessoas citam SOMENTE HOMENS? Será que nenhuma mulher criou teorias respeitáveis e explicativas. A meta-estrutura do discurso é copletamente patriarcal, porque não citam linguistas feministas ou pelo menos teóricas fêmeas ? ??

    Estou me sentindo na obrigação de dizer algumas coisas a mais.
    Sobre o Quesito 5, “A língua e um sistema autônomo que ignora classe social ??”
    Por favor que coisa mais ridícula, não quer dizer que porque alguém escreveu seja verdade e um simples exame de realidade é capaz de comprovar o quanto isso está errado.

    *Quer dizer que uma pessoa com sotaque Nordestino não sofre discriminação por conta do sotaque?
    *E uma pessoa favelada, não pode ser ientificada pelo uso diferente da gramática ?
    * Você já foi corrigido pelos seus pais com relação ao linguajar?
    *E quem não já ouviu dizer que “mocinha não deve falar palavrão”?

    Que teoria mais ridícula e infundada… As pessoas deveria era ter VERGONHA de citar uma teoria dessa.

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    • hadouken

      engraçado como usam nomes de academicos homens da elite branca como se fossem prova incontestavel da veracidade do argumento. não é preciso genialidade pra perceber a quem serve um movimento fundamentado quase que exclusivamente por teorias masculinistas, elitistas e brancocentradas. nem acredito que ja caí nessa lorota um dia, por mais breve que tenha sido.

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  3. Elle

    Texto mais importante e explicativo dos últimos tempos. Somente um macho ou uma mulher acuada pelo medo ou pela criação de fêmea perfeita poderá negá-lo. Chorei ao ler.

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  4. 10101011

    Desculpa se eu for falar alguma bobagem, mas tento estudar esses assuntos e pensar criticamente sobre eles por conta própria fora da academia.

    Não foi o próprio Saussure (na verdade os alunos dele que editaram e publicaram os textos) que disse que existem palavras arbitrárias e semi-motivadas, ou seja, disse que em alguns casos existem sim relações entre as palavras e a materialidade, “as coisas do mundo”? Se eu não me engano um dos exemplos que ele dá são as onomatopéias.

    E como você diz no seu texto, se a gente for pensar diacronicamente, o “input” primordial do ser humano deve ter sido justamente as onomatopéias (logo, no contato mãe-bebê), e pelos sons emitidos pelas ações/coisas que foram, com o passar do tempo, se combinando em fones até criarem conceitos mais complexos e significantes mais complexos de modo funcional pra interação social que só aparentemente não tem relação com a raiz da palavra que lá no início era “mais próxima” do seu significado. Então uma coisa é o significante se transformar com o decorrer do tempo e região geográfica, outra coisa é o significado, o conceito se transformar – e isso tem TOTAL a ver com etimologia mesmo. O significante “mulher” varia em diferentes línguas e em diferentes tempos, mas o SIGNIFICADO de “mulher” pouco variou desde sua origem latina. E se fosse possível ver a etimologia dessa antes do latim, possivelmente o significado seria parecido, e antes dessa, e antes dessa…

    Agora no século XXI o ser que sempre existiu nas várias formas de se dizer “mulher” que existem no mundo ganha mais um atributo pejorativo: “cis”, mais um adjetivo que vem agregar na sua diferenciação (negativa, não adianta dizer que é “só” pra diferenciar) aos seres que nascem com pênis – fazem o que fizeram durante toda a história e se acham revolucionários, alteram o significante e o significado no mundo se mantém, alteram o significante de homem e o significado no mundo se mantém. Pra mim é surreal pensar do mesmo modo dessa galera que pensa que as palavras não carregam as marcas/cicatrizes de episódios objetivos e REAIS (podem relativizar o que é realidade o quanto quiserem).

    O que eu vejo o transativismo fazer é se focar exclusivamente na casca da língua. Por isso são pós-estruturalistas, ignoram totalmente a ideia de signo linguístico que tá no estruturalismo (teoria que não defendo 100%) e que é importante pra entender a língua como sistema não-alheio ao mundo, pq se essa amarração se quebra, a gente cai num relativismo infinito ignorando as “coisas do mundo” e o ser humano como agente, em comunidade e não individual, das línguas.

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