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Mulher sem moradia dá à luz em meio ao terror provocado pela PM

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“Obrigada a grande parceira, Isabel, que fez questão de mostrar as mãos, que auxiliou Fernanda, na retirada do seu bebê do vaso e o limpou, auxiliando-a em seguida em forte hemorragia.” Foto: Katja Schilirò

O palco foi um prédio no Flamengo, Rio de Janeiro, abandonado por ninguém mais, ninguém menos, do que empresas ligadas ao famoso empresário Eike Batista. Cerca de 300 pessoas sem moradia – 80 delas, crianças-, incluindo uma mulher grávida de seis meses, ocuparam este prédio, protestando por um direito humano básico que deveria ser oferecido a todos pelo Estado. O proprietário do prédio abandonado ganhou da justiça a reintegração de posse, marcada para ontem, 14 de abril. A polícia já chegou ameaçando incendiar o imóvel. Com as ameaças e o alvoroço, Fernanda, a gestante, passa mal e corre para o banheiro. Dá à luz ali, em um vaso sanitário, e o bebê nasce em meio a fezes humanas. Depois de parir, a polícia retira o bebê de Fernanda, dizendo que o levaria para onde eles quisessem, colocando a parida em um camburão e o bebê em outro. Por puro abuso de poder, uma vez que havia uma maternidade ao lado do prédio*. Atualmente, no Brasil, existem em torno de 6 milhões de imóveis sem uso, por motivos de especulação imobiliária. Ao passo que, de acordo com o IBGE, existem aproximadamente 5 milhões de pessoas sem moradia. Pela constituição, é proibido um imóvel ficar sem ser utilizado por 15 anos, todos os imóveis no território nacional precisam ter um fim social. Portanto, a ocupação é um ato político para fazer valer a constituição. Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito. Porém, o Estado e a polícia servem para proteger a propriedade privada às custas da vida de mulheres e bebês, como o bebê deste caso, que, por causa da violência de quem deveria servi-los, começou sua vida literalmente na merda.

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Esta imagem representa a recepção de bebês filhos de mães periféricas no Brasil. Até quando? Foto: Katja Schilirò

 

 

Fernanda, nós, mulheres, ativistas pelo parto humanizado, sabemos: nunca mais será a mesma. Ela resistia bravamente, lutando por dignidade para si mesma e para a criança que colocaria no mundo. Ela resistia, muito provavelmente, ao abandono social de seu povo depois de assinada a tal da lei Áurea, relegado à própria sorte, condenado à exploração, a subir o morro e construir favelas em busca de ter onde morar enquanto imigrantes europeus ganhavam terras por aqui. Não sabia, ela não sabia que ao lutar por um de seus direitos mais básicos, a moradia, outros de seusdireitos mais básicos estava prestes a ser trucidado: o direito a assistência médica, à saúde, a um parto respeitoso, a ficar junto da cria após ter parido. Pariu prematuramente sob a ameaça de ser queimada, ela e seu bebê, pela truculência policial. Foi levada em um camburão, enquanto o bebê foi levado em outro. E o bebê, minha deusa, o bebê que chegou ao mundo em meio a gritos, correria, bosta de gente. A recepção deste bebê ao mundo é a cara do que o Brasil faz com suas crianças periféricas. Agora ele está na UTI, respirando com ajuda de aparelhos, correndo risco de morte. Eu só espero que justiça seja feita. Que as militantes do parto humanizado cujas vozes têm sido ouvidas pelas estruturas jurídicas do país se levantem contra este absurdo como se levantaram no caso da Adelir. Quem mais poderia barulho neste momento, além de mães indignadas?

*EDIT: Segundo novas informações, o hospital ao lado do prédio que foi desocupado não era uma maternidade, portanto, não faria sentido os policiais levarem Fernanda e o bebê para lá. Porém, o Miguel Couto, que foi para onde o bebê foi levado, é mais distante do local onde estavam do que o hospital Maria Amélia. Por que levaram o bebê para um hospital mais distante e mais precário?

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8 Respostas para “Mulher sem moradia dá à luz em meio ao terror provocado pela PM”

    • milfwtf

      Tem vídeo de um morador das redondezas chamando os manifestantes de “piores que seus cachorros”, acho que esse vídeo tá no G1

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  1. Gabriela Alves

    Fora que independente do hospital se maternidade ou não o primeiro atendimento deveria sim ser lá! Isso é tão óbvio, não é pq não era maternidade q não seria dado qualquer suporte.

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