Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Mãe é tudo igual

Mãe é tudo igual. Tão logo tomam conhecimento de que têm um punhado de células se multiplicando dentro de si que formarão um feto e depois um bebê, já começam a ser preparadas para o suplício da maternidade. Sem o conhecimento de que punhado de células ainda não é ser humano, não sabem também que aborto não é assassinato, ou todo homem assassinaria milhões de seres humanos a cada punhetinha batida. Qual a diferença entre um espermatozoide e um zigoto, afinal? Grávidas ainda não são mães, mas serão obrigadas a ser. Primeiro pela culpa cristã que as afastam do direito à interrupção da gestação. Depois, pela não-laicidade prática do Estado, que retira delas o direito ao aborto seguro e assistido. O que, ironicamente, poderia fazer reduzir o número de abortos, como aconteceu no Uruguai, e extinguir as mortes decorrentes da prática clandestina, como também aconteceu por lá. Mas quem se preocupa com morte de mulheres aqui no Brasil, não é mesmo? Ainda mais de mulheres-mães. O importante é “não prejudicar o beb… amontoado de células”. Assim que as gestantes contam a novidade para a sociedade, deixam o pouco direito à humanidade que já tinham por serem mulheres, o segundo sexo, para se tornarem embalagens ambulantes de um futuro ser humano. Embalagens que não podem expressar tristeza, raiva ou angústia “para não prejudicarem o bebê”, ainda que elas tenham sido expulsas de casa ou do mercado de trabalho por estarem grávidas, ainda que elas já comecem a ser preteridas pelas amigas porque “a realidade delas já não batem mais”, ainda que elas tenham sido afetivamente, fisicamente e economicamente abandonadas pelos doadores de esperma, ainda que elas convivam com os genitores violentos, todo mundo tem uma resposta pronta para as angústias das gestantes. “Calma, assim você vai prejudicar o bebê.”

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Sim, sou eu. A “arte” está ridícula, mas foda-se. Nâo tamo aqui pra embelezar e sim pra informar.

 

Mãe é tudo igual. Quase todas já sofreram estupro institucional. A maioria sofreu ou vai sofrer violência obstétrica no parto, colocando mais um trauma na sua conta de traumas sexuais prévios. Sim, porque parir é um evento sexual, logo, a violência no parto gera um trauma sexual, equivalente ao estupro. Mas quem se preocupa com mães sendo estupradas pelo Estado e pelo capitalismo selvagem dos planos de saúde, não é mesmo? Fora que a medicina, detentora dos discursos sobre a saúde das mulheres, acredita que a anatomia feminina é inferior, não sabe se virar sozinha, não pode parir sem intervenção, e também não é capaz de produzir leite direito como qualquer outra mamífera. E se produzir, o leite não vai sustentar, vai virar água, não vai nutrir. É como se o mundo inteiro gritasse: teu corpo é por si só um defeito, você não consegue nada sozinha. Vai precisar de uma cesárea, vai precisar de fórmula, vai precisar de chupeta, vai precisar de um macho pra sustentar a família. E se decidir se rebelar contra todo esse sistema, lá estarão todos novamente para dizer “calma, agora você tem que se preocupar com o bebê” ou “calma, o que importa é que a criança nasceu saudável”, ou “calma, tudo é assim mesmo”.

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Cicatriz de uma episiotomia. Foto: Carla Raiter, retirada do projeto 1:4 Retratos da Violência Obstétrica.

 

Mãe é tudo igual. Acorda, se troca, prepara o café-da-manhã para a criança, acorda a criança, coloca o uniforme na criança, leva a criança pra escola, vai para o trabalho, pega a criança na casa da avó, da tia, da vizinha ou de qualquer outra mulher (leram bem? m-u-l-h-e-r) que tenha se disponibilizado para fazer o favor de ajudar, passa no mercado, volta pra casa com  sacolas penduradas em um braço e a criança de 15kg dormindo no outro braço, descasca os legumes, corta o peito de frango, prepara o arroz e o feijão, a criança acorda da soneca, dá banho na criança, vê que a criança está com febre, dá o jantar pra criança que se nega a comer pois está sem apetite, leva a criança ao médico, fica uma hora e meia na sala de espera, é chamada de “mãezinha” pelo lazarento do dotô, olha a receita, vê que ele passou remédio com corticoide, volta pra casa sem passar na farmácia pois se recusa a dar corticóide para uma criança de três anos que está com um simples resfriado, faz um chazinho, escova seus dentinhos, deita com a criança para ajudá-la a dormir, a criança tosse a noite inteira, a mãe não dorme a noite inteira, consegue tomar banho só cinco horas da manhã, que foi quando a criança não chorou na tentativa dela se afastar da cama, e começa o dia, tudo outra vez. E o pai? Ah, o pai é Pai quando dá.

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Se você não tiver uma boa carreira e um bom salário, é porque você não se esforçou muito pra chegar lá, vagabunda!

Mãe é tudo igual. Se resolve colocar o doador de esperma que não quer nem pagar pensão na justiça, é a interesseira que só quer saber do dinheiro, ou a megera alienadora que faz a cabeça da criança pra ir contra o pai pelo gostinho da vingança. Vingança feminina, sabem? Coisa típica dessa gentinha do segundo sexo que desde os tempos de Eva só quer provocar a queda dos homens. Essas privilegiadas que ficam com a guarda unilateral em noventa por cento dos casos de separação. Se sacrificar sozinha e sem amparo pela cria, esse grande privilégio. Morrer assassinada por requerer pensão, outro grande privilégio. Mãe é tudo igual. Tem mãe casada que sofre violência doméstica, tem mãe solteira que não tem casa pra morar, tem mãe lésbica que perdeu a guarda da criança por lesbofobia, tem mãe preta tendo que cuidar de filho de branca enquanto os seus próprios ela teme que morram nas mãos da polícia, tem mãe sendo acusada de alienação parental por ter denunciado o pai da criança por abusar sexualmente de sua cria e sendo obrigada, judicialmente, a permitir que a criança seja levada pelo pai para a visita. Porque nada é mais importante na vida de uma criança do que a presença do pai. Mesmo que ele seja estuprador.

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Por um mundo em que mães que denunciam pais que abusaram de seus filhos sejam ouvidas e incentivadas, não caladas e acusadas de alienação parental. O que VOCÊ está fazendo para mudar esta realidade?

Ah, mas mas mãe? Mãe é tudo igual.

E o Dia das Mães está chegando. O que há a se comemorar nesse dia? Nada, absolutamente. Não, eu não devo me orgulhar dos sacrifícios que faço para sobreviver com dignidade e educar com dignidade o meu filho. Porque as que não conseguem não devem se envergonhar, afinal, não é culpa delas. A sociedade deveria morrer de vergonha por esse dia de exaltação à anulação da humanidade das mulheres pelo “bem das crianças”. Mãe, esse ser sagrado, eterna doadora, eterna alienada de si mesma. As mulheres não deveriam ser submetidas ao sacrifício da maternidade. Aliás, a maternidade não deveria ser um sacrifício. Mas ela é. Um sacrifício compulsório, do qual poucas conseguem escapar. Eu gostaria de poder expressar o orgulho que sinto por ter um útero, um órgão capaz de produzir um ser humano. Nem isso eu posso. É terminantemente proibido me orgulhar de minha anatomia, de minha biologia, das potências que habitam as minhas entranhas. Pelo menos não por completo. Porque para me orgulhar disso, eu teria de me esquecer de que mães morrem apenas por serem mães e ninguém, nem mesmo o feminismo, tem respeito por nós. Nem nós mesmas temos, sinceramente. Perdemos ao longo dessa jornada suicida e destrutiva que é ser mãe.

Pois é. Mãe é tudo igual.

 

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3 Respostas para “Mãe é tudo igual”

  1. Glaucia Pinna

    Sabe o que é o absurdo da discórdia? Eu tenho IIC, uma má formação nas fibras do colo do útero, o que o torna fraco não suportando o peso do bebê e abrindo antes do tempo, chama-se insuficiência istmo cervical. Eu NÃO queria perder meu bebê, de modo algum queria que me bebê falecesse. Ele foi programado, muito esperado e MUITO cuidado. Mas ao chegar no hospital com 23 semanas de gestação (sim já era um bebezinho), pois havia saído uma meleca estranha, não sentia dor, nada de anormal… A médica olhou na minha cara e disse: Você está com dilatação total, vamos te internar para você perder o seu bebê. Eu disse: O QUE???? Eu não vou PERDER o meu bebê!!! E ela olhou pra mim e disse: Esse bebê pra gente não é viável, você perde esse e depois engravida novamente, na próxima a gente faz a cerclagem (costura o colo do útero para segurar o bebe) e você faz repouso na sua casa. Ou seja, eu ficaria meses internada para segurar esse bebe, então ele não era viável (R$$$$$$) ?????
    Mas quando uma mãe NÃO quer ter o bebê e decide tirar com 1, 2 meses, todos ficaram nesse CHORORO de que é crime, é uma vida… É O CARALHO!!!!!!! Por que comigo não teve esse papo de “não podemos matar uma vida”??????? Meu filho MORREU!!!!!!! Por culpa do sistema. Não fizeram uma porra de um exame que medisse o colo do meu útero, por não ser “viável” meu filho pagou com sua vida. Até quando esse bla bla bla?????? Deveriam se importar em salvar os bebês dessas mães, despedaçadas… Conheço mães que já perderam 3 bebes, todos já com quase 6 meses de gestação… Ficam preocupados em obrigar mães a terem filhos não desejados e não planejados, mas deixam caixão, velório e dor às mães que amam e querem ter esses bebes. Brasil, país de merda mesmo.

    P.S. Meu bebe nasceu de 24 semanas, 620 gramas e com infecção. Não me deram NENHUM tipo de antibiótico durante minha internação, acredito que por isso meu bebe já nasceu com pneumonia. Na uti neo não tenho do que falar, fizeram de tudo para salva-lo, mas teve SEPSE, a infecção estava muito forte e com 3 dias de vida ele partiu. Me deixou com um buraco no peito e uma dor insuportável na alma.

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    • milfwtf

      Glaucia que história triste, que ódio deste sistema que nos odeia, que faz de conta que se preocupa com bebês para destilar todo seu sadismo às mulheres. Todo meu apoio para você, obrigada por compartilhar sua história aqui neste post.

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