Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Sou lésbica, mas não “nasci assim”

Talvez exista uma carga genética que tenha influenciado na minha orientação sexual. Sim, talvez, e eu diria que até provavelmente que exista essa carga genética, um gene lésbico ou qualquer coisa assim. Não descarto a possibilidade, até mesmo porque eu não sou geneticista e nada posso afirmar. Além do mais, a memória do início de minha sexualidade, tirando o início da colonização do meu corpo por um velho quando eu tinha sete anos de idade, é permeada por flashes de brincadeiras entre as amiguinhas. Todas héteras hoje em dia. Meu primeiro beijo e a minha primeira relação sexual foram com uma menina, a mesma, com quem eu tinha uma amizade fortíssima, mas já sem cogitar a possibilidade de isso se tornar algo mais. Afinal, não existia referência de lesbianidade disponível para mim naquele momento, assim como continua não existindo para as garotas hoje em dia. A primeira vez que eu tive contato com a ideia da possibilidade de que duas pessoas do mesmo sexo poderiam se sentir atraídas fora da minha vivência (que eu nem questionava se era normal ou não, apenas vivia de forma secreta) foi quando disse uma palavra para a minha mãe e ela a confundiu com a palavra “baitola”, que até então eu desconhecia. Ela achou que eu a havia xingado dessa forma, e reagiu muito brava. Não entendendo nada, ela questionou o que eu tinha dito (não me recordo agora), e percebeu que fora apenas um mal entendido. Mas eu queria saber o motivo de ela ter ficado brava, e ela me respondeu: baitola é uma pessoa que gosta da pessoa do mesmo sexo. Pronto. Eu não podia gostar de alguém do mesmo sexo que eu, ou seria “baitola”, e isso poderia ser usado como ofensa contra mim. Portanto, de que importa a carga genética, se a despeito dela, eu não poderia usufruir da minha orientação sexual natural livremente? Meninas já não podem usufruir livremente de suas sexualidades, o que já moldava a minha sexualidade (lembro de ter sido questionada pelo meu pai em tom de reprovação um dia enquanto eu esquentava a mão no meio das minhas pernas pelo frio se eu estava me esfregando sexualmente), e agora eu tinha um problema duplo: além de saber que o meu próprio prazer era algo reprovável, eu também sabia que as minhas vivências com outras meninas também o eram. Publicamente, eu só poderia demonstrar interesse por homens. Minha família nunca permitiria o contrário. A isso, teóricas lésbicas chamam de heterossexualidade compulsória.

A heterossexualidade compulsória não é algo que ocorreu só na minha família. É uma estrutura, um regime político reproduzido por todos os núcleos familiares da sociedade. O controle da sexualidade das crianças para a heterossexualidade permeia completamente a vivência das crianças, e a separação das brincadeiras por gêneros é uma das diversas ferramentas desse tipo de controle. Não é só a família que faz manter esse regime político. A religião cristã cumpre muito bem esse papel, oferecendo a base moral da educação das crianças. Meu pai, por exemplo, vivia dizendo que seu sonho era ver sua filha entrando de véu e grinalda em uma igreja. A “sorte” é que o casamento dele e da minha mãe era falido e a minha mãe não tinha o menor pudor em escancarar isso pra mim. Ela sempre criticava o álbum do casamento, dizendo o quanto ela odiava aquele bigode dele, que ele sabia disso, e insistiu em estar no dia do casamento com bigode do mesmo jeito. E não escondia o fato de ele ter se atrasado, deixando-a esperando no altar por meia hora. O que meu pai sonhava pra mim acabou, sim, construindo meus desejos em relação ao futuro, mas eu já tinha, de pequena, ferramentas para problematizar um dos rituais mais importantes da heterossexualidade compulsória. Ela existe pra isso: para que as mulheres sempre pertençam a um homem. Pertencendo aos homens, mais dia, menos dia, as mulheres engravidam e se tornam a incubadora dos herdeiros do patriarca e mão-de-obra do capitalismo. A heterossexualidade compulsória é uma estratégia para a perpetuação da maternidade compulsória. Estando as mulheres ocupadas com os cuidados com as crianças – já que até hoje os homens não cumprem tais tarefas e os que cumprem são exceções, ou seja, não podem virar parâmetro para análise social -, os homens continuam sendo os donos do mundo. Eles continuam tendo tempo para investir em si mesmos intelectualmente, para se dedicarem à carreira, ao futebolzinho com os amigos enquanto as mulheres cuidam das tarefas domésticas e do rendimento escolar dos filhos, além de suas carreiras em que precisam se esforçar muito para conseguirem reconhecimento.

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Lesbianismo é sobre isso. O resto é estupro.

 

Pois é, a heterossexualidade compulsória me pegou. Secretamente, eu era bi. Uma forma inconsciente de resistir, de não deixar que tudo referente a minha sexualidade me fosse sequestrado daquela forma. Na adolescência, passei a ter contato com meninos que tinham fetiche por meninas que se beijavam. Achei interessante. Eu já tinha aprendido que eu deveria agradá-los, e me agravada a ideia de fazer de conta que estava agradando a eles enquanto me agradava. Me dizer bi era uma forma de me destacar das demais, quebrando a concorrência. Eu tinha o que a maioria dos meninos queria, eu era aquela que poderia, quem sabe um dia, fazer um ménage. Isso mexia com o imaginário dos meninos. Acabei então levando a minha bissexualidade mais como essa brincadeira de mexer com a imaginação dos meninos, era tudo o que me era permitido fazer. Mas eu sempre me interessava por meninas sem admitir pra mim mesma. Sempre as achava lindas, inteligentes, profundas, enquanto os meninos eram superficiais, agressivos e monótonos. Foi engravidando e morando junto com um homem durante três meses que comecei a me permitir questionar se eu realmente gostava de homens. Todos eram mais ou menos sádicos, todos se importavam mais com o que eu vestia pra fazer sexo do que com as possibilidades erógenas escondidas no meu corpo nu, todos tinham um gostinho pela dor, pela puxadinha no cabelo, todos achavam que seus paus eram uma britadeira e a minha buceta uma calçada a ser esburacada com força, todos nada preocupados com lubrificação. Não podia ser que eu é que tinha dado azar na vida. O problema não estava em mim. Estava no padrão sexual masculino. Um padrão baseado na pornografia. Na cama, eu não era um ser humano pra eles. Eu era a atriz pornô que eles podiam ter. Uma atriz dedicada, que havia aprendido a performar a submissão, quicando eu seus paus forte e rápido e gemendo como se eu estivesse amando aquilo, mas na verdade fazendo daquela maneira para acabar com o suplício de ter de dar prazer a eles sem a menor boa vontade da parte deles em fazerem o mesmo comigo.

 

Eu poderia ter usufruído da minha carga genética lésbica se a sociedade não tivesse sido moldada para que as mulheres pertencessem aos homens. Mas a sociedade foi moldada para que as mulheres pertencessem aos homens, a sociedade patriarcal é uma sociedade de guerra às mulheres, guerra fria, repleta de estratégias camufladas de “sonhos femininos”, das quais uma delas é o regime da heterossexualidade compulsória: casamento, maternidade. Portanto, se a lesbianidade (e a homossexualidade) têm ou não uma carga genética, não importa, porque se ela tem, as mulheres são alienadas dessa carga, como são alienadas de suas vulvas, seus clitóris, seus úteros (tão alienadas que esses órgãos pertencem ao Estado), seus partos, seus seios. Não me importa se existe ou não essa carga genética. Importa que a sociedade odeia as lésbicas, pois elas representam a encarnação do mal, das mulheres que foram feitas pra serem dos homens e reproduzirem herdeiros e mão-de-obra para os homens mas se rebelam contra o sistema. Lésbicas são a representação do sexo não-reprodutivo, proibido para mulheres. Eu não nasci assim. Eu morri no parto e renasci assim.

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4 Respostas para “Sou lésbica, mas não “nasci assim””

  1. narawoods

    Venho no seu Blog quase diariamente. Por muito tempo eu busquei o sentido da vida, a razão das coisas serem como são, a razão das injustiças sociais hoje eu consigo ver claramente que muito disso é consequencia do sistema patriarcal, que sequestra o poder de “metade” do mundo atravez de prisões mentais. Eu não aprendi sobre isso na academia, nos livors, nem da minha família, eu aprendi isso abrindo meus olhos aqui. Cada frase do seu texto é como uma uma sangria dentro da minha alma das mazelas e impurezas que foram projetadas sobre mim, por simplesmente ser mulher, houve toda uma preparação pra que eu fosse sequestrada do meu próprio sentido e liberdade. Quero Deixar aqui minha imensa gratidão por abrir meus olhos, eu não posso descrever com palavras o poder libertador que tem sindo ler seus textos aqui. Mes eternos agradecimentos.

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    • milfwtf

      Nossa, moça, assim eu fico emocionada. Que bom esse despertar, que bom que te ajudei de alguma maneira. Me sinto útil. Obrigada por não guardar isso pra você, por compartilhar comigo, faz muita diferença! Às vezes a gente acha que tá falando com as paredes… rs

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