Mãe. Inquieta. Lésbica. Foda-se. ▶ #Herstorytelling

Vocês não me impedem de rir dos homens

Um recadinho para as minhas “amigas” feministas “anti-misandria”

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Vocês não vão me impedir de rir dos homens. De chamá-los de machos escrotos, de odiá-los. A tentativa de impedimento só aumenta a minha raiva, pois vocês deveriam estar ao meu lado e não do lado deles, não por mim, mas por vocês, por suas filhas, sobrinhas, afilhadas, netas, alunas. É impossível para mim fugir de minha própria humanidade, e o ódio é intrínseco a humanidade, não sou capaz de deixar de senti-lo só porque a sociedade acha que mulheres não têm o direito de odiar. Eu odeio os homens, sim, a ideologia de dominação por trás da masculinidade, e a capacidade dos sujeitos dessa ideologia interromperem meninas por meio do abuso sexual, impedindo-as de conhecerem suas próprias sexualidades de forma natural e saudável por enxergarem quem tem vagina um depósito de porra, um objeto de masturbação, que foi o que aconteceu comigo. Eu odeio machos abusadores de crianças, eu odeio machos abusadores de mulheres, eu odeio todos eles sem exceção porque todos eles já abusaram de seus poderes pelo menos uma vez na vida, tenha sido com meninas ou com mulheres, tanto faz, o meu ódio é mais democrático do que o governo, esse mesmo governo que é controlado por eles, os homens. Como não odiá-los?

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Vocês não vão me obrigar a educá-los, se querem exercer maternidade com macho barbado a responsabilidade é de vocês. A misandria é a minha piada, a minha catarse, e é inofensiva, não coloca a vida de nenhum deles em risco. Quem acha que eu só posso estar doente por odiá-los não enxerga que a minha cura reside em não calar o ódio abafado dentro do meu peito por tanto tempo pelo fato de eles terem tentado me destruir. Só que não me destruíram, eu estou viva, e em memória das que não estão vivas, eu expressarei o que sinto e o que penso sem me amedrontar com a tentativa de que eu volte a esconder da sociedade a minha indignação. Minha percepção de sobrevivente me pertence. A mais ninguém. E não me venham com esse papinho de homem-exceção porque eu não confio em nenhum. Também não me venham com esse papinho de “ai seu filho é homem” porque não, ele não é, ele sequer sabe que é um menino, ele ainda não tem gênero. Apelar pra vigilância da maternidade que eu exerço não funciona pra mim, pois eu sou sobrevivente dessa vigilância também. Minha própria mãe já tenta fazer esse papel, sem êxito. O pai dele já tentou, sem êxito. A estrutura social também tentou usar dessa tal de culpa materna pra que eu fosse submetida a uma cesárea. Mas vocês estão cansadas de saber que eu não abaixo a cabeça. E eu não abaixo pra ninguém, nem mesmo pra vocês, que já lutaram ai meu lado um dia. Meu filho é um bebê. Neutro. Não socializado. Mas ele será um menino, o menino que eu vou educar com a minha paixão pela educação e pelo respeito ao ser humano, e ah, eu confio plenamente na minha capacidade como educadora, deem uma lida neste blog e vejam com seus próprios olhos a minha confiança em mim mesma como educadora. E ele será um homem, o homem livre para usar ou não aquilo que aprendeu comigo. E tudo bem, porque eu não serei a mamãezinha dele pelo resto de minha vida, um dia ele será responsável pelos próprios atos e eu não terei mais nada a ver com o assunto. Se ele resolver jogar no lixo tudo o que aprendeu com sua mãe, que poderei fazer? Poder pra isso ele terá, e eu não sentirei culpa, porque eu já estou desconstruindo a culpa no hoje, hoje, hoje, a única coisa nessa vida que realmente me pertence, o hoje com o qual meu corpo escreve sua história, embora a sociedade assedie o tempo todo o meu agora tentando turvar a minha percepção e me fazer voltar para o lugar de coadjuvante, usando o meu tempo em favor de quem quer explorar a minha mão-de-obra de graça, graça, sagrada graça materna, o lugar da mulher culpada, da Eva que mordeu a maçã, que seduziu o homem, que provocou sua queda, destinada a punição, ao sofrimento na hora de parir.

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Prefiro a morte a voltar para o lugar onde vocês estão, que a verdade seja dita, pois vocês que querem impedir que uma mulher com história de abuso sexual infantil não odeie quem tem o poder de destruir as meninas de hoje, do agora, vocês é que estão com a percepção turva. As meninas, suas filhas, sobrinhas, alunas, afilhadas. Não me curvarei aos cânones da moral e dos bons costumes que me querem silenciosa, nem me intimidarei com o isolamento que vocês oferecem para mim como punição, porque eu estou cagando e andando para o castiguinho de vocês. Olhem bem pra mim. Cheguem perto. Uma sobrevivente de abuso sexual infantil. Observem a força que vem do meu útero. Eu sobrevivi a depressão crônica, a déficit de atenção, só com a minha capacidade de sentar e escrever sobre o que sinto e penso. Sem remédios. Vocês acham mesmo que pessoas com quem nem mesmo me encontrei pessoalmente serão capazes de me fazer retroceder? Rá, rá, rá. Pago pra ver. A sobrevivência é uma das maiores capacidades humanas, é a potência original e primitiva que reside em cada animal de forma instintiva, a sobrevivência é o meu instinto e não será enclausurada pelos discursos acadêmicos.

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Estar consciente sobre como eu sobrevivi a todo desejo de aniquilação alheio me permite compreender os mecanismos dessas tentativas de aniquilação. Uma vez entendidos, entendidos pra sempre, e é isso o que me separa de vocês. Só isso. Potência para entender todas vocês têm, isso é um fato, mas duvido que pessoas que não foram obrigadas a tatear os limites da própria saúde mental se equilibrando no meio-fio entre o desejo de viver e o desejo de morrer cheguem um dia a compreender o que significa essa minha teimosia em me manter viva e expressiva apesar de quererem domada, dopada, a louca que deve a qualquer custo ser calada. Com o quê, remédios? Rá, rá, rá, cadê a defesa da despatologização da vida agora? A minha capacidade cognitiva vai muito bem, obrigada, a de vocês é que precisa de um empurrãozinho. Aprendam a fazer piada com o opressor. Em vez de tentarem me calar venham rir comigo, porque é disso que a sociedade precisa. De sobreviventes que façam piadas com aqueles que quase as levaram a morte. Custe o que custar. Isso sim é piada. Isso sim daria ótimos stand-ups. Originais, engraçadas e de fato politicamente corretas, como toda piada deve ser. Vocês preferem isso ou preferem continuar nesse mimimi sem-fim de não ao discurso de ódio misândrico e ficar colaborando com o silêncio mortífero imposto às lésbicas e às sobreviventes de abuso sexual infantil, minhas queridas? Vocês por acaso não preferem empatizar e rir com a gente, legitimando nossas catarses curativas e inofensivas? O pacifismo de vocês é da mesma matéria que o silêncio de vocês quando nos veem sendo publicamente expostas e não saem em nossa defesa. Vocês escolheram um lado: o dos homens. Assumam isso pelo menos pra si mesmas. Ou então revejam suas posturas.

 

 

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2 Respostas para “Vocês não me impedem de rir dos homens”

  1. arttemiarktosArttemia Arktos

    Esse seu texto me fez ter um sonho: eu estava num bar, sentada numa mesa conversando com uma amiga. De repente, chegaram uns caras e se sentaram na mesa ao lado da nossa. Só que na mesa deles, faltou uma cadeira pra um dos caras. Ele saiu, pegou uma cadeira e colocou-a entre mim e minha amiga. Eu fiquei com muita raiva e me levantei e vi que minha amiga tinha desaparecido. Fiquei com mais raiva ainda e empurrei o cara no chão. Acordei.

    PS: No meu outro comentário, não estava te cobrando, só manifestei a minha opinião de que pessoas como você, fazem muita falta no feminismo. Adoro seus textos todos. Bjs. ❤

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