Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Luta que pariu – 2 anos depois

Ou como parir me ajudou a entender minha lesbianidade

Hoje, dia cinco de maio de 2015, faz dois anos que eu pari. No relato de parto que escrevi alguns dias depois, relatei que pouco antes de entrar no expulsivo, tive um encontro com minha mãe no banheiro, um encontro aguardado por toda a minha existência, que havia me curado de algo e eu não sabia exatamente do quê.

“Pecebi que tentava racionalizar o que eu sentia e eu sabia que não era esse o caminho. Eu tava tentando achar um motivo para meus sentimentos, queria dar-lhes um nome para ver se dessa maneira os controlaria e estava quase me contentando com a explicação mais óbvia: que o meu medo era medo de parir no vaso. Mas definitivamente a questão era muito mais profunda do que aquilo e eu precisava me aprofundar na minha inconsciência, afrouxar os laços com a realidade objetiva, estreitar a conexão com minhas emoções. A dor ajuda a gente com isso. Não tenho dúvidas de que é essa a função da dor em um trabalho de parto: a entrega total ao corpo, que tudo sabe. A dor me fez esquecer a vergonha.Me entreguei ao blackout do meu lado racional, passei a vocalizar alto e longo a cada contração. Até que ele, meu corpo, compreendeu sem palavras que o que ele precisava ali, naquele momento, era da minha mãe. E eu obedeci ao pedido.

‘Pega o banquinho e fica aqui comigo?’

Coração apertado, apertado. Acho que esse “fica aqui comigo” estava entalado na minha garganta desde quando eu era pequena. Ela sentou, eu estendi a minha mão procurando pela dela, ela pegou a minha e nesse momento senti meu peito se abrindo, meu corpo se abrindo, minha alma se abrindo, e eu chorei. Minha mãe estava ali pra mim, finalmente. E finalmente eu era capaz de pedir presença, me mostrar vulnerável. Nós duas que já trocamos tantas farpas nessa vida. Nós duas estávamos enfim ali, entregues a nós mesmas, a um novo princípio que não sabíamos e ainda não sabemos onde vai dar. Choramos. Copiosamente. Um choro sentido, comportas de uma velha represa dando passagem para a água correr lavando e regenerando nossas almas. Era verdade então: parir faz a gente viajar pra onde nossas emoções mais ocultas se escondem, praquele escaninho da alma que preferimos fingir que não existe. Parir pode curar e eu ainda não sei bem exatamente quais das feridas recebeu o remédio, mas sei que o alívio foi imediato. O corpo, tendo o que pediu, se acalmou. O coração ficou leve. Eis que a Ana Cris aparece no banheiro. Eu sorri duplamente aliviada. Pelo nó desfeito no peito, pela chegada da parteira que anunciava a proximidade do momento mais esperado da minha vida.”


Descansando entre as contrações.

Descansando entre as contrações enquanto recebia cafuné materno. Um pouco antes de parir, Clarice, a gata à direita, colocou suas patinhas na piscina e olhou dentro dos meus olhos. Duas mamíferas  de espécies diferentes se compreendendo pelo olhar.

Bem, passados dois anos, retorno a este trecho para corrigir uma falha em minha interpretação dos fatos: não, aquilo não era a cura, era a abertura de uma ferida que apodrecia por dentro a despeito da cicatriz que cobria o ferimento. A ferida era a separação entre minha mãe e eu, uma separação cuja qual ela não tem culpa nenhuma, e nem eu. Nós, duas mulheres, sangue do mesmo sangue, carne da mesma carne, fomos impedidas de cultivarmos o vínculo matrilinear biofílico. Quem nos impediu foi o patriarcado. Desde seu parto, quando ela sofreu uma episiotomia que meses depois infeccionou e a levou internada, ficando distante de mim por três dias e secando seu leite. Quem nos impediu foi o patriarcado, antes mesmo de eu nascer, quando ela teve sua barriga chutada e socada pelo homem que deveria estar ao lado dela. Quem nos impediu foi o patriarcado. Não foi “o machismo”, uma ideia que paira no ar sobre nossas cabeças, mas sim um sistema, uma estrutura, uma ideologia que não se faz a si própria sozinha, mas sim pela mão de sujeitos: homens, aos montes, mesmo desconhecidos entre si: meu pai, cientistas, religiosos, de hoje e de séculos atrás. Foram os homens que retiraram o poder das parteiras, denunciadas como bruxas e queimadas na Inquisição. Foram os homens que inventaram a cesárea e as mentiras sobre a anatomia feminina. Aliás, as mentiras sobre a anatomia feminina são a base dos textos bíblicos. E a própria Bíblia chama seus autores “inspirados por deus” de patriarcas. Foram os homens que inventaram que pariríamos com dor. Os patriarcas separaram as mulheres de nossos próprios corpos, e nos separaram umas das outras, desde o núcleo original matrilinear. Esta era a minha ferida aparentemente fechada, mas podre por dentro. Não poder amar mulheres, não ter recebido o amor esperado de minha mãe, não poder, não poder, sempre o medo do não, o medo de me machucar, o medo da rejeição. A cicatriz fora arrancada no dia do parto, e a isso eu chamei de cura. Não estava totalmente errada. Foi o começo da cura. Eu só não esperava que seria tão, tão dolorido o que vinha depois. Mas eu sabia que eu seria forte. Que a minha biologia era forte e perfeita, que meu corpo daria conta de tudo. A consciência corporal que ganhei ao parir nunca poderá ser retirada de mim. E a consciência social que veio com o conhecimento do meu corpo, não a trairei jamais.

Não finjo mais, não escondo mais meus ais, só assim sou capaz de me sentir em paz.

Não finjo mais, não escondo mais meus ais, só assim sou capaz de me sentir em paz.

Parir me ajudou a me orgulhar do meu corpo

Quando adolescente, eu era atleta. Carateca. Antes disso, eu era magrela, tripa seca, sem peitos, assim me chamavam meus primos e coleguinhas na escola. Quando comecei a ganhar corpo, os meninos passaram a me olhar diferente, a me elogiar. Eu, que já tinha a autoestima bastante abalada, gostei da novidade, aprendi que eu existia para agradar olhares masculinos. De repente eu não podia ter celulite, nem estrias, tinha de fazer sobrancelha, depilar as pernas, até mesmo os pelos da minha virilha já tinham sido alvo de piadas um dia na piscina. Engravidar me foi de um extremo desconforto. Primeiro, porque enquanto eu estava grávida, eu ainda gostava do genitor, e ele me humilhou sexualmente por eu não me importar em performar a feminilidade como ele gostaria que eu performasse. Por não performar a feminilidade (ele queria controlar as minhas calcinhas!), ele deixou de me desejar, ou seja, ele não desejava a humana que eu era, e sim a montagem que eu havia aprendido a ser para me adaptar ao olhar masculino. Ele não era diferente dos amiguinhos que riam de mim na escola por ser magra demais, sem peitos, insossa, nem do coleguinha que riu dos pelos das minhas pernas ou do outro que comentou sobre os pelos da minha virilha pra todo mundo ouvir. Ele era apenas mais um carinha que havia aprendido a odiar a naturalidade dos corpos femininos, acabando com a autoestima das mulheres, para que elas ficassem sedentas por sua aprovação. É o que todos aprendem, de geração em geração, vendo os pais fazendo com as mães, os tios com as tias, os primos mais velhos com as primas, os amigos com as amigas. Homens são treinados para deixar a autoestima das mulheres no chinelo, assim nossos corações palpitam felizes com as migalhas elogiosas caso nos submetamos à performance da feminilidade.

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Só que agora eu seria mãe. E era um dever aprender a me amar, pois ninguém mais faria isso por mim e eu estava mais sozinha do que nunca. E eu ia ter de aprender a qualquer custo a me amar, pois se eu quisesse educar meu filho para respeitar mulheres, a coisa mais urgente que eu deveria fazer era aprender a respeitar a mim, ao meu corpo, às minhas emoções. Foi por isso que lutei para parir em casa. Para aprender a cuidar de mim por completo, para não permitir mais que meu corpo fosse desrespeitado, para não aumentar ainda mais os meus traumas, que já eram muitos. A minha luta tinha uma raiz e a raiz da minha luta era o meu útero. Eu já sabia disso, e levaria esse direcionamento para além do parto. Não depilei meus pelos pubianos para o parto. Depois do parto, conto nos dedos o tanto de vezes que depilei minhas pernas, comecei a deixar os pelos das axilas crescendo livremente também. Tive de enfrentar os olhares de nojo por onde eu andava, mas eu tinha um ideal: o de não parecer uma garotinha pré-púbere, o de não performar feminilidade infantilizadora do meu corpo para agradar olhares masculinos pedófilos. A cada vez que eu andava de metrô com as pernas e axilas peludas, me sentia uma formiga sendo atropelada por caminhões fulminantes de ódio, ódio à naturalidade do corpo feminino. O mesmo ódio com o qual me olhavam quando eu amamentava em público. O ódio me escoltava por onde eu fosse, eu só precisava existir para ser odiada. Então decidi espelhar esse ódio e mandá-lo de volta a quem o dirigia a mim, a fim de não adoecer de tanto ser odiada. Para me amar, para cuidar de mim, eu teria de aprender a me defender, a devolver o ódio, a não deixá-lo entrar.

Quando deixei de odiar meu corpo, me entendi como lésbica

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Das vezes em que escrevi poemas exatos sem saber exatamente sobre o que eu estava escrevendo. Este, só vim a entender agora. Pois é.

Não é que eu virei lésbica depois de adulta. É que eu fui impedida de ser quando criança e adolescente. Na porrada, na humilhação, no medo de apanhar, de ser rejeitada pela família, de ser suja. Isso é heterossexualidade compulsória. Estou certa de que a minha mãe sabia muito bem sobre meus segredos, ela mesma não escondeu que sabia, recriminando o fato de eu ter me relacionado com uma menina. O que veio depois disso, humilhação atrás de humilhação, eu não conseguia entender como lesbofobia, porque eu não sabia nem o que era ser lésbica. Hoje entendo que o que a minha mãe fez comigo a minha vida inteira, foi na tentativa de me consertar, de me corrigir. Ela repudiava todas as minhas amizades femininas, e eu não conseguia compreender por que ela fazia isso. Ela me ensinou a esconder resquícios de sangue de menstruação no lixo do banheiro – ninguém podia ver meu sangue, era nojento -, aliás, tentou me ensinar, mas nunca aprendi muito bem, sempre escapava uma partezinha do papel com sangue. Ela me ensinou a ter vergonha da própria vagina, a escondia de mim como se escondesse seu maior pecado, e eu cresci achando que a minha vulva era esquisita por não ter nenhuma referência, e depois passei a ter a referência da pornografia, e a minha vulva não era nada parecida com aquelas vulvas lisinhas, rosadinhas e fechadinhas que pareciam de garotas pré-púberes para agradar o desejo pedófilo dos homens. Depois que eu pari, que eu aprendi a ter orgulho do meu corpo, comecei a me questionar como tinha conseguido chegar a me odiar tanto a ponto de fingir orgasmo enquanto transava com homens. Por que eu fingia, afinal? Por que eu achava que eu tinha que agradar os homens, os mesmos homens que pareciam transar com uma boneca inflável e não com o ser humano que eu era? Aliás, por que mesmo eu havia me obrigado a gostar de homens, se eu não me sentia atraída por eles, se eu tinha nojo deles antes de começar a me relacionar com eles?

 

Seguir o coração, o sangue quente, o caminho do corpo que grita: lema pra vida.

Seguir o coração, o sangue quente, o caminho do corpo que grita: lema pra vida.

Será? Será? Será? Será que eu era… não, não pensa nisso. Que horror. Não pensa! Não pensa! Será? Será? E se eu… não, você não pode, pensa baixinho pra ninguém te ouvir! Mas qual era o problema, afinal? Não, para de pensar, não pensa nisso, onde você vai parar? Depois de parir, eu me relacionei com dois homens. Um deles, também pai, se dizia feminista, da turminha cool da desescolarização e do poliamor, uau, que homem, este também trepava como se eu fosse uma boneca inflável, e também tentava manipular a minha autoestima. Igual a todos os outros. Eu estava consciente demais para me permitir cair no jogo, apesar de compulsoriamente caminhar para a queda por pura carência. Mas o parto me vinha a mente, como eu, aquela mulher poderosa que eu tinha conhecido no parto, ia me deixar levar por um bostinha manipulador? Será que… não, não pensa. Pensa sim, pensa e bota pra fora, não para de pensar nisso, se permita, pare de se odiar, pare de evitar ser quem você é, pare de bloquear a sua afetividade que tem tanto potencial construtivo para ficar se destruindo com homens que nunca vão conhecer a sua profundidade, dê uma chance a si mesma. Quem sabe? Quem sabe você sempre foi, e só faltou coragem para ser pela luta que você iria enfrentar? Mas fiquei com mais um, só um beijinho na cozinha da casa do meu pai. Era um mocinho bacana, mas eu estava vacinada demais para imaginar que poderia educá-lo para não ser opressor. Chamou mulher de vadia numa letra de música própria? Deletei, bloqueei, não respondi mais mensagens. E, neste dia, no dia em que dei um basta ao desperdício das minhas energias emocionais e intelectuais com machos, decidi que daria uma chance para o que havia sido interrompido em mim. Aquilo que até então eu nem entendia como interrompido.

Sair do armário também foi um parto

Socorro, me tirem daqui! Sim, no ápice da dor, é o que a gente pensa.

Socorro, me tirem daqui! Sim, no ápice da dor, é o que a gente pensa.

Demorei quase dois anos para entender e aceitar por completo a minha lesbianidade, desde o último cara que beijei, até quase pouco tempo atrás, quando comecei a ser perseguida por meus novos posicionamentos políticos, permeados agora com a consciência de minha orientação sexual. O que mais me ajudou a me compreender socialmente foram as teorias feministas radicais: a base das teorias é lésbica. Fui muito magoada por ver mães que eu admirava reproduzindo preconceitos contra toda uma corrente ideológica, justamente a corrente escrita, desenvolvida por lésbicas, logo as lésbicas, cuja literatura é escassa justamente pela perseguição, pela lesbofobia, que queimou livros e apagou existências e referências. Todo o ódio com que as minhas novas ideias foram recebidas tornavam o armário cada vez mais sufocante, tão sufocante que sair dele foi um processo dolorido, mas de repente a raiva ficou mais forte do que a dor e eu enfim gritei para todo mundo que eu era lésbica e que o isolamento social que estavam fazendo comigo era lesbofobia pura e simples. Sair do armário foi como parir: doeu, me expôs, mas tem me tornado forte. Fui saindo aos poucos, contei primeiro pra uma única mulher – a mulher errada, pra quem eu não devia ter contado nunca, pois eu não imaginava o quanto ela poderia me prejudicar por lesbofobia, afinal ela é queer -, depois, por causa da perseguição política, eu fui debatendo publicamente sobre algumas pautas, sempre com receio de estar sendo lida e assuntando amigas ou familiares, contei a minha mãe no meio de uma briga em que ela me dizia que eu era recalcada por não gostar do jeito que o namorado dela a trata “opa, recalcada não, lésbica, me respeite, não puxo saco de macho!”, e três dias atrás, a não-minha quase-namorada esteve comigo durante a festinha de aniversário do Théo, e meu pai, pro meu espanto, convidou nós duas para fazermos uma visita a casa dele, com ar e tom de aceitação da situação. O meu parto durou 24 horas, das quais 18 horas foram de contrações leves e 6 horas foram de dor, com um expulsivo de aproximadamente 1 hora de duração. O entendimento da minha lesbianidade durou 2 anos, dos quais seis meses foram de negação, outros seis meses foram de pesquisa de referência lésbica, oito meses de dor e quatro meses de expulsivo: eu renasci socialmente para mim mesma, para a minha própria visibilidade, no momento em que me senti aceita pelo meu pai. É um paradoxo, porque ele é homem, e ele ter demonstrado essa aceitação não desfaz toda a merda que ele já fez pra mim um dia. Mas o fato de ele ter aceitado tirou um peso das minhas costas. A sensação é de não ter mais o que temer. O pior já passou. Agora é só cultivar o vínculo entre mim e essa nova mulher, que é lésbica. Abertamente lésbica. Mãe e lésbica. Uma mulher que lambeu a ferida que apodrecia por dentro e agora olha para a casquinha – que sim, ainda dói – mas já gosta do que vê.

Agradecimentos finais

Como não poderia deixar de ser, termino este post como terminei o meu relato de parto. Eu agradecia lá, no relato, a todas as pessoas que tinham duvidado da minha capacidade de parir, pois elas me alimentaram de raiva e a raiva me movimentou a despeito das circunstâncias nada favoráveis: emocionais, físicas, econômicas. A raiva de quem duvidava de mim me impediu de sucumbir. Agradeço agora todas aquelas que passaram a me isolar quando comecei a entender a minha lesbianidade e a me posicionar politicamente alinhada à minha nova consciência. Foram essas pessoas que tornaram o meu armário tão pequeno e sufocante que já não era mais preciso de coragem pra sair dele. Quem tem raiva, já tem motivo. Não precisa de coragem. Um brinde ao poder criativo da raiva. E que as mulheres que me condenaram por sentir raiva de homens possam entender que eu infelizmente não tenho o poder de destruir os homens com ela, mas tenho o poder de me movimentar a partir dela de forma a recriar a minha própria existência. E nessa minha nova existência, o patriarcado não me obriga mais a incluir quem tem pênis – além do meu filho – na minha vida. Nessa minha nova existência, o patriarcado não me impede mais de amar mulheres, e nem de gritar esse amor para o mundo.

Eu, pequeno mamãe e a não-minha quase-namorada, um dia antes da festinha de 2 anos.

Eu, pequeno mamão e Jack um dia antes da festinha de aniversário de 2 anos do Théo. ^^

Tim-tim!

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5 Respostas para “Luta que pariu – 2 anos depois”

  1. Marina Matos

    Estou emocionada com esse relato. Que pessoa incrível você é, Nat! Feliz vida nova, sempre!! Que você chegue aonde queira chegar, que esse seu poder de transmutar a raiva e outros sentimentos te leve sempre em frente, onde você decidir ir. Você é dona dos seus passos e ninguém tira isso de ti; que bonito acompanhar seus processos, aprendo muito.

    Beijo beijo

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  2. Ela

    que texto lindo! felicidade na nova vida! e, me diz uma coisa, de quem é essa poesia: “tua alma viva não te suporta assim tão vulnerável a se fingir de morta”??? linda!

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  3. Sou lésbica, mas não “nasci assim” | M.I.L.F. WTF?

    […] Eu poderia ter usufruído da minha carga genética lésbica se a sociedade não tivesse sido moldada para que as mulheres pertencessem aos homens. Mas a sociedade foi moldada para que as mulheres pertencessem aos homens, a sociedade patriarcal é uma sociedade de guerra às mulheres, guerra fria, repleta de estratégias camufladas de “sonhos femininos”, das quais uma delas é o regime da heterossexualidade compulsória: casamento, maternidade. Portanto, se a lesbianidade (e a homossexualidade) têm ou não uma carga genética, não importa, porque se ela tem, as mulheres são alienadas dessa carga, como são alienadas de suas vulvas, seus clitóris, seus úteros (tão alienadas que esses órgãos pertencem ao Estado), seus partos, seus seios. Não me importa se existe ou não essa carga genética. Importa que a sociedade odeia as lésbicas, pois elas representam a encarnação do mal, das mulheres que foram feitas pra serem dos homens e reproduzirem herdeiros e mão-de-obra para os homens mas se rebelam contra o sistema. Lésbicas são a representação do sexo não-reprodutivo, proibido para mulheres. Eu não nasci assim. Eu morri no parto e renasci assim. […]

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