Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Biofilia I

Para J.G.R

Antes do primeiro beijo, durante, depois. Agora ainda tenho, embora em menor quantidade. Eu não sabia dizer por que, mas começo a compreender: tem verdade demais dentro deles. Tremo. Perco a fala. Sinto vergonha por não saber explicar-me a mim mesma a fim de poder me explicar a você. Não compartilho esta secreta verdade com o intuito de te poupar de um possível mal-estar diante da minha incapacidade de explicar: medo do quê? Medo de você adivinhar meu medo sem entender, ficando a mercê de conclusões que possam te afastar de mim. Procuro dentro de mim a resposta, sinto ter chegado aos limites da racionalidade, preciso me jogar no desconhecido – e me jogo, sempre me joguei apesar do medo – desvio os olhos, volto a deitar meu olhar sobre o seu me sentindo em queda livre. A queda livre, finalmente, livre. Em seu fim, não as pedras do abismo, não a morte.

Biofilia*.

Amor à vida.

Teus olhos são os meus olhos toda vida sedentos por amor tangível, sem apesares de, sem estocolmo. Um espelho cristalino da minha procura dolorida por reciprocidade. Pela primeira vez eu me vi nos olhos de alguém que olhasse pra mim e não para o seu próprio ego. Resolvo encará-los, encarar a verdade. A cada tentativa me prolongo mais no olhar, permitindo-me cair, cair livremente. Hoje já consigo me demorar dentro dos seus olhos sem fugir. É o medo indo embora. Digiro o que sinto ansiosa pelas palavras que até agora me faltaram, ansiosa pela comunicação, para te oferecer mais de mim, afinal você me oferece tudo sem o menor resquício de medo. Você merece receber também. Então receba. Receba um rascunho do que tenho refletido sobre nós duas. Com um pedido de desculpas pela minha demora em saber nomear tantas novidades.

Somos poesia nova fora do alcance da interpretação dos homens.

*Mary Daly definiu a união entre mulheres que amam mulheres como sendo biofílica (amor à vida), a fim de distingui-la de outras formas de criação de laços na “sado-sociedade” supremacista masculina. Ela aponta que a camaradagem/união masculina subsiste da energia sugada das mulheres.

image

Eternizadas em fotografia as primeiras rosas que você me deu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

HTML básico é permitido. Seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine este feed de comentários via RSS

%d blogueiros gostam disto: