Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Carta aberta a Hailey Kass

Querida Hailey,

Recentemente vi um post seu e fiquei de escrever, repondendo-o. Colocarei aqui os prints com o intuito de contextualizar o motivo da carta, não só para você, mas para qualquer pessoa que venha a lê-la.

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Como você pode notar, não tenho aqui a intenção de deslegitimar a sua identidade (como nunca fiz em toda minha vida e confesso que acho esse tipo de atitude desnecessária). Quero apenas trazer à tona alguns pontos pertinentes à discussão linguística, visto que a minha formação é Letras e tenho uma pós em Semiótica (que infelizmente não terminei, mas sobre o que tenho bagagem).

Em primeiro lugar, gostaria de te perguntar: você sabe qual a origem e significado da palavra MULHER?

Eu sei. E digo.

A origem é latina. Aquela língua cuja qual é a base da Igreja Católica, das missas, coisa e tal. Saussare, esse linguista que você citou, afirma que a língua foi imposta aos indivíduos. Temos um consenso aqui, certo? A partir dessa informação sabemos que quem criou essa palavra foi quem detinha poderes. Pessoas do sexo feminino sempre foram subjugadas pela Igreja Católica. Uma mulher nunca será padre – pai 😉 – ou papa – pai 😉 -. Sempre será apenas uma mulher: aquela que é capaz de parir. E parirá com dor. E será submissa ao homem “porque pecou”. Pois bem: a palavra mulher foi imposta às pessoas com sistema reprodutivo cuja potência é parir pelo sujeito do patriarcado: a pessoa dotada de pênis.

Então.

A palavra mulher vem do verbo mulgere – em latim: ORDENHAR – ou do verbo mulcere – em latim: APALPAR, TOCAR SUAVEMENTE, LAMBER. Portanto, está provado que o gênero que nos foi imposto é baseado em nosso sistema reprodutivo. Não escolhemos, foi uma realidade imposta pelo sujeito do patriarcado, os criadores da língua latina. Imposta a partir do sistema reprodutor com a potência de parir. Tá na etimologia da palavra mulher, que não foi escolhida pelas pessoas detentoras de útero. Seria ridículo pressupor que a língua mais misógina do planeta – a latina – tivesse permitido a participação das pessoas que têm vagina em sua produção. Até mesmo porque foi por meio da língua portuguesa – de origem latina – que culturas indígenas inteiras foram extintas do nosso país. Os sujeitos do patriarcado não dormiram no ponto quanto a isso.

Já a feminilidade nada tem a ver com a biologia. A feminilidade é uma mentira contada pela moral religiosa pra que as mulheres se alienem de seus corpos. Mais precisamente de seus sistemas reprodutores. Para que nossos corpos sirvam aos patriarcas. Os patriarcas chamam-se a si mesmos de patriarcas. Padres, papas, bispos, são todos patriarcas. Pode procurar na Bíblia, eles se chamam assim. Eles inventaram a primeira mentira sobre as mulheres: que nascemos da costela de um homem. Eles inverteram a realidade biológica. Na literatura deles – a Bíblia – a mulher veio do homem e não o homem do útero de uma mulher. E depois dessa inversão, desse apagamento da realidade material, disseram que as mulheres são emotivas, frágeis e dóceis. A isto chamamos de feminilidade: a mentira que criaram para que fôssemos mentalmente e fisicamente subordinadas. Feminilidade, portanto, não é desejável, tendo sido criada para subjugar quem tem útero.

Pois bem. Eles, os patriarcas, apagaram a realidade material das mulheres, imaginando que nunca teríamos acesso ao estudo das origens dessa palavra. Eles não foram tão inteligentes quanto pensavam que eram, afinal, realmente achavam que éramos burras e nunca descobriríamos suas intenções. As provas sobre o que eles pensam de nós – que somos apenas suas reprodutoras – estão na palavra com a qual resolveram nos chamar. Ordenhadoras e lambedoras de novas crias. Apagaram a realidade material na Bíblia, mas o termo pejorativo mulher persiste até hoje. Pois é. Burros. Não imaginavam que iríamos tão longe. Somos bravas sobreviventes de um cativeiro milenar chamado maternidade compulsória. Fortes e resilientes. Pois é, muito melhores do que esperavam.

E agora, depois de séculos e mais séculos presas por meio do regime político da heterossexualidade obrigatória, sendo obrigadas a aceitar como padrão o sexo reprodutivo – lembra que a Igreja Católica ainda é contra o uso de camisinha? – quando nosso órgão do prazer – o CLITÓRIS – fica fora da vagina e isso tem um motivo (não fomos feitas pela natureza para sermos meras reprodutoras, não precisamos de penetração para sentirmos prazer), alienadas da possibilidade de abortarmos – Igreja Católica ainda comanda o governo e mídias de massa brasileiras, a Globo sempre faz matérias sobre o Papa, por exemplo -, sendo distanciadas da possibilidade de empoderamento intelectual para que eles fossem os únicos detentores das capacidades intelectuais, excluídas das universidades, enfim, depois de dois milênios sendo impedidas de escrever e publicar livros, dois milênios carregando sobrenomes que sempre foram de pessoas com pênis (pode reparar, pessoas com vagina carregam o sobrenome de seus donos possuidores de pênis, a isso chamamos PATRIARCADO), o que significa que pessoas com vagina NUNCA TIVERAM DIREITO A UMA >>>>IDENTIDADE<<<>>>CULTURA PRÓPRIA<<<<, agora que, tanto tempo depois de toda essa dominação sem sequer podermos nos sentir representadas nos livros de história onde estudamos quando éramos adolescentes (a história sempre é contada do ponto de vista do COLONIZADOR e não das COLONIZADAS) finalmente compreendemos a raiz da palavra mulher e estamos dispostas a lutar contra essa exploração milenar de nossos corpos, você quer que aceitemos que o termo mulher seja definido por quem tem pênis dentro de nossos espaços de luta?

Não vou te chamar de homem, de macho. Não ganharia nada com isso. Você é mulher trans. Ok, nada contra. Citando Saussare novamente: a língua é imposta, a fala é mais flexível. Mas tenho uma pergunta:

Quem é que sistematicamente vem apagando o sistema reprodutor capaz de parir? O PATRIARCADO. Não adianta tomarem nosso nome de nós, fomos marcadas como gados  – vacas reprodutoras – a ferro e fogo com a palavra mulher, e mesmo que se apropriem daquilo que foi a ferramenta da nossa exploração enquanto nós sofremos para nos livrarmos do que nos foi imposto por sermos capazes de gerar e parir, mesmo que reivindiquem para si o uso do signo, o significante e o significado da palavra mulher, o seu sentido sempre será o mesmo quando analisada a etimologia desta palavra. E isso não é culpa nossa.

Bota na conta do Papa, não na das pessoas com vagina. Porque botar na nossa conta é só reforçar seu papel de sujeito da exploração das mulheres. E nós não vamos tolerar caladas. Curso de Semiótica aceita pessoas com vagina atualmente, para a sua infelicidade. Melhore seus argumentos.

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A propósito: eu não sou sequer feminista. Seu comentário foi um tanto quanto academicista. Bem como todo o seu texto. Repare na diferença na sua forma e na minha forma de escrever. Meu público-alvo é bem outro. Não são os mestres da Academia. São, de preferência, as mulheres que foram impedidas de estar lá por serem mães,só pra citar um exemplo.

Aguardo uma resposta aqui nos meus comentários, estou louca pra trocar uma ideia com você. Sem ofensas, como escrevi todo este texto. Minha capacidade de argumentar não necessita pisotear na vivência de ninguém para ser demonstrada. Você será bem-vinda, embora eu acredite que não vá responder.

ATUALIZAÇÃO

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Esta foi a resposta dela a todo o meu texto. Como se a “minha carteirada” não fosse uma resposta válida à prolixidade acadêmica dos prints postados ali em cima. Quem não está dentro da Academia não compreende textos acadêmicos pesquisados no Google, viu moça? Não adianta bancar a cínica.

Deslegitimar tudo o que eu disse por eu retrucar seu academicismo com carteirada, este é o seu argumento? Nada do que eu disse anteriormente é válido porque eu disse que tenho conhecimento sobre o que eu estou falando?

Ah, a socialização nunca falha, não é mesmo? Quem tem que melhorar aqui, está bem nítido: é você.

Grata pela resposta.

ATUALIZAÇÃO 2
Resposta à moça que disse que a etimologia da palavra não se aplica ao caso e que usou sua energia para defender a Hailey enquanto ela mesma nem se mexeu pra isso, inclusive me chamando de transfóbica (sei).

Moça, eu citei Saussare apenas para mostrar que arrotar nomes acadêmicos com o intuito de corroborar argumentos é algo fácil de se fazer. Porém, não concordo com Saussare, nem me sinto coagida a concordar. Todos os linguistas que você citou, bem como todos os que a Hailey citou, são porta-rolas e as teorias deles foram escritas com o silêncio de sangue das mulheres. Inclusive das próprias mulheres deles que cuidavam de seus filhos enquanto eles investiam em se debruçar sobre a língua. Rejeito, portanto, toda a teoria linguística criada por machos por saber que elas foram construídas para que perpetuassem a exploração de nossos corpos. Reservo-me este direito como lésbica: o de excluir fisicamente pênis do meu corpo e também o falocentrismo cultural que predomina na Academia. Grande abraço.

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11 Respostas para “Carta aberta a Hailey Kass”

  1. Malévola

    A isso se chama pedantismo piroco. Quanto mais a inteligência da mulher mais o piroco se sentirá atacado e fugirá do assunto. Querer bancar de ser mulher porque se “sente” uma e performa todo o dia é treta. Faça teatro é menos ridículo. Seria bem menos até que aquele texto pedante até doer e só foi pdf da Internet, porque imagino eu que se entendesse de semântica, essa zuera já teria acabado faz tempo na sua vida. Bastava apenas que como alguém nascido como homem melhorasse e não reforçasse o patriarcado. Use sua dica para você mesmo Halley sei lá das quantas: apenas melhore.

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    • milfwtf

      O feminismo nasceu num berço classe-média e hétero. Isso não seria um problema se a classe-média e hétera não silenciasse as pautas periféricas e lésbicas. O feminismo não vai parar de silenciar tais pautas, portanto não produzo conteúdo em nome do feminismo mas luto ao lado de feministas que compartilhem das mesmas pautas que eu.

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  2. Natalia

    Mas mesmo no Feminismo Radical você sente esse silenciamento? Ultimamente tenho vergonha de me declarar feminista mais por causa desse pós-feminismo liberal da terceira onda.

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    • milfwtf

      Sim, mesmo no Radical. As teorias me representam, o ativismo não. Considero que quem tem acesso a essas teorias também tem a grande responsabilidade de olhar para os próprios privilégios e confortos sociais afim de não perpetuá-los em detrimento de direitos básicos de outras mulheres. Mas infelizmente essa responsabilidade é utópica dentro do ativismo.

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      • Arttemia Arktos

        Contrariando o que vc disse, eu te considero uma verdadeira e legítima feminista, nos seus textos e no seu ativismo. Acho triste que vc não se considere mais uma feminista. Tantos machos se infiltrando e se declarando feministas, rotulando outras feministas, combatendo o feminismo radical, cooptando feministas com suas teorias e vc, uma mulher rejeitando o feminismo. Seja feminista do seu jeito, mas não seja mais uma a deixar o feminismo nas mãos dos infiltrados do patriarcado.

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      • milfwtf

        Não se apegue ao termo. O feminismo está colonizado. Na verdade nasceu assim. Nasceu na classe-média, nasceu com héteras. Não me representa, entende? Por favor, respeite a minha posição. Triste não sou eu não me dizendo feminista, triste são as próprias feministas expulsando mães, periféricas e lésbicas do movimento. Elas que têm que ser cobradas, não eu. 😀

        Beijo!

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  3. L

    Concordo mto com a questão colocada de o feminismo estar cada vez mais afastando de si e silenciando as lésbicas e mães do movimento. Mas isso não impede de a gente procurar fazer ele melhor. Pelo menos no feminismo Radical, vejo mto esforço pra isso, pra tornar o feminismo um movimento de/para mulheres, incluir as mulheres, especialmente as negras e lésbicas. Inclusive as meninas traduzindo textos de teóricas feministas pra facilitar o acesso (ainda que, como você disse, não seja fácil pra um leigo entender vocabulário acadêmico). Espero não estar sendo pedante ao dizer isso, mas, como a moça ali disse, ainda que você não se proclame feminista, suas atitudes parecem muito mais cheias de sororidade que muitas meninas que se proclamam feministas por aí.Admiro muito sua história e o seu blog, espero que você seja muito feliz. 🙂

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    • milfwtf

      Eu realmente não acredito que o feminismo vá mudar, porque não acredito em reforma e sim em revolução. Quem quiser tentar tem todo meu apoio, mas não sinto vontade de fazer parte disso, não sinto vontade de estar vinculada ao feminismo. Meu amor por mulheres antecede o conhecimento da teoria, sororidade eu tive com a minha mãe desde criança, por exemplo, que apanhava do meu pai e eu falava pra separar, que não tinha o Ensino Médio completo e eu ganhei uma bolsa pra ela terminar, e mesmo essa sororidade não me protegeu do ódio da minha mãe por mim porque a socialização para mulheres se odiarem é perfeita e onde eu mais vi ódio entre mulheres foi no movimento feminista, inclusive dirigido a mim, por eu ser mãe, pobre e lésbica. Eu entendo quem quer continuar sendo feminista, mas eu não quero. Isso não deveria ser questionado, é um direito meu.

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  4. Marília da Rocha

    Não entendi bem tua visão quanto as transsexuais no feminismo. Li o texto com sede para saber tua visão sobre mas só encontrei uma resposta sobre que não foram as mulheres que criaram o termo mulher ou feminilidade. Poderia me dizer sua visão sobre as trans no feminismo?

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